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Capitalismo e (des)laço social: sujeitos na sombra do indivíduo

por Flávia Tridapalli Buechler

O presente texto tem por objetivo refletir sobre a incidência no laço social contemporâneo de um discurso hegemônico que é marcado por normas tecnocientíficas. Para tanto, problematiza-se a construção de um modelo ideal de Indivíduo que segrega todos os sujeitos que se diferenciam dele. Por meio da psicanálise e da filosofia, destaca-se o predomínio da violência simbólica e real, consequência da sobreposição de campos estruturalmente distintos, no caso, o campo social e o da tecnociência.

O laço social contemporâneo é marcado pela hegemonia do discurso do capitalismo, que se manifesta, entre outras maneiras, através da economia de mercado. Sendo uma tecnociência, a economia de mercado consiste na análise da produção, consumo e troca de bens e serviços disponíveis. Tecnicamente, esse tipo de economia evidencia o que se deve ou não fazer dentro desse campo que trata prioritariamente de números, bens, tendências e lucro. Contudo, observa-se que o discurso do capitalismo também se configura como uma ideologia do ser, baseada nos mesmos princípios do capitalismo enquanto um modelo de sistema econômico de mercado, onde acredita-se que as normativas que servem para a administração de números e bens também servem para a sistematização do humano e do campo social.

Uma ideologia estrutura-se internamente pela racionalização e defesa de interesses a partir de um sistema de ideias que se pretende universal. Isso quer dizer que há um caráter totalizante em toda ideologia, por meio do qual se sustenta um modelo ideal a generalizar. Isso no campo tecnocientífico com frequência torna-se imprescindível, pois é notório que quando se descobre a eficácia de um modelo ideal de técnica basta a sua repetição para que o objetivo seja alcançado. A ciência médica que se ocupa das patologias e disfunções do organismo humano é um ótimo exemplo disso, ainda bem!

O problema se revela quando um sistema de ideias baseado em princípios econômicos, logo, tecnocientíficos, começa a se sobrepor a um outro campo que não trata de números e bens, mas sim, de sujeitos, da vida civilizatória e da livre circulação da palavra, a saber: o campo social.

Neste campo a generalização de um modelo ideal por meio de uma ideologia totalitária torna-se um erro, quando não um horror, visto que sua aplicabilidade só se torna possível diante do rechaçamento da diferença existente entre o humano e as coisas. Isso significa dizer que por mais eficaz que uma técnica seja ela jamais será humana. Inclusive, que sua aplicabilidade no campo social por vezes faz o progresso aliar-se à barbárie (FREUD, 1938/2004). Tecnologias de extermínio, como os fornos e as câmaras de gás utilizadas durante o Nazismo são um exemplo disso (MBEMBE, 2018).

Com a psicanálise, a relação entre o eu e o outro estreitou-se através da noção de discurso. O discurso é caracterizado por um sistema simbólico que envolve precisamente a noção de significante, e que opera tanto na constituição do sujeito quanto na determinação de uma forma de relacionamento dos humanos entre si. Quando o discurso do capitalismo se propõe como uma ideologia do ser baseada nos princípios que fundamentam o seu sistema econômico, constata-se que esse discurso determina uma forma específica de relação entre o eu e o outro, que não é sem consequências para o campo social.

A incidência do discurso do capitalismo no campo social pode ser percebida a partir da construção de um modelo ideal de indivíduo ao qual todos os sujeitos reais precisam se referir. Este modelo de Indivíduo é representado com letra maiúscula por se tratar de uma construção imaginária que não leva em consideração a marca do mal-estar que é constituinte do sujeito (FREUD, 1929/1996). O Indivíduo se difere radicalmente da noção de sujeito proposta pela psicanálise, pois enquanto o primeiro se caracteriza por sua completude e pleno desenvolvimento racional-comportamental, o segundo tem como marca fundadora a divisão e o conflito, condições que o estruturam enquanto ser falante, sujeitado à incompletude (LAJONQUIÈRE, 2010).

Posto que o modo como habitamos o mundo e nos relacionamentos é produzido discursivamente, e que atualmente há um modelo imaginário do ser, chancelado por um discurso dominante, que se configura a partir de princípios tecnocientíficos e que rechaça o mal-estar constituinte do sujeito, nos resta indagar a respeito dos impactos dessa sobreposição de campos que, como mencionado anteriormente, em nome do progresso pode tender à barbárie.

