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A culpa é dos idiotas

por Paulo Ferrareze Filho

Créditos da imagem: Aroeira

Nos últimos dias assistimos a novas proibições, novas mortes e novas declarações que são sintomas do diagnóstico de patologização do Brasil.

Chico Buarque está proibido. Laerte está proibido. Marighela está proibido. Por outro lado, Edir Macedo está permitido. Se Jesus estiver descendo da goiabeira, tudo bem. Se a Terra estiver plana estálquey. Comemorar morte também pode.

Lembro dos idiotas que conheço que votaram no Bolsonaro e me dou conta de que quase nenhum deles assiste a filmes ou faz análise pessoal. Assim como também não leem porra nenhuma.

Um deles me indicou gibis do tio Patinhas quando tentei aprofundar o assunto a partir de autores. O tio Patinhas – vocês sabem – é aquele carinha que ama dinheiro. Talvez seja isso: a falta de cultura, a adoração por grana e a falta de análise é a mistura que produza idiotas.

Se no campo das artes a coisa vai assim, no combate à criminalidade eles comemoram. Com o mesmo entusiasmo de Witzel quando desceu na ponte Rio-Niterói depois da morte do sequestrador do ônibus.

Eu conheço bem o discurso dessa gente. Eles dizem: “não se faz omelete sem quebrar ovo”. Era isso que me diziam pra justificar que Hitler não estava assim tão enganado, ou que o massacre do Carandiru era mais solução do que problema. O ovo desse omelete, agora, é a menina Ágatha, morta “sem querer” pelo Estado. Não é o policial quem puxa o gatilho. O policial é pobre, está sempre à beira de um suicídio. Ele é também é vítima, ainda que sequer perceba isso. Sua truculência é fruto disso tudo. E o Estado, que foi quem matou Ághata a partir do voto do conjunto de idiotas, não está preocupado em perder meia dúzia de negrinhes em nome do combate ao que eles imaginam ser o Mal, como esse emezão maiúsculo mesmo. Eles, os idiotas, maniqueístas que sempre foram, morrem de medo do Mal.

Mas querem saber a real: quem tá com a mão suja de sangue, tendo digitado mal na urna, dado um canetaço inconsciente ou mesmo apertado o gatilho, tá pouco se lixando para a menina.

Witzel vai na TV dizer que sente pela morte dela. Eu acredito nele porque ele é um burro do bem. Witzel, como a maioria dos idiotas, não é alguém que se possa dizer que não presta. Ele não é do mau, mas apenas um idiota que representa outros idiotas. Ele parece realmente acreditar naquele monte de bosta que produz transformando preceito cristão em política pública. É isso que acontece quando transforma-se o privado em público: bosta. A Bíblia é uma vilã na mão de quem não compreende que ela pertence apenas ao espaço privado da crença de alguém. Essa gente ainda não entendeu que a laicidade do Estado não pode ser relativizada sob pena de andarmos de ré? Que corremos o risco de ficar condenados pela história não só como inescrupulosos, mas também como a geração dos idiotas-mor?

Esse é o Brasil, com 30% de idiotas remanescentes. Em números cardinais é um exército de aproximadamente 60 milhões de antas, todas vestidas de gente humana, com suas orelhas de burro penduradas, sua incapacidade de escapar do binarismo, seus medos virgens, sua falta de cultura, sua breguice de gestos, sua falta de autoconhecimento, suas violências veladas que emergem de jeitos tenebrosos, seus interesses segundos, suas verdades que fedem a perfume neopentecostal ruim.

Que triste o modo como foram cegados, cooptados, manipulados. O pior ignorante é o que não sabe que não sabe. Talvez seja pelo fato de que a falta de cultura lhes distancia da possibilidade de articular argumentos, ao mesmo tempo em que a falta de contato com o próprio inconsciente reduz seus campos de compreensão e interpretação. Isso me lembra uma frase genial do Mario Quintana que dizia que “o pior analfabeto é aquele que, sabendo ler, não lê”. Por isso, mesmo sabendo ler, os idiotas não se dão muito bem com argumentos que fiquem fora do seu campo de compreensão. Daí porque entendem a linguagem do grito, do ódio, da bala que mata rápido, das frases feitas (“- Mas e o PT, hein?”), das mentiras retóricas que não se dão ao trabalho de colocar no google pra saber se é fake ou não, dos bordões amansa burro.

Os filhos da ditadura e os filhos dos filhos da ditadura que não souberam matar seus pais não aprenderam a argumentar, não sabem quem são e não têm cultura nenhuma. Bolsonaro e Witzel ganharam por eles e com eles.

São os idiotas que a gente não sabia bem distinguir no meio da grande massa antes da onda Bolsonaro. Se há algo de bom com o Bolsonaro é que a nossa capacidade de discernir a idiotia ganhou provas autoevidentes, ainda que tenhamos que ver crianças morrendo por tiros dados com dedos que apertam, não um gatilho, mas um número na urna eletrônica. Ainda que deixemos de ver filmes que prestam por conta da censura. Ainda que o Deus dos outros seja enfiado goela abaixo de todos.

PAULO FERRAREZE FILHO é professor universitário, doutor em filosofia do direito (UFSC) e psicanalista em formação

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