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Ecos de uma democracia em vertigem (Parte 2)

por Mauro Gaglietti

Sig, O Rato, continua expressando seu ponto de vista sobre o documentário que está sendo exibido pela Netflix em 190 países. Lembra, ainda, que todo o ponto de vista é a vista de um ponto!  Os episódios narrados no “Democracia em Vertigem” são muito recentes, incitando a criação de inúmeros espectros de interpretações. Sua diretora, Petra Costa, procurou se colocar no lugar de escuta, atuando como antropóloga com viés militante (há uma disputa em seu ser entre várias dimensões: cineasta, antropóloga e militante), produzindo em seu interior uma crise de consciência. Percebe-se que a crise pode se tornar um momento de busca de superação de contradições, deixando-a mais harmonizada com suas pretensões. “A Democracia em vertigem” é narrado em primeira pessoa pela própria cineasta que tece vários autoquestionamentos por intermédio  de uma voz que é, simultaneamente, expressão maior de sua angústia e de sua apreensão com os rumos do País. O tom de voz é a forma que se transforma, na verdade, em conteúdo político, ao transmitir seu ceticismo, indignação, descrença e sua postura acautelada. É uma crônica em linguagem fílmica acerca de alguém que se sentiu civicamente traída. Ao relatar o abuso de poder e também o desgosto da militante que investiu altas doses de esperança na “esquerda”, Petra Costa traduz em seu documentário a condição de ser brasileira após o regime militar e de 30 anos de revezamento do poder entre PSDB e PT. Portanto, transparece em sua voz o nó de um ser humano decepcionado e triste. É, ao mesmo tempo, uma investigadora cuidadosa e obstinada pelos fatos ocultos e uma intérprete reflexiva de eventos públicos.Seu propósito não foi o de produzir um trabalho de jornalismo objetivo ou pesquisa com métodos científicos no âmbito dos instrumentos que os cientistas sociais dispõem, mas, ao contrário, ela nos apresenta sua singular percepção do passado e do presente do País que é habitado pelo sonho de ter um pai eterno (pai da psicanálise). Petra não esconde suas filiações políticas e sua franqueza reforça, ao invés de prejudicar, a credibilidade da sua descrição etnográfica. Ela carrega em seu nome a referência a Pedro Pomar, dirigente do PCdoB assassinado com mais de 50 tiros na Lapa no período do regime militar. Seus pais eram ativistas de esquerda, perseguidos e levados a viverem na clandestinidade entre as décadas de 1960 e 1970. Sua mãe e Dilma Rousseff, por exemplo, cumpriram pena juntas na prisão, embora não se conhecessem. Petra Costa por ter tido acesso ao alto escalão do Partido dos Trabalhadores conseguiu imagens inéditas e áudios valiosos para entender a história das mentalidades e da história do tempo presente. Diante de dezenas de depoimentos colhidos dos quadros do PT, optou por selecionar um que é a maior auto crítica jamais tornada pública. Trata-se de mea culpa de Gilberto Carvalho, ex-ministro, que narra os diversos erros do PT durante anos de governo (o partido poderia seguir o mesmo caminho da autocrítica para se redesenhar). De acordo com esse ex-ministro o partido afastou-se da sociedade, dedicando-se quase que exclusivamente à lógica da ocupação dos cargos no Estado e das articulações com os partidos tradicionais, reproduzindo os esquemas de poder já instalados desde 1946. No entanto, a história da família de Petra Costa também a conecta com os interesses do mercado – com a construção civil em particular – que de acordo com ela distorceram a política brasileira e mina seu potencial democrático e igualitário. A par disso, estamos diante de uma narrativa didática e linear, com relações cartesianas (de causa-e-efeito) forçadas, sem grandes sofisticações e sutilezas, desvelar um relato documental sem grandes novidades em relação ao discurso hegemônico da esquerda. São raros os momentos em que o filme procura inserir camadas de cinza ou questionamentos sobre algumas contradições e paradoxos internos do PT. É difícil se deparar com cenas em que se reflete sobre a própria produção dessas imagens, sobre suas lacunas ou fissuras. Um deles, a mais brilhante exceção, ocorre durante a posse da Presidenta, quando Lula, Dilma e Marisa descem a rampa do Planalto, com a companhia de Temer. Nesse momento, o filme promove uma leitura dessa imagem como um certo prenúncio do impeachment, visto o nítido isolamento de Temer em relação aos outros três corpos. Em outro deles, Dilma confidencia a Lula, no momento imediatamente após a confirmação do resultado da sua primeira eleição como presidente: “você que inventou essa”, referindo-se ao fato que Lula manda no PT ao escolher Dilma (que não contava com a aprovação das correntes internas por não ter recém chegado do PDT). Nesses momentos, parece que o filme escapa de sua vocação apriorística e se abre para as dobras e os paradoxos das imagens. São momentos em que o filme se liberta da necessidade de corroborar um discurso e mergulha em simplesmente olhar para as imagens e tentar entender o que elas dizem, suas camadas e hiatos. As imagens parecem que estão aprisionadas diante do discurso prévio da realizadora. Novamente, pode-se notar a luta interna entre a cineasta com mil horas de imagens arquivadas, o olhar etnográfico da antropóloga que é e a “cobrança” da militância e da alta cúpula do PT. Petra lida com essas imagens sem deixá-las respirar ou falar por si mesmas, mas as utiliza enquanto testemunhas ou elementos de acusação, ou ainda com imagens que não lhe pertencem. O que sobrevive do filme de Petra não é sua narrativa de costura forçada, em grande máquina industrial, simulando um look semicaseiro, mas os pequenos momentos em que as imagens, sorrateiras e traiçoeiras, se libertam do arremedo totalizante da realizadora e se deixam revelar em suas bordas e lacunas. Gostei muito do uso que faz dos silêncios e da fala das funcionárias da limpeza do Palácio do Planalto (Lava Jato)!! Sig, O Rato, procura fazer um movimento de escuta empática e sensível, elegendo, para tanto, auxiliar – na medida do possível – curar a polarização doentia em que a gente se encontra. Freud diz, o trauma é uma cicatriz na psique que gera uma incapacidade de significar as coisas, que perde sua habilidade de criar significados por conta da agressividade com que o evento invade sua psique. Então o primeiro passo para recriar um trauma é recontar, por isso o “Democracia em Vertigem” é uma tentativa de recontar essa história.  Bom dia, bom trabalho, bom estudo e muita luz & proteção para o andar de baixo! Vamos que vamos levar a vida em sua plenitude nesse Brasil dos paradoxos e ambivalências! Até a próxima….

MAURO GAGLIETTI é professor universitário, mediador de conflitos e doutor em história pela PUC/RS

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