(Des)laço social: a face mortífera da segregação

Um discurso que se pretende totalizante é sempre estruturador de modos de relações sociais que produzem segregação. Trata-se de um paradoxo, pois se o termo relação tem como princípio o vínculo e a proximidade, o fato de aparecer relacionado ao termo segregação denota que um discurso por vezes pode ter como fim o (des)laço social. Se o enlace do sujeito no campo social ocorre por meio da rede discursiva que ali opera, pode-se dizer que todo discurso dominante tem o poder de ditar quem está dentro e quem está fora do laço social. Bem como, tem o poder de normatizar modos de ser que são valorizados ou não (PEREIRA, 2011).

A ideologia do ser, imposta pelo discurso do capitalismo, lança o humano aos imperativos da economia de mercado, que inevitavelmente naturaliza o sujeito enquanto ser de produção e consumo. Para um laço social que é governado por esse imperativo discursivo, só há lugar para os sujeitos que correspondem à imagem e semelhança do Indivíduo, ou seja, que tem seu valor mensurado pela economia que movimenta. Como afirma Jappe (2019), quando refere que o sujeito contemporâneo está dominado por valores oficiais, como o de trabalhar muito para consumir muito e os imperativos de competição, performance, eficiência e velocidade, sem se perguntar a serviço do que é necessário segui-los. Em termos psicanalíticos, pode-se nomear estes valores como imperativos de gozo, por sustentarem que é possível eliminar a incompletude que é constitutiva do sujeito.

O que o discurso do capitalismo no campo social desvaloriza e desconsidera são as questões políticas, sociais, culturais e subjetivas que afligem a vida humana, pois chancela um modelo ideal de Indivíduo que expropria a condição de sujeito do humano. Dessa maneira, esse imperativo contemporâneo mata simbolicamente aqueles que estão à margem do laço social, por não corresponderem ao que o sistema aprecia. Destaca-se que essa morte simbólica dirigida a determinados grupos por vezes produz mortes reais, sendo essa última passível de acontecer com todos.

Tomo como exemplo a oportunidade que tive ao escutar adolescentes reclusos do convívio social por já terem cometido algum tipo de ato infracional grave – homicídio, latrocínio, tráfico de drogas. O que eu escutava desses adolescentes? Com frequência, narrativas de desvalorização da própria vida, o que fazia com que se colocassem repetidas vezes em situações de risco. Lembro-me que na ocasião me chocava o modo como esses adolescentes desconsideravam o valor que a vida pode ter. E me questionava sobre a relação que isso teria com a prática de atos violentos contra a vida dos outros. Foi em supervisão, que uma indagação feita pela minha orientadora abriu caminhos para elaborar as narrativas que eu havia escutado nos encontros com aquele grupo de adolescentes. Sua questão foi certeira: “mas se a vida deles não vale nada porque a do outro teria que valer?”.

Que existimos enquanto organismos vivos não há dúvida, mas afirmar que todos existem simbolicamente enquanto sujeitos reconhecidos em suas falas e direitos há que se questionar. A morte simbólica é decretada a todos que não são contemplados por esse discurso que valoriza a existência de um único modelo. Ou então, que leva em consideração apenas aqueles modos de ser e estar no mundo que incansavelmente tentam corresponder à imagem e semelhança desse ideal que goza por completo.

Diante desse cenário, percebe-se que às vidas invisíveis resta a sobrevivência de qualquer maneira e a qualquer preço. Vale ressaltar que o objetivo aqui não é desresponsabilizar o sujeito. No entanto, diante de situações atuais que escancaram problemas de ordem social, tornam-se inevitáveis perguntas que considerem questões políticas, sociais, culturais e subjetivas em nossa época. Se isso não acontece, todos os campos da existência humana ficam condenados aos princípios da economia de mercado, que trata apenas de números, bens, tendências e lucro. Sendo assim, numa sociedade que aceita aberta e de maneira amplamente consensual que o lucro seja o único motor viável para fazer funcionar a coletividade, a norma torna-se ganhar o máximo de dinheiro possível, independente da validade dos meios necessários para atingi-la (BADIOU, 2017).

