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Quem julgará os zombadores da morte da esposa de Lula?

por Djeff Amadeus

Neste momento, enquanto escrevo, devo confessar que algumas lembranças invadiram minha mente de forma brutal, fazendo-me lacrimejar. Por todas, cito o olhar que Lula dirigia a mim, na UFRJ, no dia em que lançávamos o livro: Comentários a uma sentença anunciada: o processo Lula. Enquanto o meu querido amigo e Professor Afrânio Silva Jardim falava de sua filha, eu e Lula chorávamos, emocionados, com as belas palavras de Afrânio em homenagem à Grande Defensora Pública Eliete, sua filha.

Mas por alguns segundos, enquanto eu e Lula nos olhávamos, ainda chorando, percebi que o olhar do ex-presidente, por um instante, parou de me alcançar, ficando direcionado para o alto. Ele pôs as duas mãos no rosto, depois na boca, enxugou as lágrimas, pôs-se a olhar novamente para alto, falou algumas palavras e, depois, retomou a atenção à fala do querido Afrânio.

Impossível não pensar que a fala de Afrânio, sobre Eliete, possa ter remetido o ex-presidente Lula à lembrança de Marisa Letícia, assim como, no meu caso, trouxe à tona a lembrança do meu vovô Mariano.

Diante de tais lembranças, devo confessar a dificuldade para ter compostura, em minha escrita, ao deparar-me com a seguinte manchete: “Procuradores da Lava-Jato ironizam morte de Marisa Letícia e luto de Lula.”

É o tipo de texto que, em uma “democracia”, jamais gostaríamos de escrever, dado que nos obrigam a lembrar de tudo aquilo que um ser humano pode ser capaz de fazer com o outro, vale dizer, lembra-nos que somos capazes gozar com o sofrimento alheio.

Por isso, Nietzsche dizia para ter cuidado quando se pretende ser um salvador da pátria, afinal, quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você. Dizendo de outra maneira: a vergonha que nos constitui – e que nos freia – vai se  quando vamos perdendo a capacidade de nos indignarmos com o sofrimento alheio.

O que me surpreende – e entristece – é que, na ditadura, segundo o relato de Ivan, um torturado, grande parte da equipe de Fleury só conseguia torturar dopada, vejamos suas palavras: “Pra torturar, de início eles se dopavam: picada, cocaína, etc. Parte da equipe Fleury tomava picada enquanto outra parte torturava. Depois se habituam, torturam com a maior tranquilidade, pra eles é café pequeno.”[1]

Sabem o que me mais surpreende nisso tudo? Que, de acordo com a reportagem, enquanto os procuradores zombavam da morte da esposa do ex-presidente, não parecia ter ninguém dopado, como a equipe Fleury fazia para somente assim conseguir rir com o sofrimento alheio. Ou seja: aquela conversa entre os Procuradores se deu com todos em sã consciência.

A ausência de compaixão retratada na reportagem, como se tudo fosse possível em busca da famigerada “verdade real”, fez com que eu me lembrasse da artimanha criada pelo Procurador do rei, na obra “Os Miseráveis, de Victor Hugo.[2]

A história se passa com um “miserável” que, pelo amor à sua esposa e seu filho, ao vê-los tomado pela miséria, decidiu fabricar dinheiro falso. Nessa época, a pena para tal crime era a morte. Mas, diante da miséria, num ato de desespero, sua mulher decidiu trocar a primeira moeda que seu marido fabricara. Foi descoberta. E presa. Mas só havia provas contra ela. O Promotor do rei não estava contente, pois queria a prisão dela e, principalmente, do marido. O procurador do rei, então, teve uma ideia: juntou fragmentos de uma carta e, cretinamente, forjou a ideia de que o marido dela estava traindo-a. A esposa, tomada pelo ciúme, delatou o marido. Assim, marido e mulher, que fabricaram uma moeda falsa para comprar um pão, porque estavam com fome, foram condenados à morte. Enquanto o Promotor do Rei vangloriava-se de suas habilidades que o levaram a descobrir a “verdade real”, o Bispo, que ouvia tudo calado, perguntou:

– QUEM JULGARÁ ESSE HOMEM E ESSA MULHER?

– O TRIBUNAL DO JÚRI, RESPONDERAM A ELE.

E, COM UMA VOZ ALTA, REDARGUIU:

– E QUEM JULGARÁ O PROMOTOR DO REI?

Diante disso, a pergunta que eu faço é a seguinte:

E quem julgará os Procuradores da Lava-Jato que, segundo a reportagem, ironizam morte de Marisa Letícia e luto de Lula?

Não será o CNMP e tampouco a Justiça que irão julgá-los. Também não acredito que a consciência de cada um desperte-os de seus sonos dogmáticos, como diria Kant.

Eu, na condição de alguém que tem fé nas crianças, acredito que caberá às crianças o julgamento dos senhores e das senhoras. Como diria Ariano Suassuna, não sou pessimista, porque todo pessimista é chato, nem otimista, porque o otimista é um ingênuo. Sou, por isso, um realista esperançoso.

E nessa condição de realista esperanço convoco a todos e todas, inspirado em Peter Pál Pelbart, para dizer-lhes que a fala dos Procurados, segundo a reportagem, reflete a base de ódio que nossa sociedade foi construída, que tem na escravidão e o racismo o seu ápice. Mas se é verdade que há muito ódio, também há muito amor. Essa violência, portanto, acaba em nós e, principalmente, nas crianças. O ódio não vencerá o amor. Fé nas crianças!

DJEFF AMADEUS é advogado e mestre em Direito e Hermenêutica Filosófica pela UNESA/RJ


[1] NETO, Alfredo Naffah. Poder, Vida e Morte na situação de tortura. Esboço de uma fenomenologia do terror. São Paulo, Hucitec, 1985, p. 93.

[2] HUGO, Victor-Marie. Os Miseráveis. Tradução de Regina Célia de Oliveira. Martin Claret: São Paulo, 2014. p. 53.

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