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Ecos de uma democracia em vertigem (Parte 4)

por Mauro Gaglietti

Sig, O Rato, assistiu pela terceira vez ao documentário “Democracia em Vertigem” (Netflix –  “The Edge of Democracy”) e sugere que seja visto e (re)visto sob os aspectos cultural, estético, fílmico, artístico, político e, por que não, histórico. Nota que o documentário também é um relato marcadamente em tom pessoal. Ao oportunizar um olhar singular sobre a crise política experienciada pelo Brasil nos anos mais recentes, esse longa publiciza aspectos singulares com imagens inéditas sobre o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, indo no nó górdio de todas as crises: os protestos de 2013 (escrevi à época que as oligarquias que dominam e controlam os partidos políticos não perceberam o fenômeno complexo daquelas manifestações, apenas criaram e divulgaram rótulos). Como tentar entender como aquele país de 2013, que lutava por uma melhor gestão dos recursos públicos, ética na política, das jornadas contra o aumento das passagens (R$ 0,20), desembocou nesse atual País, assombrado pelo desemprego desde 2015, pela ameaça de recessão internacional e interna e com um novo governo problemático em níveis diversos – da comunicação ruidosa com vários segmentos? O documentário apresenta, ainda, a prisão de Lula, a Lava Jato acompanhada do seu amplo apoio popular nas ruas, a derrocada do Lulopetismo, a ascensão das forças conservadoras e de direita ao poder por meio da eleição de Bolsonaro como presidente, a ruidosa polarização ideológica, entre outras questões que o espectador teve acesso. Ao mesmo tempo, Petra não alivia críticas – ao seu modo particular – ao PT pelas alianças que adotou com o PMDB à época da eleição de Dilma (Campanhas da chapa Dilma/Temer em 2010 e 2014 custaram R$ 1,4 bilhão afirmou o ex-ministro Palocci (Coordenador da campanha de Dilma e homem de confiança – à época – de Lula).  Suposto valor citado pelo ex-ministro em delação premiada é quase o triplo dos R$ 503 milhões informados pelas campanhas da chapa Dilma/Temer ao TSE).

Embora insira vários discursos dos chefes da política nacional, a principal voz do documentário é a da sua diretora: Petra Costa, que não apenas enumera fatos e edita as imagens, mas também interpela o espectador convidando-o a pensar e a agir. O filme se abre com a constatação melancólica de que o sonho de uma revolução política jamais aconteceu, e se fecha com outra indagação, igualmente crepuscular, a respeito de nossa dificuldade em encontrar forças para lutar contra vozes antidemocráticas. Essa passagem remeteu Sig, O Rato, à palestra de quando Antônio Cândido, relembrando o impacto da publicação de Casa Grande e Senzala Raízes do Brasil entre os intelectuais de meados dos anos 1930, enfatizou a “radicalidade” política e, acrescentaria, o empenho ideológico, com que Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda se lançaram na aventura de produzir uma reinterpretação “democratizante” do processo de formação da sociedade brasileira. Em um esforço classificatório, poderíamos situá-los na linhagem de um Joaquim Nabuco ou um Euclides da Cunha, que articulavam a crítica política e o ensaísmo de viés sociológico, em um apelo dramático à mobilização das elites contra a exclusão social das massas miseráveis de um país no qual a cidadania constituía antes um privilégio que um direito. Mas, à diferença, por um lado, de Nabuco e Euclides, e, de outro, Freyre e Sérgio Buarque, esses últimos não clamaram por reformas sociais dirigidas por elites esclarecidas, falaram da sociedade e não apenas sobre a sociedade, dirigiram-se aos sujeitos que a constituíam e não aos seus pretensos tutores (de tempos em tempos se elege um tutor em um País que trabalha bem o equilíbrio dos antagonismos).

Ao longo do enredo, Petra, por sua vez, insere leituras de uma certa estética (“Ele é um escultor cujo material é a argila humana”, afirma sobre Lula), misturando aspectos religiosos à política, desvelando uma profunda crença de uma multidão que via (ou/e vê) o Lula com o salvador da Pátria. (Messias tem usado isso em sua comunicação). O documentário revela, ainda, a presença de Luiz Inácio diante das câmeras, mostrando entrevistas bem-sucedidas ou falhas, e termina revelando ao espectador seu grande dilema: “Eu não sei como isso deve ser contado”. O recurso retórico serve ao menos para expressar proximidade, um tom de conversa de igual para igual, ao invés de se colocar acima do espectador, como se lhe ensinasse uma lição. Creio que há inclusive esse elemento democrático no âmbito da mediação cultural no ato de narrar o seu ponto de vista, deixando o seu documentário muito distante de uma leitura fundamentalista de esquerda, adotando uma narrativa de ter tido o acesso às imagens de dentro do coração do poder, misturada às observações que faz (possivelmente a própria Netflix deve ter dado sugestões para o roteiro). Ao final, resta um retrato de desalento, de perda de referências, simbolizado pelo plano aéreo do gramado em frente ao Planalto, no qual pessoas de diferentes campos políticos caminham para todos os lados. Petra não cai na armadilha de fornecer alternativas fáceis, tampouco aponta bandidos pontuais. O projeto se encerra na constatação de um sistema falido, uma democracia frágil e uma sociedade esfacelada, incapaz de se reconectar consigo mesma. Estaríamos unidos, ironicamente, pela descrença na noção de coletividade. Ao invés de nos alarmar sobre o caos iminente, a cineasta prefere acenar à necessidade de uma reforma muito mais ampla do que a eleição de um ou outro candidato. Na busca pela coesão narrativa, talvez controle excessivamente o discurso com sua própria narração, porém consegue apresentar um apanhado complexo sobre a “história do passado presente” do Brasil. Constata-se, desse modo, que o passado está muito presentificado nessa tela.

