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A misoginia na cultura brasileira: do samba ao estupro

por Claudia de Marchi

Quem me conhece bem sabe que, apesar da voz esdrúxula eu gosto de música e de estudar a história das canções que me cativam. Exemplo célebre de músicas internacionais com histórias densas é American Pie de Don McLean. Todavia, não falarei aqui da queda de um avião em 1959 e do “dia em que a música morreu”, mas falarei de morte.

Mais especificamente falarei sobre um samba de 1969 escrito por Luiz Ayrão e regravado pelo cantor Zeca Baleiro em 2010: Bola dividida. A regravação foi algo desprezível, haja vista que a letra é uma ode à masculinidade tóxica e questões que devem ser superadas e analisadas criticamente.

Além de a música tratar o feminicídio como algo “explicável”, em tempos trevosos nos quais muitas pessoas demonstram total desconhecimento acerca de consentimento no sexo e que, portanto, não distinguem estupro de relação sexual[1], acho pertinente e educativo “desmembrar” essa letra de forma didática.

Não, a música não fala sobre estupro, fala de assassinato o que é um passo adiante na desumanização do corpo feminino. Depois do “senso de direito ao sexo” que faz com que muitos homens sintam que, em determinadas situações ele lhes é “devido”, a última parada da misoginia antes de chegar ao inferno é o senso de posse que muitos homens insistem em ter sobre nossos corpos e vida.

Começo transcrevendo a letra na sua integralidade:

“Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu

Tá me dando bola tão descontraída

Só que eu não vou em bola dividida

Pois se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo

Se ela faz com ele vai fazer comigo

Se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo

Se ela faz com ele vai fazer comigo

E vai fazer comigo exatamente igual

Ela é uma morena sensacional

Digna de um crime passional

E eu não quero ser manchete de jornal

Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu

Tá me dando bola tão descontraída

Só que eu não quero que essa gente diga

Esse camarada se ‘androginou’

A moça deu bola a ele e ele nem ligou

Esse camarada se ‘androginou’

A moça deu bola a ele e ele nem ligou”.

Vejam que a mistura de rimas simples com certa cadência fazem a letra ser do tipo que gruda na cabeça da gente e, quando menos percebemos estamos cantarolando essa sandice.

Bom, vou desnudar a canção por partes para mostrar que o detalhe do “crime passional” é só um dos pontos a serem questionados na musiquinha de sonoridade simpática e letra deplorável.

“Será que essa gente percebeu que essa morena desse amigo meu

Tá me dando bola tão descontraída…” (…)

Vejam que o personagem macho da canção demonstra desde a primeira frase uma preocupação excessiva com o que as pessoas pensam. Isso é um sintoma do machismo estrutural: homens e mulheres reproduzem pensamentos e ações que lhes prejudica, sem questionarem o que lhes motiva.

Conheço homens que, quando estão em grupo, se comportam como idiotas e, quando estão sozinhos, são inteligentes, empáticos e interessantes. Eu insisto em dizer que o machismo é responsável pelo atrofiamento psíquico de muitos homens: para serem adequados e tidos como “machões” por “essa gente” eles agem de forma irracional e estúpida, coisa que, atualmente, qualquer mulher minimante inteligente abomina.

O cara da música não vê a mulher como gente, mas como um objeto que só é digno de respeito por ser “do amigo” dele. Em nenhum momento ele trata a mulher como um indivíduo do sexo feminino, mas sim como um objeto de aparência atraente que, a priori, está em “posse” do seu amigo.

Num lampejo de racionalidade ele insinua que não irá ceder ao flerte, porque se ficar com ela, provavelmente será vítima de traição no futuro, tal qual o seu amigo é no momento presente.

