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Foi culpa do trigo

por Ariela Bento

Spoiler: esse não é um texto para crossfiteros e pessoas que comem frange sem sal.

Talvez você esteja aí agora em frente ao computador ou segurando o celular sentindo que suas costas doem, seu pescoço está um pouco travado e você não consegue ficar confortável em certas posições. Talvez a calça com o botão de cima aberto incomode um pouco, talvez você não se importe com nada disso e está muito bem obrigado, mas lá no fundo sabe que seria bom praticar mais exercícios para as suas próximas décadas de vida não serem atrofiantes.

Talvez a culpa de você estar agora com seus instintos mais primitivo aprisionados seja do trigo. É, ele é um dos grandes culpados. Poderíamos ter continuados livres, como caçadores coletores, sendo nômades e viajando por terras distantes. O que aliás muita gente sonha em fazer hoje, mas com uma van, Kombi ou bike.

Mas descobrimos o trigo e ele nos domesticou, e não o contrário. Segundo o historiador Yuval Noah Harari, no livro “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, quando nós começamos a consumir mais trigo e percebemos que comer grãos silvestres sem antes escolhê-los, moê-los e cozinhá-los era inviável, começamos a carregar para os acampamentos temporários e processá-los.

Como tendemos para o lado mais fácil e cômodo (não necessariamente bom), nossos antepassados perceberam que era melhor então se fixar ao redor de onde havia mais trigo. Eles limpavam o terreno e literalmente dava a liberdade para o trigo crescer sem concorrência. E foi aqui que o sedentarismo começou.

“No começo, talvez eles acampassem por quatro semanas durante a colheita. Na geração seguinte, com a multiplicação e o alastramento do trigo, o acampamento da colheita talvez durasse cinco semanas, depois seis, até que se tornou um assentamento permanente”, conta Harari. “Evidências de tais acampamentos foram encontradas em todo o Oriente Médio, sobretudo no Levante, onde a cultura natufiana floresceu de 12,5 mil a.C. a 9,5 mil a.C.”

“Nós não domesticamos o trigo; o trigo nos domesticou”, diz Hari dando aquele soco no estômago da consciência. Segundo ele a palavra domesticar vem do latim ‘domus’, que significa casa. Pensando rapidinho aqui, todos nós: A casa era de quem? Já que fomos nós que “construímos” o lar doce lar do trigo? Éramos só a empreiteira e ele, o dono da casa.

Mas também não vamos aqui só demonizar a base do nosso pão fresquinho com manteiga, que consegue tirar um sorriso confortável de quase todos nós. O trigo também contribui para que o homo sapiens se multiplicasse exponencialmente (será isso bom?). Segundo o pesquisador Juliano Lindner, da UFSC, mais de 75% das calorias ingeridas pela humanidade hoje são resultantes de plantas domesticadas há milhares de anos, como o trigo, milho, arroz, batata, etc.

Ao longo de todo esse tempo tivemos relações de amor e ódio, principalmente ao glúten, a proteína presente naturalmente em muitos cereais, como o trigo, o centeio e a cevada. Você com certeza conhece alguém que se diz intolerante, mas que cresceu comendo pão com margarina e leite com nescau.

Por que então só agora o pão faz mal, um alimento que existe há milhares de anos? Provavelmente. Segundo o Centro Internacional de Pesquisas para o Desenvolvimento (IDRC), o trigo está em muitas comidas, como pão, cereais matinais, pizza, massas, cerveja. Ele está presente até na massa de tomate e na batata frita congelada. Resultado: nunca comemos tanto trigo quanto hoje. E o trigo da modernidade sofreu tantas alterações para ser mais produtivo e gerar mais lucro que se transformou em um Frankenstein.

E cá estamos nós, comendo demais e se exercitando de menos. Segundo o representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Rafael Zavalla, o maior problema da América Latina atualmente não é mais a fome, mas a obesidade.

Se a casa para o trigo não tivesse sido construída pelo homo sapiens, talvez hoje não estaríamos sedentários sentados em frente ao computador com dores nas costas, nem deitados no sofá entrando em discussões virtuais. Talvez ainda fossemos nômades que tomam banho de rio pelados e dormem sem notificações do celular e não precisam de aplicativos que ajudam a dormir melhor. Ou não. Talvez estivéssemos vivendo outra realidade tecnológica hoje, e a revolução agrícola não teria sido a primeira.

Ariela Bento

Jornalista e divorciada da rotina. Faço contorcionismo com palavras e gosto de conhecer a vida pela boca.

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