Sem categoria

A ressaca de Aristóteles

por Arnoldo Gabriel Benvenutti

A virtude residiria no equilíbrio entre dois opostos viciantes, ensinou o estagirita, ao tratar das virtudes do homem. Ao passo que num extremo reside a falta, noutro o excesso. O homem médio entende por meio da tradição o que seria benéfico para sua própria vida, que, de gerações em gerações foram passados valores que remetem aquilo que é útil, ou mesmo agradável – e aqui entendemos o homem médio como aquele que não somente não se aprofunda em assuntos morais, ou mesmo científicos, mas também, há casos em que exista aversão ao conhecimento profundo – característica evidente de nosso tempo, característica evidente também no medievo do contexto muçulmano[1]. Para a presente reflexão, o homem médio de hoje será objeto de análise.

Ora, muitas vezes um estado é reconhecido pelo seu contrário, e não menos frequentemente os estados são reconhecidos pelos sujeitos que os manifestam; porque, (a) quando conhecemos a boa condição, a má condição também se nos torna conhecida; e (b) a boa condição é conhecida pelas coisas que se acham em boa condição, e as segundas pela primeira. Se a boa condição for a rijeza de carnes, é necessário não só que a má condição seja a carne flácida, como que o saudável seja aquilo que torna rijas as carnes. E segue-se, de modo geral, que, se um dos contrários for ambíguo, o outro também o será; por exemplo, se o “justo” o é, também o será o “injusto”.[2]

O salto de método e de material de análise feito por Aristóteles, demonstra já a fragilidade de sua ciência lógica, baseada na substancialidade daquilo que é inteiramente subjetivo – mais evidente são as digitais socráticas da dualidade de comparação entre o que é e que não é (A dualidade iniciada entre a separação entre Ser e Não-ser; Movimento e Permanência; o Um e o Múltiplo; Simples e complexo), Aristóteles imita Sócrates e a isto dedicaremos meia dúzia de palavras vindouras. Com a fé de que a razão é o guia para desvendar todos os limiares da existência, e no fundo seu empirismo parte do mesmo princípio viciado, Aristóteles trata a justiça com a instrumentalidade de Eichmann[3]. Bastando bater continência aquilo que foi designado pelo próprio homem como natural, aquilo que foi convencionado (portanto, não natural), inclusive de origem contratual entre comerciantes, o justo é continuar a praticar condutas esperadas por um nicho de cultura incapaz de ouvir a ressonância que lhe deu origem. “Continuariam a ouvir se lhes rompêssemos o tímpano”, provoca Derrida atacando os limites impostos pelo que a própria filosofia entende como verdade, como correto pensar, valorar, distinguir, classificar.

Ágon – o combate intelectual

Haverão aqueles que apologizarão Sócrates e Aristóteles, argumentando de que esta análise é doente em anacronismos, mas, para tanto, um mero relembrar sobre a guerra entre os sofistas e o mestre que escutava seu demônio como guia. Os sofistas, com seus pressupostos utilitários, ou ainda, atomistas como Demócrito e Leucipo, se não contemporâneos, um pouco anteriores a Sócrates, evidenciavam o caráter materialista da filosofia como fonte de conhecimento, a evitar as especulações desprovidas de evidência como pretenderam as correntes

essencialistas, o que refletirá diretamente na ética e moral. No fundo, Sócrates fora o primeiro mestre espadachim de um Ágon que ele mesmo criara para combater seus algozes sofistas e materialistas – é de se reconhecer o gênio embriagado em Apolo por isso, mas ainda não nos diz sobre a verdade que prometera – além de um grande erótico, Sócrates se embebia demasiado na ambrosia apolínea, expressando seu lado mais científico, carente por simetria e clareza.