As razões apontadas para tal raciocínio, porém são totalmente ineptas:

“Só que eu não vou em bola dividida

Pois se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo

Se ela faz com ele vai fazer comigo

Se eu ganho a moça eu tenho o meu castigo

Se ela faz com ele vai fazer comigo…”

Qualquer pessoa sabe que “traidores” traem, sejam eles portadores de falo ou de vagina. A infidelidade não é um instinto, mas um hábito que muitos seres humanos nutrem e até valorizam, pois faz bem para o seu ego: “Eu sou desejável, eu sou viril, eu sou importante, eu sou ‘gostoso’ e ardiloso[2]!”.

Como acompanhante de luxo feminista, por exemplo, eu tenho certa dificuldade em admirar os homens que são infiéis às esposas ficando comigo e, quando passo a apreciá-los após longo período de convívio, ainda que eles se apaixonem por mim, eu não consigo corresponder, pois não confiaria plenamente em quem traiu a confiança de alguém comigo, afinal: “se fizeram com elas, farão comigo”.

Inegável que, sem confiança recíproca, nenhum relacionamento é plausível, exceto o sexual cujo único propósito é o gozo, a diversão descompromissada.

Não se trata, claro, de um silogismo inquestionável, mas é um silogismo:

Fulano traiu beltrana comigo.

Eu comecei a “namorar” fulano.

Fulano tenderá a me trair com outra.

A questão, no entanto, é que ser infiel independente da aparência da criatura ser fantástica ou meramente mediana.

Existe uma tendência por parte dos machistas em julgar e diminuir a moralidade da mulher com base em dois “fatores”, o primeiro é a beleza, o segundo e igualmente “assustador” é a forma com que ela exercita a sua sexualidade.

Alguns homens, inclusive “escolhem” parceiras menos belas para casarem-se[3], porque acham que a falta de “lindezura” na sua aparência lhes garantirá lealdade e afeto.

Ledo engano!

Engano como vários que pipocam na sociedade patriarcal ainda tão limitada e, literalmente, retardada.

Conheci várias mulheres fora de qualquer padrão de beleza que traem seus parceiros com frequência, pois essa é a forma que elas têm de terem o ego massageado[4].

Eu, enquanto esposa e namorada nunca trai ninguém.

Se um dia eu deixar de ser acompanhante e me apaixonar por alguém, certamente não serei infiel, vez que pauto minha vida na ética da reciprocidade[5] e no imperativo categórico kantiano[6].

Eu posso ser e continuar sendo atraente, tendo a mesmíssima facilidade para gozar e ter orgasmos múltiplos, infiel é algo que nunca fui e nem serei. A forma com que penso a vida, a moralidade e a ética não tem nada a ver com meu reflexo no espelho e com quantos ou com quem eu me “deito”.

Enfim, a parte de “ganhar” a moça e o castigo em potencial pela deslealdade estarem correlacionadas até que faz algum sentido.

Para elogiar a estonteante beleza da mulher, então o homem desce um pouco mais baixo e diz que ela é “digna de um crime passional”. Ou seja, o cidadão reverência à beleza do seu objeto de desejo dizendo que ele é do tipo que, fazendo-se apaixonar, merece ser assassinado se for desleal (e ele afirma que será, mas o fato dele não querer ser “manchete de jornal” lhe retraí: novamente o medo da exposição aparece!), afinal ela é uma “morena sensacional”.

Tal frase soa tão absurda quanto o “você não ‘merece’ ser estuprada” ou “Neymar não ‘precisa’ estuprar ninguém para ‘fazer sexo’”. Ocorre que estupro não é sobre beleza, estupro não é sobre sexo, é sobre menosprezo à vontade da mulher. Da mesma forma que feminicídio não é sobre passionalidade ou sobre amor, é sobre possessividade e desrespeito a liberdade feminina. É sobre não ver a mulher como um ser senciente que, claro, pode ter condutas pérfidas, afinal gênero não define caráter, mas isso não a torna “digna” de ser morta ou violentada, no máximo a faz passível de rejeição. Ignore. Dispensa. Esqueça, mas viva e deixe viver!

