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Do que você se envergonha?

Por Cláudia de Marchi

Recentemente eu conversava com minha mãe sobre as atitudes de muitas pessoas, sejam elas do ramo profissional que forem, casadas ou solteiras, heterossexuais ou não, cisgênero ou trans, homens ou mulheres, ricas ou pobres. Dizia-lhe que cada pessoa deveria viver de forma a não se envergonhar de nada do que faz ou do que fez em sua trajetória ou, no mínimo, se houver sentimento de vergonha quanto ao passado, que fosse pelo sentimento genuíno de arrependimento, face ao crescimento e maturidade. Contudo, tal conversa suscitou-me uma série de dúvidas, como, por exemplo, o que tal sentimento de vergonha englobaria e o que pode fazer um ser humano envergonhar-se nos dias atuais?

Apesar de eu ser um misto antinômico de timidez com leveza, me caracterizo como uma pessoa “sem vergonha” nos seguintes aspectos: não me envergonho do que faço, do que falo e como vivo, sobre o que já fiz, perdoei-me, afinal eu não sabia, em meu passado, o que sei hoje e, portanto, não sinto vergonha de nada que eu tenha feito, também. A opinião alheia não me amedronta, tampouco avilta, pois não devo satisfações a ninguém. Tudo o que fiz foi tentando acertar, tudo o que faço me conduz à felicidade e tranquilidade, sem que, nesse “tudo” estejam inseridas atitudes egoístas e maldosas.

Logicamente, eu teria vergonha de mentir para prejudicar alguém, teria vergonha de roubar, teria vergonha de jurar amor por quem me estima apenas para poder usufruir de conforto financeiro, teria vergonha de ter votado no Bolsonaro, teria vergonha de fazer parte da psicose coletiva anti-lulopetista, teria vergonha de ser narcisista e fazer quem me ama ou me cerca infeliz, teria vergonha de ser uma hipócrita que apregoa virtudes que desconhece e que se torna moralista por recalque.

Em minha opinião, por exemplo, de nada adianta ter “vergonha” de falar em público e não possuir “pudor” algum em falar mal de quem não conhece, apenas porque suas opiniões divergem. Para mim, vergonhoso é tentar ferir desconhecidos, é faltar com respeito à privacidade e liberdade de expressão alheia, é mentir enquanto prejudica aquele que confia em sua boa-fé, é esconder-se no anonimato da virtualidade para enxovalhar desconhecidos, é fazer, escondido, maldades homéricas, é não ter coragem de fazer autocrítica e assumir seus erros para aprender e agir melhor futuramente.

Portanto, se todas as criaturas vivessem de forma que sua vida pudesse ser, realmente, um livro aberto, a hipocrisia que marca a existência de 9 em 10 pessoas, não seria mais a regra, pois, infelizmente, a maior parte das pessoas tenta arrancar ou rasgar páginas do livro de sua vida porque rasurou algumas páginas do livro da vida de alguém ou de uma coletividade e sente medo de ser descoberto.

É sábio o ser humano de alma livre que respeita quem lhe cerca por que não quer que ninguém importune sua trajetória, e, assim, não importuna o caminho alheio. Este não irá se envergonhar facilmente de seus atos porque não causou mal aos outros: não injuria, não difama, não trai, apenas vive a sua vida livremente, sem intimidar-se por frivolidades, mas policiando seus atos para não ser injusto com quem nada lhe deve.

Imaginemos um acidente de carro na Freeway em que um cidadão segue animadamente para o litoral gaúcho, respeitando os limites de velocidade, quando, de repente sofre uma abrupta colisão com um veículo que vinha na direção oposta, cujo motorista perdeu o controle invadindo, assim, a sua pista. Qual deles terá “vergonha” de seus atos? Logicamente, o imprudente que feriu o outro que trafegava responsavelmente em sua via.

O mesmo ocorre na nossa vida: podemos rumar para onde quisermos, fazendo nossas opções sem hesitar, sem temer as criticas e julgamentos dos recalcados problemáticos ou daqueles seres malévolos que nada tem a fazer senão destilar seu veneno pelo mundo, basta que não interfiramos no rumo do outro e, desta forma, nada teremos que faça nossa consciência nos condenar e envergonhar-nos.