Dei a entender de que modo Sócrates poderia repelir: resta muito mais a esclarecer porque ele fascinava. – Uma primeira razão é que ele descobriu uma nova espécie de agon, de que foi o primeiro mestre de esgrima nos círculos aristocráticos de Atenas. Ele fascinou na medida em que tocou o impulso agonal [agonalen Trieb] dos helenos, ele trouxe uma variante no combate entre homens jovens e adolescentes. Sócrates também era um grande erótico.[4]

A partir dos tratados morais e epistemológicos da antiguidade grega, o mundo ocidental desenvolve, ao longo de alguns milhares de anos, todo um sistema moral baseado na racionalidade, ou, como o discípulo de Dionísio[5] propôs – a partir do ressentimento de raquítico e a superafetação do lógico de Sócrates. Era preciso julgar tudo, pesar tudo na nova balança moral que preza por tudo aquilo que é antigrego, em exaltação de Apolo (consciente, científico, simétrico, claro) ao mesmo tempo em que se sufoca Dionísio (inconsciente pelo vinho, orgíaco, fugaz, pulsante, instintivo) – clareza e distinção como queria Descartes, mas sua paixão era demasiado estrábica[6]. Neste contexto, a dissimulação, a mentira, ganhou ares de algo ruim, uma rejeição pelo homem bom, uma refutação ao homem médio. A partir de Sócrates, é preciso ser um tipo decadente de pensador, para ser filósofo, basta imitar Sócrates. Jamais mentir, nem mesmo desviar o olhar.

Com Sócrates, o gosto grego se modifica em favor da dialética: o que acontece ali realmente? Acima de tudo, um gosto aristocrático é vencido com isso: a plebe ascende ao primeiro plano com a dialética. Antes de Sócrates eram rejeitadas na boa sociedade as maneiras dialéticas: eram consideradas más maneiras, elas comprometiam. Advertia-se a juventude contra ela. Desconfiava-se inclusive de toda exposição das próprias razões. As coisas honestas [Honnete Dinge], bem como seres humanos honestos [Honnete Menschen], não carregam nas mãos dessa forma as próprias razões. É indecoroso mostrar todos os cinco dedos. Tem pouco valor aquilo que antes tem de provado. Em toda parte onde autoridade ainda pertence aos bons costumes, onde não se “fundamenta”, mas se comanda, o dialético é uma espécie de bufão: costuma-se rir dele, sem o levar a sério. Sócrates era um bufão que se fez levar a sério. O que aconteceu ali realmente?[7]

O justo, a nível cultural, atinge os homens médios e os intelectuais posteriores a Sócrates, tal como Platão, Xenofonte, Aristóteles. Distinguir o justo do injusto está presente na cultura, na religião, na educação, no Direito. Ao entender o mundo a partir da substância, cristaliza-se a virtude num altar ao Sol (não alcançável nem mesmo por Ícaro), servindo como o norte – mas este norte foi esquecido como algo inventado pelo ímpeto embriagado e criativo de Dionísio em nós – o ímpeto da expansão da própria vontade. A faculdade do esquecimento, que nada tem de inerte, mas pelo contrário, é uma faculdade ativa no homem, fez o próprio homem esquecer que inventou esta Régua Universal da virtude para poder conviver bem com o outro. A mesma Régua que mede as atitudes morais, a mesma que determina o que é justo – nos levando à origem do que é justo em Aristóteles. Ora, nada mais seria do que explicitação do Utilitarismo peripatético, ou ainda, não teria sido diferente pois a utilidade só expressa o que há de natural e universal em todos os homens – de novo, a expansão. O justo, neste sentido, se mostra como uma relação contratual, em amizades que se coadunam em vontades mais ou menos similares, na maior parte necessitando de símbolos para se firmarem por mãos espalmadas.

O que é uma palavra? A transposição sonora de uma excitação nervosa. Mas, concluir a partir de uma excitação nervosa uma causa primeira exterior a nós, isso é já até onde chega uma aplicação falsa e injustificável do princípio da razão. Se a verdade tivesse sido o único fator determinante na gênese da linguagem e se o ponto de vista da certeza o fosse quanto às designações, como teríamos então o direito de dizer, por exemplo, que ‘esta pedra é dura’, como se conhecêssemos o sentido de ‘duro’ de outro modo que não fosse apenas uma excitação totalmente subjetiva? Classificamos as coisas segundo os gêneros, designamos l’arbre como masculino e a planta como feminino: que transposições arbitrárias! A que ponto estamos afastados do cânone da certeza![8]

Dizer e Significar

Se o Ser absoluto não pode ser identificado, a não ser pelas próprias fronteiras construídas da linguagem (analogia, causalidade, não-contradição etc.), viciada até o mais alto grau predicativo, substancial, essencial, reproduz-se isso na prática sem se dar conta dos seus limites impostos para se proteger. O cinturão de proteção da metafísica, ou seja, a linguagem, não permite transpor seus limites. Quão longe estamos da certeza? O ser é necessário e o não-ser um absurdo, desde Parmênides, mas em Aristóteles toma ares de cientificidade – ao invés da divisão da realidade em dois mundos, em Aristóteles encontramos inserido nas coisas a conceituação, a forma – e esta é aderida pelo homem de forma participada, como uma inclinação aquilo que há de inteligível no Ser absoluto. Uma sofisticação do pensamento eleata.