Se, desde que o mundo é mundo, mulheres são traídas e raramente cometem homicídio, parece-me óbvio que a questão do assassinato não se relaciona ao amor, a dor da paixão frustrada e da deslealdade, mas sim a “desumanização” do gênero, da vítima, enfim.

A sociedade patriarcal misógina institucionalizou a desumanização das mulheres que, há muito tempo, só eram tidas como “respeitáveis” enquanto menores impúberes e, depois, quando mulheres casadas: o homem tinha que estar “reinando” em suas vidas para que, assim, elas fossem seres dignos de respeito.

Ao fim da narrativa, como em toda questão envolvendo a masculinidade tóxica, o cidadão volta a falar da sua preocupação com a opinião alheia, afinal, ele externaliza a preocupação de que, se não render-se às supostas investidas da moça, ele será taxado de “andrógino”. O fato de impor limites às investidas da namorada do amigo lhe parece pior do que passar-se por gay, afinal ele precisa pagar de “machão” para “essa gente” com cujas opiniões ele tanto se importa.

A própria escolha do termo “androginou” aponta uma misoginia aberrante, porque ele não reporta somente a “preferência sexual por homens”, mas a parecer fisicamente com mulheres. Eis o conceito do termo:

Traços femininos;

Tendencioso à feições femininas;

Enfim, o personagem prefere trair a confiança do amigo e, talvez, assassinar a mulher potencialmente infiel do que ser chamado de homossexual.

Essa letra é o retrato musicalizado da masculinidade tóxica: em poucas palavras, há um amealhado de tudo o que precisamos nos erigir contra.

“Precisamos” no plural! Todos juntos, homens e mulheres, porque ser antimachismo e antimisoginia, hoje em dia, não tem a ver com gênero, mas com bom senso, empatia e inteligência. Com plausibilidade, com senso crítico, com racionalidade, enfim!

E não, a mulher não deve ser respeitada só porque ela está namorando o seu amigo, parceiro!

Ela não é “do seu” amigo, ela é dela mesma e talvez por isso ela queira transar com você.

Ela pode transar com você, desde que você também deseje! Sem esquecer que depois do “não” e do “para”, depois da negativa expressa não há mais consentimento e o que sucede é violência. É estupro, sim.

O flerte dela pode ser só porque ela quer sexo, não significa que ela queira ser “ganhada” por você.

Não, ela não é “descontraída” ou “assanhada”, porque é uma “morena sensacional”.

Ela é “oferecida” porque isso faz parte da sua personalidade. Porque ela quer ser, porque lhe convém flertar com amigos de parceiros, porque ela pode fazer isso: a vida, o corpo e a consciência são dela, “topa” ficar com ela quem quer, irmão! Cai na sua “rede” quem deseja.

Enfim, beleza e libido não são “unidades” de medidas inversamente proporcionais à ética e caráter.

Ademais, caso a morena queira ficar com você e um dia não lhe queira mais, você deve deixá-la ir, não matá-la.

E sim, é mais digno agir com empatia e respeito do que com vaidade.

É mais digno agir como um “andrógeno” do que como um animal irracional que não consegue manter o pênis dentro das calças.

Não há problema em ser gay, não há problema em ser transexual ou travesti, não há problema em ser mulher, não há problema em ser uma mulher sensacionalmente linda, o único problema é ser desleal, não tratar o outro como gostaria que ele lhe tratasse e agir pensando no que os outros irão dizer!

O único problema é ser misógino, machista e limitado. O único problema é agir sem questionar as suas atitudes e sem fazer autocrítica todos os dias.

Eu falei autocritica. Eu falei fazer autocritica todo santo dia! Afinal os tempos atuais requerem que pensemos além das aparências e do óbvio. Requer que tratemos com seriedade assuntos que já foram usados em “piadas”, caso do machismo, da transfobia, da homofobia e do racismo. Discriminações que matam pessoas todos os dias! Nada disso é cômico, meu caro.