Enquanto o único destino daqueles que não correspondem ao modelo ideal de Indivíduo for a segregação e a invisibilidade, parece que restará ao campo social tornar-se palco de cenas cada vez mais violentas e inumanas. Nesse sentido, enquanto problemas sociais forem pensados a partir de soluções econômicas, técnicas e científicas, nas quais o sujeito aparece enquanto objeto, o sistema tende a produzir exatamente o mesmo problema que deseja eliminar. E é nesse momento que a sociedade atual demonstra-se contraproducente à ordem civilizatória.

Problemas sociais trazem à tona questões políticas, visto que o eterno retorno deles denuncia que algo na esfera pública não consegue minimamente se organizar. Segundo Mbembe (2018), a política é o exercício da razão na esfera pública que visa a, através da circulação da palavra e do reconhecimento do humano enquanto sujeito, um projeto de liberdade e realização de acordos em uma coletividade. No entanto, o autor refere que o exercício dessa razão se tornou, por vezes na história, o exercício de uma racionalização que se pretendia bastar enquanto verdade. Nesse contexto, pode-se compreender que uma racionalização consiste na criação de ficções discursivas que justificam determinadas condutas e normas no exercício da política, como foi o caso do Nazismo ao oficializar um discurso de hierarquia racial.

Se a relação entre discurso, política e sociedade é de codeterminação, pode-se pensar que os problemas sociais de uma determinada época denunciam algo que o discurso dominante dessa mesma época insiste em não querer saber. Nesse sentido, pode-se supor que há uma intenção na sustentação de um discurso configurado por princípios que resultam na segregação do corpo social. Em outras palavras, pode-se dizer que formas de segregação correspondem a tecnologias destinadas a justificar determinadas condutas e normas no espaço público, mesmo que a preço da liberdade e da vida de alguns (MBEMBE, 2018).

A consensual aceitação da política que segrega e consequentemente mata, seja de maneira simbólica ou real, é o assassinato do projeto de liberdade e reconhecimento que funda a verdadeira política enquanto livre circulação da palavra e ação entre iguais sobre o que há de comum, a favor da vida em conjunto e do mundo. No entanto, para que os sujeitos venham a se interessar sobre os assuntos públicos, é preciso que a libertação preceda a liberdade, pois ser livre significa antes de tudo, estar livre do medo e da necessidade (ARENDT, 2018).

Nessa lógica, entende-se que uma sociedade que consente com uma ideologia do ser pautada em princípios econômico-tecnocientíficos faz com que a violência retorne cotidianamente sob várias formas, principalmente por não considerar a singularidade e polissemia do sujeito ao validar exclusivamente o Indivíduo, e se utilizar de soluções reducionistas e objetalizantes para combater questões sociais. O que segundo Arendt (2018) e Mbembe (2018), pode ser nomeado como política da morte, que conduz inevitavelmente ao horror.

FLÁVIA TRIDAPALLI BUECHLER é psicóloga, especialista em psicopatologia da infância e da adolescência e especializanda em psicanálise, sujeito e laço social (UNIFEBE/HSC).

Referências

Arendt, H. (2018). Liberdade para ser livre. Trad. de Pedro Duarte. Rio de Janeiro: Ed. Bazar do Tempo. (Trabalho original publicado em 1966-67)

Badiou, A. (2017). Em busca do real perdido. Trad. de Fernando Scheibe. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

Freud, S. (1996). O mal-estar na civilização. S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, trad., Vol. 21, pp. 67-150). Rio Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1929)

Freud, S. (2004). O homem Moisés e a religião monoteísta. Trad. de Renato Zwick. Porto Alegre: LP&M. (Trabalho original publicado em 1938)

Jappe, A. (08/05/2019). Entrevistado por Bernardo Álvarez-Villar, via El Salto, traduzido por Daniel Alves Teixeira. Recuperado de: https://lavrapalavra.com/2019/05/08/nenhum-problema-atual-precisa-de-solucoes-tecnicas-se-trata-sempre-de-problemas-sociais/

Mbembe, A. (2018). Necropolítica. Trad. de Renata Santini. São Paulo: n-1.

Lajonquière, L. de (2010). Figuras do infantil. Rio de Janeiro: Vozes.

Pereira, M. R. (2011). A criança-objeto (pp. 301-313). Almeida, S. F. C. de, & Kupfer, M. C. M. (Orgs.). A psicanálise e o trabalho com a criança-sujeito. Rio de Janeiro, RJ: Wak Editora.

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