Se Parmênides, ao construir o lugar do pensamento verdadeiro, o ser, se perdeu em sua argumentação que identificava dizer, pensar e ser, Aristóteles, por outro lado, buscando salvar a possibilidade do conhecimento verdadeiro, vai propor a identidade entre dizer e significar. Dizer somente é um gesto humano se significar alguma coisa, se estiver vinculado a um sentido; ao contrário do que fazem os sofistas, que defendem o dizer por dizer e podem ser comparados a plantas. É a vinculação da palavra ao sentido que, a partir de agora, vai fornecer a adequação entre as palavras e as coisas (grifo nosso). O que Aristóteles faz é estabelecer o sentido como condição da linguagem humana. (…) Parmênides afirma o ser como identidade, e o faz por um artifício de linguagem, dedução que o leva a crer na “verdade” do pensamento; por outro os sofistas, utilizando Parmênides contra ele próprio, argumentam que não somente Parmênides se equivocou com relação ao ser e ao não-ser, mas linguagem e o pensamento não levam à verdade. Ao contrário de “o ser é”, eles afirmam “nada é”; ou, ainda: “nada é; se é é incognoscível; se é e é cognoscível, é incomunicável”.[9]

É oportuno acrescentar uma passagem do próprio Parmênides, no fragmento 8 de seu poema, que chegou até nós.

Também não é senão puro nome, tudo o que os mortais instituíram, confiantes que fôsse verdade: nascer e perecer, ser e não-ser, e mudar de lugar e variar de brilho por sua superfície[10]

Chamado por Bárbara Cassin de “cena originária”[11], Aristóteles, ao tratar de seu princípio de não-contradição, acaba impondo as regras do jogo (ágon) – após este evento, não se pode filosofar se não obedecendo a este princípio. Reproduzido incessantemente na antiguidade tardia, no medievo (cristão e muçulmano), no racionalismo da Renascença, no Iluminismo e kantismo, em Hegel, na ciência.

Aristóteles havia acabado de anunciar seu princípio de não-contradição, “o mais firme de todos”, e se vê “forçado”, pelo pensamento de Heráclito, a demonstrar o que lhe parece evidente. “O ponto de partida (…) não consiste em exigir que se diga que algo é ou não é (…), mas que pelo menos signifique algo, para si e para um outro (grifo nosso). A estratégia de Aristóteles, então, vai ser substituir a demonstração impossível pela refutação: se falar implica significar e se significar não admite contradição, então quem fala não pode refutar o princípio de nãocontradição”.[12]

É neste estratagema, digna de um general leitor de Sun Tzu ou Myamoto Musashi, que Aristóteles vence. Atribui caráter ontológico à linguagem, acreditando poder afastar o verdadeiro do falso. Conclui Mosé:

O que parece explícito nesta argumentação aristotélica, sustentada em uma lógica que ele vai ser o responsável por desenvolver, é a “necessidade” de manter o lugar do ser e da verdade nascido com Parmênides, como forma de se contrapor ao pensamento móvel de Heráclito e dos sofistas. É possivelmente nesta direção a afirmação de Nietzsche: “Tudo aquilo que representa um esforço real de verdade veio ao mundo através do combate por uma convicção sagrada: pelo pathos de combater: de outra forma o homem não tem interesse nenhum pela origem lógica”. Tanto Platão quanto Aristóteles estão em disputa com os sofistas. A lógica nasceu de um agon, não é mais do que o estabelecimento de um campo de combate, com suas regras específicas, um campo de combate sustentado em ficções.13

Dissimulação – o freio do mundo a partir da vontade de verdade

Nesse sentido, o justo, conforme demonstrado, possui um caráter contratual entre semelhantes, e apenas entre semelhantes, e que hoje, sociedade pautada pela instrumentação, tecnicismo e consumo, as diferentes classes sociais determinam a justeza dos envolvidos em uma relação de Philia. Não há dúvida de que nosso atual sistema econômico suprimiu até mesmo o sagrado, e portanto, falar sobre justiça deixou de ser antiquado para ser um conto de infância.

