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Ecos de uma democracia em vertigem (Parte 3)

por Mauro Gaglietti

Sig, O Rato, continua repercutindo o documentário “Democraica em Vertigem” (Netflix). Nessa linguagem fílmica, Lula é retratado como sendo a lacuna, a falha, a promessa, a esperança frustrada, mas também como a autêntica personificação deste potencial, um líder cujo magnífico carisma é consistente tanto se dirigindo aos trabalhadores grevistas quanto à frente dos assuntos de Estado. Nesse documentário, Lula é apresentado como uma espécie de herói trágico que foi induzido a participar de esquemas centenários de corrupção para poder tocar sua agenda de inclusão, que tirou 30 milhões de pessoas da pobreza e, ao mesmo tempo, facilitou as empreiteiras e bancos com as mais altas taxas de juros do Planeta. Isso lembra muito Getúlio Vargas entre 1930 e 1954, com um parênteses entre 1945 e 1950, “dirigindo” a política diretamente de suas estâncias em São Borja (RS). Lula hoje comanda o PT de dentro da carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Nessa narrativa em “Democracia em Vertigem” consta, ainda, a versão PT do Mecanismo ao ganhar musculatura por conta do boom de preços de commodities, coexistindo com os esforços do partido de melhorar e impulsionar o Sistema Judiciário brasileiro, a autonomia da PF, ppor exemplo, uma contradição que era insustentável e terminou em lágrimas. Mas enquanto o retrato da diretora Petra Costa sobre Lula e sobre Dilma, tende a parecer admirável, dificilmente acrítico em absoluto. O que energiza sua história é a luta para alcançar uma medida de clareza analítica em meio às  catástrofes. Em vez de obscurecer sua visão, suas simpatias a aguçam, elevando à potência das batidas do coração/esperança. O que a diretora do documentário faz, transparece – o que ela mostra, desvela –  os silêncios gritam – o olhar das senhoras que fazem a limpeza dos vidros do Palácio, narram. É tanto um suspense quanto um épico, um conto de esquemas conspiratórios e egoístas que é, ao mesmo tempo, uma saga de grandes forças históricas e mudanças de época, de poder e ideologia em um país que nunca foi governado (até o presente momento) por forças liberais em economia e na política. Um arranjo de forças políticas hegemônicas que também colocou o pensamento conservador nos costumes – nos últimos 30 anos – em um canto chamado “sem espaço”. Em decorrência disso, as concepções denominadas de “centro direita” e “direita”, represaram, pelo visto, muitas forças nessas três décadas, emergindo a partir dos espaços “perdidos” pela chamada “esquerda caviar”. As acusações contra Dilma e Lula são explicadas no referido documentário como resultantes de traições que amalgamam um filme cujo roteiro foi inspirado em Shakespeare, um golpe de Estado judicial e legislativo realizado por meio do emprego de recursos legais e instituições que deveriam ser neutras. Os bandidos que transbordam da película em tela são ricos industriais e membros dos partidos centristas e de centro-direita do Brasil. O País dos paradoxos é o ar e o sangue do documentário:  os heróis da esquerda haviam colaborado com esses mesmos partidos, feito alianças e entregado as estatais para PP, PTB, MDB, entre tantos outros. E o êxito do governo Lula na década dos anos 2000 – um período de crescimento econômico internacional com repercussões no País, e, ao mesmo tempo, uma reforma social ambiciosa – foi, até certo ponto, possibilitado devido à acomodação de diferentes interesses de setores econômicos e uma ampla política de alianças (presidencialismo de cooptação). Um tempo no qual não havia oposição, todos ganhavam…. Uma das implicações de “Democracia em Vertigem”, que aparece mais ao final como uma espécie de auto crítica, é que, como Lula e o PT (e os partidos satélites) perderam contato com o movimento de massas que os levaram ao poder, dominando as alavancas do sistema político, eles se tornaram vulneráveis à ira popular à “direita”. No caso, percebe-se que o  lulopetismo criou o “monstro do bolsonarismo”, esvaziando o PSDB e o MDB. A corrupção e a negociação de bastidores eram normas de longa data da governança brasileira diante da qual o próprio PT não fez nada para implodir o sistema de toma lá, da cá  (essa é a tristeza que se espraia no tom triste da voz da narrativa, lembrando alguém que relata uma traição). Assim, ficou fácil: a frustração pública com o governo como um todo foi sendo mobilizada contra Lula e Dilma, cujas efígies eram exibidas, vestidas com uniformes de presidiários, em manifestações de rua. A par disso, mesmo que os dois focos sejam a ascensão e a glorificação de Lula como “o maior presidente da história do Brasil” (pai dos pobres e mãe dos ricos, nos privilégios reservados aos banqueiros, empreiteiros e personalidades da mídia, via empréstimos com juros baixos junto ao BNDES) e o declínio com Dilma, a sua falta de governabilidade, a articulação que derrubou a ex-presidenta e, ao mesmo tempo, Lula e Dilma, ambos, sendo as vozes que aparecem muito durante o documentário, o que faz com que sua diretora faça questão de “dar voz” ao outro lado. De uma forma brilhante ela separa cada fatia do bolo a partir dos protestos de 2013 – (os “donos” dos partidos políticos não entenderam até agora essas manifestações que não eram orgânicas, não sendo dirigidas por nenhum partido político) – deixando a “nova direita” falar, se mostrar, desde imagens dos protestos, a rápidas passagens com o Bolsonaro que ganha um tempo de tela especial no documentário. Assim, Sig, O Rato, deseja um bom final de inverno e que se possa ter êxito em dormir com um barulho desses! Até breve…

MAURO GAGLIETTI é professor universitário, mediador de conflitos e doutor em história pela PUC/RS

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