Certo, porém é que os conceitos mudam conforme os valores que cada pessoa possui. Alguns indivíduos têm “vergonha” de receber uma visita para almoçar e servir-lhes apenas salada, carne, arroz e feijão, pois desejam oferecer-lhes algo mais requintado, no entanto não se envergonham de maldizer os convidados quando eles vão embora, demonstrando sua arrogância moral e intelectual, além de valores frívolos e prepotentes. Tais pessoas se preocupam em aparentar fartura e luxo, não em serem bondosas e éticas. Vigora a preocupação com o que os outros irão pensar e não com quem, de fato, elas são quando ninguém está por perto.

Nós somos aquilo que pensamos e fazemos longe dos olhares alheios. A maioria dos políticos e, atualmente sabemos, uma parte espúria do Judiciário brasileiro, envergonha-se de contar a verdade sobre atos que vieram a público e, portanto, mentem, pois sabem que agiram de forma reprovável, todavia não sentiram vergonha de aceitar propinas, de prejudicar um cidadão contra o qual inexistiam provas e, assim, abrirem as portas para o fascismo e prejudicarem todo o país. Há a vergonha da descoberta do agir ilícito e não a vergonha de agir ilicitamente. Essa é, lamentavelmente, a história da corrupção no Brasil e no mundo e nela reside a pseudovergonha dos hipócritas: a vergonha sem-vergonha, graças a qual ocupantes de cargos públicos se “envergonham” da opinião pública, mas não se arrependem, genuinamente, do seu proceder imoral e criminoso que visa unicamente o lucro financeiro e o ganho de poder.

Os envergonhados sem-vergonha são as pessoas de mau caráter que vivem tentando parecer virtuosas para esconder suas fraquezas e seus defeitos, são aqueles que usam perfumes caros e roubas chiques, para disfarçar seu interior pobre que, sabem, se desvelado fosse, não cativaria ninguém. No fundo, esses indivíduos são, antes de tudo, infelizes, mal resolvidos e frustrados, porque, na verdade, só consegue ser realmente contente consigo mesmo e com a vida que se leva aquele que olha para dentro de si, para o seu passado e presente e não se intimida.

No discurso daqueles que se sentem intimidados apenas quando seus atos antiéticos, imorais e ilegais são descobertos está o conservadorismo moralista que eles usam como arrimo para apregoar virtudes que, no silêncio da sua alma, sabem que não possuem. Ora, quem é, afinal, o moralista típico? Nada além da visão viva do recalque, da inveja, do impulso de prazer reprimido e da vergonha seletiva. Além de ser um chato hipócrita que impôs para si a obrigação de parecer adequado às regras, ainda que, distante daquilo que o “povo” pode enxergar, aja de forma contrária ao que prega.

Sendo assim, esses erros no mundo vivem mascarados para demonstrarem que são o suprassumo da corretude, quando, na verdade, sabem que não passam de pessoas imersas em falsidade e vontades reprimidas, sobretudo sexuais, eis aí o desgoverno falocentrista e fascista de Jair Bolsonaro que não passa uma semana sem falar de fezes, anus, sexo e assuntos assemelhados, como exemplo. Os envergonhados sem-vergonha se tornam reféns das máscaras que usam para disfarçar a própria perfídia. Então fazem o quê? Criticam quem é liberto o suficiente para viver da forma que eles desejam, mas não conseguem por faltar-lhes brio e coragem.

Esses indivíduos nada mais são do que os hipócritas, do que os moralistas e conservadores que, no fundo, só fazem “conservar a dor” que sentem por não terem dignidade, coragem e decência moral para mostrarem ao mundo quem realmente são e gozarem plenamente a sua liberdade sem esconderem-se em opiniões de ódio e “exibicionismo” de honestidade e outras virtudes que não possuem.

CLÁUDIA DE MARCHI é advogada e acompanhante de luxo

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