Talvez concordemos com Kant, de que não é possível conhecer as coisas em si, portanto, a justiça em si seria um imperativo norteador sem qualquer correspondência com o mundo factual – outra evidência da convenção de valores necessárias para a sociedade, que tende, por sua única natureza universal, à expansão.

Talvez, num mundo ideal, concordemos com Leibniz, de que vivemos no melhor dos mundos possíveis; com Rousseau e seu saudosismo à natureza bondosa, que acreditou ter sido rompida pelos sistemas sociais e desigualdades, mas ambos, embora diferentes em seus pressupostos e conclusões, continuaram a imitar Sócrates, e julgaram o outro como o valor avesso à sua própria visão do que é justo. É preciso valorar (por um vício de linguagem); É preciso identificar (cristalizar e negar a evidência da caoticidade do mundo); trocando em miúdos, é preciso frear o mundo.

O intelecto, enquanto meio de conservação do indivíduo, desenvolve o essencial de suas forças na dissimulação, pois esta é o meio de conservação dos indivíduos mais fracos e menos robustos, na medida em que lhe é impossível enfrentar uma luta pela existência munidos de chifres ou das poderosas mandíbulas dos animais carnívoros. É no homem que esta arte da dissimulação atinge o seu ponto culminante: a ilusão, a lisonja, a mentira e o engano, a calúnia, a ostentação, o fato de desviar a vida por um brilho emprestado e de usar máscaras, o véu da convenção, o fato de brincar de comediante diante dos outros e de si mesmo, em suma, o gracejo perpétuo que em todo lugar goza unicamente com o amor da vaidade, são nele a tal ponto a regra e a lei, que quase nada é mais inconcebível do que o aparecimento, nos homens, de um instinto de verdade honesto e puro.[13]

A vontade de verdade é fruto dessa dissimulação do mundo factual – sobrevivência no sentido darwiniano. Aquilo que se pode argumentar que a busca da verdade nos levou às descobertas das Ciências, Dionísio retruca que fomos educados para instrumentos, e isso nem mesmo arranha as coisas como são em si. A vontade de verdade diz muito mais respeito ao que não conhecemos do que aquilo que achamos conhecer. Outra evidência de que o justo, em Aristóteles, é fruto cultural e linguístico do ímpeto do freio do caos da natureza e toda sua força e esplendor, para exaltação do próprio homem, que, mesmo sem mandíbulas fortes de um javali, velocidade ou força de um felino, possui um órgão que é capaz de tornar o homem divino, mesmo em sua ridícula e breve existência fisiológica, ou ainda biomecânica, o órgão situado bem acima das vergonhas pélvicas, ou mesmo do corajoso tórax platônico, está acima mesmo da garganta e língua, e entre os ouvidos; ainda, atrás dos olhos e pouco acima do paladar – o órgão que depende de todos estes outros para criar e dissimular; exaltar e odiar – definitivamente, é preciso odiar a injustiça, a mentira, a dissimulação: o mentiroso é vil! Bradou Apolo antropomorficamente. Como? Mas deduzir não é mentir em nome do sagrado convencionado pela limitada linguagem humana? É necessário perpetuar a boa conduta, a justa conduta. Mas, o que é justo?

Sobre a mentira

Para o homem médio, atingido na integralidade pelos projetos culturais/ morais, talvez falar sobre justiça seja um freio em todo o ímpeto natural do homem, que busca sua expansão de poder – e neste sentido, o mestre peripatético fora um gigante em suas reflexões acerca do homem em sociedade. Mas, não se pode invocar a justiça como uma verdade eterna e absoluta, ou como virtude intocável. Quanto da real natureza estamos esquecendo? Retrucaria Dionísio, num canto qualquer de algum boteco de subúrbio, cheio de culpas, mas, ao mesmo tempo, de verdades: tudo! Dissimulai!

Não são as palavras e os sons e os arco-íris e as pontes fictícias ligando aquilo que está eternamente separado? […]. Não foram os nomes e os sons dados às coisas, para que o homem se recreasse com elas? É uma linda doidice a fala: graças a ela, o homem dança por cima de todas as coisas. Que aprazíveis são toda a fala e a mentira dos sons! Com os sons, o nosso amor dança sobre arco-íris multicores.[14]

A mentira e a dissimulação criam, não são uma rejeição em si, se tornam ferramentas de sobrevivência. Neste sentido, é perfeitamente compreensível a vontade de freio do mundo para firmar a própria existência – é compreensível, a partir do conceito de expansão, a criação do conceito de justiça.

