Sem categoria

Como trapacear o trapaceiro

por Renato Kress

Eu nasci canhoto. Mas só percebi que era errado ser canhoto quando uma professora, na alfabetização, me disse que tinha que escrever com a outra mão. A outra mão era inútil. Até pra segurar o papel para desenhar ela fazia força demais porque não tinha finesse. Mas eu me recusei, usei a esquerda mesmo assim. Trocava o lápis de mão quando a olhar da “tia” batia mecânico como as máquinas de escrever da época e vagava horizontal para outros coleguinhas, os bons, perfeitos, os certos.

Eu era errado naquilo tudo. Fui colocado na frente para que ela ficasse de olho em mim. Aumenta a tensão quando você identifica pólos opostos e aproxima eles, sabia? Experimente com ímãs. Mas interessava ali o erro que precisa ser vigiado, precisa ser deixado à vista. Do contrário sua natureza se expande, como um miasma, doença, infecção num órgão do sistema. O erro está lá, transgredindo a ordem natural das coisas, causando um desconforto completo pelo simples fato de existir. 

É um pouco sobre isso que eu quero falar aqui. Sobre a natureza da transgressão, sobre a necessidade da trapaça como mecanismo de sobrevivência quando toda a “ordem natural das coisas” já está posta na mesa e não te perguntaram se você tem alergia à lactose das regras impostas. Na verdade, como antropólogo, eu sempre fico pensando na antiguidade do cardápio. Há quanto tempo te ofereceram as certezas que fizeram de você a caricatura tosca do potencial que você tem, enfim disso aí que você é hoje? E requentaram essas certezas de onde? Antropologia pra mim é trabalho de fiscal sanitário das cozinhas das verdades requentadas.

Porque se tem uma coisa que nós, macacos pelados, sabemos fazer muito bem é pegar um esqueleto putrefato, colocar roupas de grife e alardear aos quatro ventos que “pensaram fora da caixinha” e “inovaram” com aquilo que queremos vender. Não à toa, se você tiver um mínimo de senso de perspectiva, vai ver, nas livrarias, uma sessão onde estão à venda, por dez a cinco reais, os best-sellers de gerenciamento de metas e “cases” de sucesso de quatro meses atrás. É que as soluções mágicas deram errado, a roupa nova gastou e o esqueleto ficou à mostra.

O melhor livro que já li sobre a trapaça foi “A Alma Imoral” do rabino Nilton Bonder. Nele o genial rabino explica como é da natureza da alma humana trair, assim como é da natureza da consciência humana querer se apegar às ideias de continuidade, certeza e segurança. Ele trata no livro do binômio “tradição” versus “traição”. Prefiro que fiquemos aqui com outra polarização mais apta à cultura brasileira atual: traição versus segurança.

Lidar com a morte é a pior (e a mais libertadora) das formas de torturar a nossa mente. Então criamos uma cultura da negação através do adiamento da coisa. Quando não sabemos para onde vamos, a aceleração não antecipa nem resolve, apenas pincela um borrão. E é desse desligamento da morte que nasce a trapaça. Não pensamos nela, na morte, até que ela venha. Trapaceamos tudo até que ela, a consequência venha. A consequência é a morte da trapaça, porque a morte é a consequência última da coisa toda.  

Isso explica muito do horror que temos em lidar com seus sintomas, como o envelhecimento. A coisa toda se escamoteia e não tem “renew” que te salve! Não se você durar mesmo tempo suficiente para curtir o processo. Aliás é curtir mesmo, a origem da palavra vem do que o sol faz no couro, curtir, envelhecer, ressecar. A trapaça é jogar sebo, gordura por cima para fazer o couro brilhar e vender enquanto o comprador está ofuscado pelo truque.

A cultura é criação de sistemas, porque cultura é – e eu vou me dar ao direito de ser poético porque vocês não têm tempo para que eu me expanda na lassidão acadêmica – aquilo que se cultiva e aquilo que se cultua. A alma cria traições porque é da natureza da alma transcender o tempo e achar que vai durar para sempre. Da perspectiva do “para sempre” toda repetição é torturante. Já diziam os gregos, para os quais o castigo – quando havia algum – era repetir seja lá o que fosse, eternamente. 

Dizem que o nascimento da filosofia causou a morte da mitologia. Quase como se dissessem que a criação dos carros tivesse acabado com os cavalos, ou a linguagem universal da computação acabasse com a pluralidade de idiomas. É de um primarismo enorme essa perspectiva. Coisa de criança lambona e apressada ou de gênio da estratégia de marketing, o que, como veremos, aparece simbolicamente como a mesma coisa. 

O arquétipo – o tipo primitivo – do Trickster, do trapaceiro, é muito próximo do arquétipo do Puer – da criança. Seus conteúdos se misturam. Crianças transgridem e trapaceiam porque não conhecem ou não concordam com as regras. Daí que muitas vezes a trapaça e a transgressão são associadas à juventude e à potência criadora de vida pulsante que nós temos nessa fase. O trapaceiro pode muito bem ser o Senex – o arquétipo do velho – mas mesmo nesse caso será descrito como “jovial”, “brincalhão” ainda que “louco”. Associamos a trapaça à potência jovial criadora da vida. Ideias associadas contagiam uma às outras. A ideia da trapaça rejuvenesce. 

Mas para chegar nesse ponto precisamos conhecer a história de um cara cheio de problemas, um cara que negava a matéria, acelerava o tempo encurtando as distâncias para borrar a consciência da morte e todos os processos físicos. Um que usava a matéria para seu prazer e deleite e estava freneticamente interessado em inovar e conhecer e criar novas e mais novas caixinhas apenas para se ver “fora delas”. Ah, muito importante para nós: ele era também um mitômano, um mentiroso compulsivo.

