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Deus ressuscitou. E foi no Brasil

por Paulo Ferrareze Filho

Original Artwork: Engraved from a portrait by H Olde (Photo by Hulton Archive/Getty Images)

Deus ressuscitou, está de novo na moda. Voltou a abençoar o Brasil e os brasileiros.

Os mais fiéis até podem dizer que ele nunca nos deixou, mas fato é que ele voltou a estar na mídia. Se tivesse instagram teria mais seguidores que a Marina Ruy Barbosa.

Tornou-se arroz-de-festa de um discurso que busca atrair atenção e votos usando uma conhecida estratégia de marketing: falar uma linguagem que soe familiar aos destinatários. Afinal, ainda que você seja ateu ou desinteressado nos assuntos do divino, inevitavelmente Deus lhe soará familiar.

“Vai com Deus”, “Deus te ajude” e “Graças a Deus” são universais da língua. São mensagens que nunca recebemos do inimigo. Deus na jogada é, desde que ele nasceu e ficou famoso, uma boa jogada. Ainda que o Deus de cada um tenha manias e jeitos diferentes.

Deus. Curioso como esse nome que damos ao indizível, ao Todo, ao além-do-humano é a palavra mais terrena da política ocidental. Ao dizer “Deus”, milagres simplesmente acontecem. John Austin foi genial, sabia que a linguagem era um meio de fazer coisas no mundo, de modificar o mundo.

Claro que a palavra Deus é enunciada para promover bem quereres, carinhos, curas e carícias na alma de alguém. No entanto, certamente quem assume que Deus é a suprema bondade não pode tolerar que a palavra “Deus” assuma-se como causa de um totalitarismo. Quando “Deus” converte-se em autoritarismo é sinal de que melhor seria se tivéssemos ali um Diabo..

Dias atrás Edir Macedo anunciava um escárnio no imenso Reino de Salomão que aceita débito, crédito e também a alma de ignorantes. À vasta manada Macedo dizia que as mulheres não devem estudar além do ensino médio já que devem ser subjugadas ao marido. O argumento? Deus.

Deus pode ser usado para sabotar a pouca clareza de quem já não tem quase nenhuma. Deus pode ser usado para sustentar a escrotidão, o machismo, a má-fé, a espoliação de consciências cheias de medo e de desamparo, o fascínio ingênuo de uma pobreza contumaz que vai do material ao psíquico. A escuridão dos crentes é assustadora, paranoica, patológica. Nada mais poderoso que um dogma transepocal para manipular a vida privada e política de um povo de ignorantes, governados por alguém que imagina que estudar a Bíblia é mais importante que os livros heréticos da ciência.

O coro de fiéis diz amém ao mesmo Edir Macedo que, dias antes, abençoava Bolsonaro e, através dele, o povo brasileiro.

A crença privada das pessoas é sagrada. Mas no momento em que você tenta enfiar goela abaixo a sua para os outros, e, o que é pior, cobrando dinheiro ou pedindo votos, você já se tornou o bezerro alado do satanás.

Se eu tivesse a chance de inserir um pen-drive na cabeça dos inomináveis, com direito a download de um único arquivo, baixaria o seguinte: “diferença entre público e privado.doc.”.

Nesse arquivo consta o seguinte minuto de sabedoria: “toda vez que confunde-se o privado com o público o bezerrinho alado do autoritarismo é fertilizado.”

Foi (também) para combater o autoritarismo que Nietzsche matou Deus no início de Assim Falou Zaratustra. Tenho que Nietzsche foi o primeiro filósofo anti-autoritário do Ocidente. Mas afinal, qual Deus está morto?

Lhes conto, fiéis e infiéis.

Aquele que serve de régua metafísica para todos, está morto. Aquele que impede que pessoas se separem porque juraram diante Dele, está morto. Aquele que impede que mulheres tenham orgasmo porque casaram com caras que tem ejaculação precoce, está morto. Aquele que gera mais culpa que deleite, está morto. Aquele alçado a ser o Deus dos deuses, está morto. Aquele que for a tal ponto introjetado que impeça que desejos demasiado humanos se façam, está morto. Aquele que adoece quem vê e cega quem não pensa, está morto.

PAULO FERRAREZE FILHO é professor de psicologia jurídica, psicanalista em formação e doutor em filosofia do direito (UFSC).

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