A genealogia, portanto, busca utilizar não a verdade, mas a vida como critério de avaliação, a vida como vontade de potência: “A falsidade de um juízo não chega a constituir, para nós, uma objeção contra ele; é, talvez, nesse ponto, que nossa linguagem soa mais estranha. A questão é em que medida ele promove ou conserva a vida (grifo nosso)”.[15]

A noção de justo para o grego do século IV a.C. certamente não é mesma do sul-africano durante o Apartheid, nossos sentidos o atestam na realidade, diria Aquino se tivesse saído do mosteiro intelectual. Justo para o litigante de uma multinacional prejudicada por um negócio vicioso, visando judicialmente recuperar alguns milhares de dólares, certamente não é a mesma noção de justiça de uma família que perdera seu pai e sustento com o rompimento da barragem de Mariana, em Minas Gerais. Ainda que seja algo incômodo, a análise a partir das lentes da expansão pergunta: em que medida estes eventos promovem ou conservam a vida? O justo, em que medida promove ou conserva a vida?

Aristóteles fora irritantemente preciso em colocar uma relação de amizade verdadeira entre pessoas com afinidades, sejam materiais, intelectuais ou de cunho hedonista – e isto só reforça a contradição quando tratou de justiça como algo em si.

Adesão

Nesta pólis idealizada por Aristóteles, a justiça possui um caráter de adesão, na medida em que a adesão promovia a conservação da vida do grego médio. Ao aderir um sistema de condutas particulares, que obedecem a um propósito uno, o indivíduo seria agraciado por uma série de benefícios – estaria inserido na vida de eudaimonia. A injustiça apareceria no mundo como uma perfeita frustração, pois só é possível provar da injustiça, se tiver aderido a este sistema – entre lobos não há ética. Em toda a história, nos sobram exemplos de pensadores, intelectuais, filósofos, cientistas, teólogos, sustentando a ideia de que a justiça é fruto da nãoadesão a este tipo de sistema.

O processo de concentração e de centralização dos capitais que se intensifica nesta fase monopolista do capitalismo reflete-se no crescimento cada vez maior das unidades fabris, que vão reunir milhares de operários num mesmo espaço de trabalho. Desde cedo, o jovem Taylor acredita que o processo de produção cada vez mais complexo de tais fábricas não podia ser deixado nas mãos dos próprios trabalhadores, que procuravam sempre retardar o ritmo do trabalho. Seu ponto de partida é aquilo que qualifica como ‘indolência sistemática’ do trabalhador, que produz muito menos do que poderia propositadamente. Os efeitos da grande depressão do final do século, aliados à grande massa de imigrantes que anualmente chegava aos Estados Unidos à procura de emprego, levavam que a grande maioria dos trabalhadores compartilhasse a ideia de que se todos trabalhassem menos haveria uma melhor oferta de empregos. Assim pensando, a ‘cera’ no serviço era considerada uma clara manifestação da solidariedade de classe (grifo do perquiridor) e, indiretamente, da própria segurança do emprego. Esta posição política dos operários americanos, defendida pelos recém-criados sindicatos metalúrgicos ligados à também recente Federação Americana do Trabalho, iria chocar-se frontalmente com a obstinação produtivista de Taylor. Este via na ‘indolência’ voluntária dos trabalhadores a origem de todos os problemas da sociedade americana, inclusive os da própria miséria do proletariado. Sua ilusão consistia em acreditar que uma maior produtividade do trabalho iria trazer ganhos maiores tanto para os patrões quanto para os operários, para os quais os ganhos seriam representados nos salários maiores e nos prêmios de produção. Taylor iria viver uma série de conflitos com os trabalhadores sob seu comando na tentativa muitas vezes inglória de convencê-los a trabalharem mais depressa e a aumentarem a produção.[16]

Conforme demonstrado, dentro do próprio movimento luddista, já havia uma noção muito diferente de justiça daquela que Winslow Taylor imaginava. Num mundo perfeito, seria de fato muito provável a diminuição das desigualdades sociais por meio da implantação dos seus métodos de administração científica, controle do gestual dos operários, diminuição do tempo de execução das tarefas e dos intervalos para alimentação e idas ao banheiro, em consonância com o Ascetismo intramundano. A seguir, uma passagem de Max Weber interpretando Benjamin Franklin, demonstrando este tipo de ética social, tornada, com o percurso do tempo, de geração em geração, desde os tempos mais remotos, uma catacrese[17]:

As menores ações que podem afetar o crédito de um homem devem ser levadas em conta. O som do teu martelo às cinco da manhã ou às oito da noite, ouvido por um credor, te o tornará mais favorável por mais seis meses; mas se te vir à mesa de bilhar, ou ouvir tua voz na taverna quando deverias estar no trabalho, cobrará o dinheiro dele no dia seguinte, de uma vez, antes do tempo.19

Não é atoa que siglas e sistemas estrangeiros, em especial aqueles importados do outro lado globo, façam tanto sucesso nos diversos meios corporativos, tal como ocorreu com o próprio taylorismo, que, coincidência ou não, ironia do destino ou não, num determinado momento de luz da história, se apresentou de tal forma agressivo, que sua prática foi proibida por decreto de lei.

Adesão é a palavra sagrada de sistemas como o “5 S”.

O Japão, vencido e arrasado pelos efeitoos da última grande Guerra, enfrenta o efeito de duas bombas atômicas norte-americanas (Hiroshima e Nagasaki), a que se soma ainda a submissão aos ianques, proveniente de sua rendição, reverte a situação e de dominado passa a dominador. (…) a Teoria dos “5S”, cujos objetivos básicos de aplicação destinam-se a diminuir as ineficiências, evitar erros e manter tudo em perfeito funcionamento, os quais apresentamos:

  • SEIRI = senso de ORGANIZAÇÃO (utilização)
  • SEITON = senso de ORDEM
  • SEISO = senso de LIMPEZA
  • SEIKETSU = senso de PADRONIZAÇÃO
  • SHITSUKE = senso de DISCIPLINA20

Para ilustrar ainda mais esta adesão, se faz mister a continuação do mesmo manual, muito comum em instituições de ensino técnico, demonstrando o escopo do “5S”. Para que a implantação da Teoria dos “5S” seja frutífera, o seu emprego não deve ser só nas indústrias, nas empresas, nos escritórios. Devem fluir antes, no seio familiar (grifo nosso), pois a transposição desses princípios

Para que a implantação da Teoria dos “5S” seja frutífera, o seu emprego
não deve ser só nas indústrias, nas empresas, nos escritórios. Devem
fluir antes, no seio familiar (grifo nosso), pois a transposição desses
princípios de vida pessoal para a vida profissional passa a ser questão de
adaptabilidade, o que não ocorre na formação inversa.21

Não há dificuldades de se relembrar sobre a organização familiar, desde a
disposição dos móveis, numa tentativa de pseudo-integração cultural a implantar o
Feng Shui, passando, então, à limpeza dos quartos, a padronização nos
compartimentos de ferramentas ou comidas, a disciplina hierárquica entre membros
mais velhos ou que tenham concluído o ensino superior. É neste nível de penetração
que métodos como fordismo, taylorismo, ou ainda, o próprio toyotismo pretendem
exercer seu projeto do que é certo e errado – uma evidente demonstração binária da
lógica, da razão pura, da ciência, aplicadas ao homem médio, ou seja, a maioria.
Das quatro paredes no íntimo decorado pela Queen size, embutidos com
pegadores em cor idêntica ao cobre (ouro é brega em tempos de exaltação do
minimalismo exaltado por economistas), até a cozinha integrada, do quarto do
caçula à garagem do pai, a escola, a igreja, a academia, a empresa, todos
uníssonos na noção do que é justo – exatamente o que não é injusto. O que nossos
sentidos atestam, porém, é uma noção de justiça que perdeu seu status de cool,
para ficar naquela sala de jantar que ninguém utiliza, como adorno na parede – belo
conceito! Provoca Dionísio a caminho do lavabo.


[1] Ver Ibn Rushd (Averróes) e seus constantes embates contra o puro fundamentalismo da Palavra Sagrada, que buscava suprimir as questões filosóficas acerca de Deus (Nota do pesquisador).

[2] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro V, p. 97.