Generocídio não se trata de paixão e de passionalidade, é isto sim, desrespeito e desumanização. Ou você faz a sua parte e começa a refletir sobre consentimento, sobre liberdade, sobre respeito ao próximo e sobre igualdade de gênero ou você estará assentindo com a estupidez, com o desrespeito, com o menosprezo e com tudo de pérfido que a base sociopata do patriarcado insiste em perpetrar.

Cúmplice, irmão. Você será cúmplice de estupradores, de feminicidas e de assassinos diversos, inclusive dos fardados que disparam 200 tiros contra um carro de família. Família negra e, portanto, “suspeita” no Estado (genocida) do Rio de Janeiro! Estude e tente evoluir até chegar ao ponto em que a palavra feminicídio lhe cause mais repulsa do a palavra feminismo e que o termo abandono parental lhe irrite menos do quea palavra “aborto”.

E, então quando você chegar neste ponto estará usando o seu potencial intelectual e racionalidade, estará sendo mais do que um resultado infeliz e tacanho de um sistema igualmente infeliz que boicota o intelecto e a afetividade masculina, enquanto poda a liberdade e a vida das mulheres e de quem se identifica com o gênero feminino!

Cláudia de Marchi[7]

Brasília/DF, 06 de junho de 2019.


[1] Refiro-me aqui aos “argumentos” (ou seriam “teses de defesa”?) que ecoaram de todos os rincões do país em relação à acusação de estupro imputada ao jogador Neymar Jr. recentemente.

[2] A grande maioria das pessoas se acha mais inteligente e astuciosa do que de fato é. Ora, é fácil esconder-se na hipocrisia de um “casamento perfeito”! A grande maioria das nossas famílias se manteve décadas graças ao uso de máscaras e deslealdades diversas. Ser infiel nunca indiciou inteligência e, atualmente, não rompe nenhum paradigma. Por outro lado, jogar limpo, seja “abrindo” a relação ou seguindo a ética da reciprocidade (não fazendo ao outro o que não deseja que ele lhe faça), é algo revolucionário e inteligente neste mundo cheio de pessoas ansiosas e infelizes que pautam as suas existências naquilo que, imaginam, “essa gente” percebe e pensa.

[3] A tal da “distinção” imbecil entre mulheres “pra casar” e mulheres “pra transar”: as segundas “devem” ser lindas, as primeiras “nem tanto” que é para evitar o risco da traição. Ridículo, não é mesmo?! Pois o machismo do patriarcado é essencialmente ridículo.

[4] A necessidade de massagear o ego é algo em comum entre todos os idiotas do mundo.

[5] Não fazer ao outro o que não quero que ele me faça.

[6] “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal”.

[7]           Cláudia de Marchi é natural de Passo Fundo/RS, advogada inscrita na OAB/RS desde 2005, Especialista em Direito Constitucional, autora dos livros “Contra a maré: minha vida em crônicas e crônicas da vida” (2017) e “De encontros sexuais a crônicas: o diário de uma advogada e acompanhante de luxo feminista” (2018).

A escritora que reside em Brasília/DF desde 2016, tornou-se nacional e internacionalmente conhecida por ter abandonado a carreira de professora universitária e o mundo jurídico para tornar-se uma acompanhante de luxo “diferenciada”: desde o princípio a autora dispôs-se a selecionar e escolher com quem se relaciona intimamente, podendo, assim, vivenciar a sua sexualidade da forma que lhe apraz e, também, dedicar-se às suas leituras, escrita e a tudo que lhe dá real prazer, distanciando-se do machismo do universo jurídico e de toda a hipocrisia da sociedade brasileira, sempre tão elegantemente hipócrita e indiscretamente decadente, afinal o hight society sempre esteve down.

Mais sobre a autora no site http://www.claudiademarchi.com.br.

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