Tudo começa com uma pilha de pedrinhas. Na Grécia Arcaica e Antiga você não tinha estradas pavimentadas entre uma cidade e a outra. Aí empilhavam-se pedras num monte piramidal – tente empilhar pedras e você vai perceber que a pirâmide é a forma mais estável para a coisa. Aí se pintavam essas pilhas e, a partir delas, você procurava outra pilha de pedras com a mesma cor. A ideia era seguir de pilha de pedra em pilha de pedra para sair de Tebas a Corinto, Atenas a Micenas e por aí vai. Dorothy e sua estrada não parecem mais tão inovadoras, certo? 

Pois bem, seguindo essa trilha de pedras passavam os viajantes, os comerciantes, os aedos (os poetas como Homero), estudiosos, curandeiros, adivinhos etc. Sabendo que por essas pedras passavam os comerciantes, os ladrões começaram a usar essas pilhas de pedras como marco para assaltos. O nome dessa pilha de pedras? Herma! E a partir dessas hermas que foi criado o mito do deus grego Hermes. Não à toa esse cara viria a ser o deus dos comerciantes, da linguagem hermética (cifrada, secreta), dos mensageiros, dos caminhos e dos ladrões! 

Hermes nasce filho de Maia – uma deusa-gruta, ou ninfa das cavernas – e Zeus – deus da Areté, da “superioridade”. No primeiro dia de vida ele briga com a mãe e diz que ela não serve de nada, mata uma tartaruga para fazer do casco e das tripas dela um instrumento musical, rouba os bois do irmão Apolo, amarra uns aos outros, faz com que andem de marcha a ré para fingir que eles estão chegando para onde estão indo, esconde-os. Quando o irmão mais velho o encontra ele ironiza e ridiculariza o poderoso Apolo. Mesmo quando este o obriga a assumir ter feito toda sorte de truques e trapaças, o bebê Hermes mente descaradamente sobre ser um inocente recém-nascido e jura pelos joelhos de Zeus duas vezes seguidas – sendo uma delas na presença do próprio todo-poderoso! – que ele não fez nada do que obviamente fez. Zeus ri muito, mas imediatamente depois une as sobrancelhas “ajuntando” as nuvens em tempestade e manda o moleque devolver os bois do irmão e desfazer todas as brincadeiras. O mito é bem maior e mais divertido do que isso, mas para nós, aqui, interessa esse resumo e o que dele podemos tirar.

Hermes tem os pés alados, tudo o que faz, faz voando, na velocidade do pensamento. Suas ações são realizações de impulsos da sua imaginação. Entre pensar e fazer o caminho é tão curto que quando ele vê, pela primeira vez, uma tartaruga já diz imediatamente “que som lindo sai da sua carcaça!”. O deus dos pés alados é arremessado ao chão por Apolo e ao invés de cair, sai voando. Humilha a mãe, matriz, matéria, dizendo que ela “não serve de nada”, mas usa a matéria da tartaruga para fazer a lira, e a dos bois para chamar a atenção de seu irmão e de seu pai. A matéria é, para ele, o substrato da magia e aquilo de que necessita para levar adiante sua busca por poder e diversão. Mas justamente para poder operar truques com a matéria ele precisa nos fazer crer que ela não serve de nada, que ela é inútil e que ele “nunca mais falará com ela” como disse para sua mãe. É tudo fumaça e espelhos, por aqui. Todo grande mágico é um mestre em uma única arte: desviar a atenção.

Estudar mitos é estudar, também, as sobreposições simbólicas. O Hermes grego é muito parecido com o Mercúrio latino que é muito parecido com o Loki germânico, que tem o mesmo comportamento do coiote norte-americano e de Lugh, o deus celta do comércio e da trapaça cujos domínios foram identificados pelos romanos como “Lugdunum” (domínios de Lug), o assentamento celta que deu origem à cidade de “London” (Londres), onde se ergueu o primeiro Mercado Financeiro do mundo. E o que é o Mercado Financeiro senão o maior templo do deus que está sempre interessado em especular sobre o que virá e nunca tem tempo para pensar nas consequências materiais de seus atos? O Mercado tem pressa!

A trapaça só existe como referência a um padrão constante que é trapaceado. Sem cultura não há trapaça porque não há o que trapacear. É tudo uma questão de referenciais: a cultura é, naturalmente, a reta repetitiva retilínea e uniforme da mesmice, da lei, da constância e da norma – a repetição daquilo que algum grupo de importantes defuntos no passado convencionou ser importante. Mas e a trapaça? A trapaça é a curva.

O que fica na mente – que vocês já podem me agradecer por deixar para o próximo artigo – são coisas como: O que acontece quando toda a cultura de um país é a trapaça, a curva? Quando a regra geral é conhecer alguém que conhece alguém que pode te tirar daquela enrascada? Quando o juiz é seu parente ou o policial seu amigo? O que acontece quando esse papo todo sobre trapaça e cultura encontra a cultura da trapaça? Que tipo de jeitinho dribla o jeitinho quando o malandro é o herói nacional? Que regra vale nesse país onde Juiz e promotor negociam sentença de ex-presidente, onde a trapaça é feita tão às claras que se pasteuriza e confunde (?) prova com convicção, com Supremo, com tudo?

Renato Kress
Antropólogo e Cientista Político
Especialista em Psicologia Analítica
Professor de Mitologia
Coach de Metas pessoais e profissionais

Categorias:Sem categoria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.