[3] Referência ao general nazista responsável pelo transporte de judeus aos campos de concentração, Adolf Eichmann. Que, segundo Hannah Arendt, em sua obra A banalidade do mal, não se revelara, em seu julgamento, como a encarnação do mal construído pela cristandade, mas sim, um sujeito que talvez nem mesmo odiasse os judeus, apenas estando disposto a exercer seu Beruf, da melhor maneira possível. Arendt destaca que a incapacidade de pensar a complexidade de nossas ações nos levaria à instrumentação do homem, ao tecnicismo da conduta, sendo entendida, enfim entre o certo e o errado. Um reducionismo perigoso do pensamento (Nota do perquiridor).

[4] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos Ídolos ou como se filosofa com o martelo.

Tradução de Jorge Luiz Viesenteiner. Petrópolis, RJ : Vozes, 2014,, p. 21.

[5] Referência a Friedrich W. Nietzsche, a forma como se apresenta em sua obra Ecce Homo, uma autobiografia filosófica que expõe, entre outros, seus métodos e motivos – da superabundância de saúde à doença.

[6] Descartes é retratado como um grande amante das vesgas e estrábicas. Suas biografias relatam como uma verdadeira fascinação (Nota incômoda).

[7] NIETZSCHE, Op. cit., p. 19, 20.

[8] NIETZSCHE, Friederich Wilhelm. Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral. Paris: Ed. Gallimard. Tradução, apresentação e notas por Noéli Correia de Melo Sobrinho. PDF., p. 9-10.

[9] MOSÉ, Viviane. Nietzsche e a Grande Política da Linguagem. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2005. p. 157, 158.

[10] SANTOS, Mário Ferreira dos. O um e o múltiplo em Platão com Parmênides:diálogo de

Platão. São Paulo : Livraria e Editôra Logos, 1958. p. 20.

[11] CASSIN, Bárbara. Aristóteles e o logos, São Paulo : Loyola, 1999, p. 28.

[12] MOSÉ, op. cit, p. 161, 162. 13            Ibid, p. 163.

[13] NIETZSCHE, op. cit., p. 8.

[14] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de P. O. De Castro. Lisboa: Relógio d’Água, 1998, p. 255.

[15] MOSÉ, op. cit, p. 39.

[16] RAGO, Luzia Margareth, MOREIRA, Eduardo F. P. O que é Taylorismo. São Paulo, 1984 : Brasiliense, p. 18.

[17] Catacrese é uma figura de linguagem da língua portuguesa, que conceitua a utilização de determinado termo fora do seu contexto original para nomear, de modo figurativo, algo que não possui um nome específico. A expressão “embarcar no avião”, por exemplo, originalmente o termo “embarcar” era utilizado apenas para se referir ao ato de entrar em um barco. Atualmente, no entanto, pode ser usado para qualquer meio de transporte. Ao contrário das outras figuras de linguagem, usadas como ferramentas linguísticas que ajudam a enriquecer um texto, tornando-o mais expressivo ou poético, a catacrese costuma ser utilizada essencialmente para facilitar o processo comunicativo cotidiano entre as pessoas.

* Acadêmico do curso de Filosofia pela Faculdade São Luiz, em Brusque, anteriormente Atleta, tendo passado pela experiência da Seleção Brasileira de Taekwondo.

Por uma breve, porém intensa experiência no curso de Direito da Faculdade Avantis, tive o privilégio de conhecer um dos responsáveis pela inclinação filosófica – Professor Paulo Ferrareze Filho, que teve a coragem e ousadia de mudar em nome da paixão, sob a benção dionisíaca.

Um pouco anteriormente, mais precisamente no ensino médio do Colégio Estadual

Afonso Niehues, em Itajaí, o primeiro contato com aquilo que se tornaria uma paixão – o então genial Professor de Filosofia, Renato Wolke, hoje aposentado com quem mantenho um vínculo de grande amizade e respeito.

Ainda a título de agradecimento, os socos de um peso pesado da Sociologia, professor Márcio Huber e suas provocações de cacique.

Atualmente sobrevivendo as imposições de um mundo que muito promete, como motorista de aplicativos de mobilidade urbana, dividindo entre as corridas a experiência direta e, por que não, provocativa com passageiros.

Entre os objetivos acadêmicos, o desenvolvimento de temas como epistemologia, ética e estética, nunca desvinculados do peso da economia, religião, direito e política na produção destas.

Noutro polo, a pretensão de ministrar aulas em universidades.

Categorias:Sem categoria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.