Assim, o documentário de Petra Costa tem muitos méritos, entre eles de capturar o olhar e o suspiro do espectador até o final. Ainda que os acontecimentos políticos no Brasil estejam dando a impressão de que a disputa eleitoral ainda não tenha cessado, o documentário poderia ter sido um combustível a mais à polarização que se vivencia no País (avisem o Presidente eleito, sua família, três ministros e a dita “esquerda” – que também trabalha com o binômio  “amigo” e “inimigo” -, que é hora do Brasil se unir, deixando a campanha eleitoral para 2022). Ao contrário, dotado de uma narrativa política de mais de duas horas, o documentário conseguiu audiência e está sendo apreciado em mais de 190 países. Nesses termos, constata-se que essa narrativa autobiográfica é muito bem trabalhada no documentário. Seus avós empreeiteiros, construtores de Brasilíla, seus pais militantes do PCdoB à época na qual esse partido era clandestino. Para quem já tinha entrado em contato com a obra fílmica de Petra, aguardava-a, agora, com um documentário “feminista”. A diretora mineira Petra Costa, autora de filmes sobre o suicídio da irmã (Elena – Filme) e as complexidades da maternidade (Olmo e Gaivota – Filmes), não deixa de lançar mão de seu já conhecido tom pessoal e íntimo, com narração em primeira pessoa, ao levantamento etnográfico sobre um país afogado em mágoas e incertezas. No caso, “Democracia em Vertigem” parece ser a expressão do protagonismo feminino na contemporaneidade – na esfera política, nos movimentos sociais, na produção artística, na vida. O documentário pode ser pecebido como uma primavera da força das mulheres (a forma como se refere à irmã-ídolo que perdera aos 7 anos, às mulheres da família, desde a construção de Brasília, sempre registrando imagens, as mulheres de empresas terceirizadas limpando os vidros do Palácio, a vitória de Dilma, em 2010, o assassinato de Pedro Pomar (no imaginário de Petra, ele poderia encarnar o sentido puro da esquerda, sem corrupção) e o assassinato de Marielle. Pela livre associação, pode-se perceber em Petra a força das metáforas de um tempo: há, pelo visto, uma relação psíquica entre a morte da irmã Elena, o medo, o pavor dos tempos da ditadura militar, a esperança com o surgimento da democracia e o perigo da própria democracia ser sugada por milícias, PCC, CV, facções nos presídios, pela má atuação de algumas empreiteiras, pela corrupção e alianças políticas espúrias, pela oligarquização extrema dos partidos políticos).

O documentário é, também, um retrato das mulheres da geração de 1968. Marília, mãe de Petra, era de esquerda, casou-se com o pai de Petra que já era de esquerda, e a filha foi criada em um berço permeado por excesso de subjetividade alimentado por meio dos sonhos e ideais socialistas dos pais. Tanto é assim que Petra passou por um “batismo de sangue” quando da escolha do seu nome em homenagem a Pedro Pomar, militante comunista morto pela ditadura, o mentor intelectual dos seus pais. É o avô psíquico de um País “fechado” para as liberdades de expressão, precisando, assim, ter segundos pais, nascer novamente, renascer das cinzas (Fenix) para as vidas se cruzarem, se fortalecerem buscando bastante energia psíquica para sobreviver (Talvez tenha faltado – no imaginário de Petra –  à Elena um pouco mais de sopro para dar luz à vida em seu corpo). Portanto, há algo de mais profundo nessa história toda que não se resume ao fato dos pais de Petra, e, particularmente, da mãe ter propiciado à filha, nascida em berço de ouro, a possibilidade de sonhar o sonho dos pais, compartilhando, dessa maneira, os ideias da revolução socialista, adquirindo um novo sobrenome: “comunista”, ampliando, assim, ainda mais a “família” psíquica! Marília, como toda sua geração é fruto de uma nova atmosfera emocional na qual a mulher, de qualquer segmento social, começou a existir de forma independente da estrutura patriarcal, conquistando o seu lugar de fala, de pensamento e de ação no mundo. Tal relevo particular – a crise política como trauma pessoal – ganha uma segunda camada quando a diretora escancara as contradições de sua própria família. Nada mais universal do que se ver estranho no próprio ninho. Um dos avós dela, olha isso, fundou a construtora Andrade Gutierrez, empresa mineira diretamente envolvida por suas relações escusas com partidos políticos e investigada na Lava Jato.Foi Marília que saiu de casa, rompendo, assim, seus laços e vínculos com a família Andrade Gutierrez. Uma outra família psíquica precisou ser reposta: os companheiros e companheiras de esquerda formavam à época essa grande família cuja herança maior continua sendo a falta de elaboração acompanhada por uma fuga para dentro. Foi Marília, a mãe, que fez valer seu coração e sua ação no mundo e que veio a público para dizer que 1968 é o “ano que não terminou”! Destaca-se, diante do exposto, que o momento cultural exigiu dela algo mais do que ser de esquerda! É interessante perceber que o documentário produzido pela filha Petra nos apresenta que o ódio é de longe o mais longo dos prazeres: amamos depressa mas detestamos com vagar. Ao mesmo tempo, a película nos convida para olharmos com mais atenção o que pode uma mãe fazer para romper com uma estrutura que encarna a elite do atraso. Uma mãe pode muito! É essa é a ideia!! Sig, O Rato, ficou pensando na indagação que Petra deixa registrada no monólogo final: “De onde tirar forças pra caminhar entre as ruínas? E começar de novo?”. Bom dia, boa semana,  muita luz e proteção até chegarmos à Primavera!

MAURO GAGLIETTI é professor universitário, mediador de conflitos e doutor em história pela PUC/RS

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