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Aonde está nos levando o exército dos Golems?

por Juan Manuel P. Domínguez

No domingo 26 de Maio de 2109 o presidente Jair Bolsonaro teve suas manifestações de apoio. Como era de prever, perfeitamente alinhados com a narrativa neofascista, nos cartazes se liam discursos de cunho neoliberal e militarista. Tudo numa simbiose que também incluía o natural desprezo que essa raça sente pelo público (Universidades) e pelas minorias (LGBTQ+, movimentos negros e indigenistas). Com uma inegável presença maioritária de brancos caucásicos, deu até para ver em algumas fotos a participação de minorias conformadas por grupos extremistas como “Patriotas Lobos Brasil”, um grupo pro milícias que tem um líder que aparece em todos seus vídeos de youtube vestido com um uniforme camuflado, típico do exército americano. Nada novo nesse horizonte bolsonarista. Ao contrário, a ausência do MBL, no médio de uma agitação e de um repúdio generalizado por parte dos apoiadores mais radicalizados do presidente, da uma mensagem clara de que a manifestação do dia 26 é um ponto de inflexão para a experiência do governo do Bozo: Existe um antes e um depois do dia 26, e o depois diz que o bolsonarismo é um movimento radicalmente personalista. Tudo está concentrado na figura do presidente, e é assim que será, até o fim acontecer.

Para a tradição judaica, um Golem é um ser humanoide feito de lama, animado, em alguns casos, a través de processos alquímicos. No hebraico moderno, Golem significa “estúpido”, “tolo”, ainda que, na sua origem, a palavra significa, essencialmente, “matéria prima”. Não são esses manifestantes alienados, a matéria prima necessária para tomar medidas que afetam os interesses da sua própria nação? Não é, senão, uma turma de autômatos submersos nessa agressividade eufórica, o que um autocrata que nem o do Bolsonaro, precisa para continuar em frente? Mesmo envolvido em casos de corrupção, ele e a sua família toda, e mesmo quando sua imagem grotesca é repudiada em diversos países e cidades do mundo?

A função de um Golem é a de obedecer a um amo e ajudá-lo nas tarefas cotidianas. Os Golems são incapacitados de falar, para evitar assim que possam discutir e discordar com seu senhor. É por isso que esse autômato leva na testa a palavra divina, o nome de deus, ou algum tipo de símbolo sagrado revelador do sentido da existência ou da origem do universo. Como não pensar na figura dos Golems quando vemos as fotos das manifestações do dia 26/5? Pessoas de classe média, as mesmas que saíram para as ruas derrubar o governo da Dilma Rousseff, ataviados com camisas do CBF, hoje defendem um governo que só mostra incompetência e rudeza na hora de comandar o país. Uma classe média que alça orgulhosa os cartazes que pedem pela reforma da previdência, uma medida neoliberal que, está altamente provado, não vai fazer mais do que acentuar a recessão e levar a economia e uma inevitável involução. Mas nada, nenhum argumento os fará recuar. O misticismo em que, de alguma forma, o núcleo do governo conseguiu construir ao seu redor, os cega ao ponto de responder com histeria qualquer discordância que exista dentro das filas que levaram o Bozo ao poder, e é isso o que aconteceu no feroz repúdio que esses bolsonaristas radicais efetuaram sob o MBL.

Em números oficiais, a Argentina hoje é considerada pela ONU como uma das piores economias do mundo. O país que o Bolsonaro e sua equipe toma como referencia na hora de pensar suas medidas económicas. Mas, não adianta, os Golems não querem argumentos, não forma parte da sua função debater, interagir intelectualmente com ninguém. São uma força servil às ordens de um senhor e vão acompanhá-lo até a catástrofe final.

Deve ser muito frustrante para essas pessoas de classe média, que frequentam invariavelmente os shoppings e levam suas famílias nos cinemas onde os filmes americanos são quase que uma exclusividade das programações, sentir que eles não podem viver numa Gotham, uma cidade urbanizada onde tudo é paz e harmonia, tudo está controlado pela figura patriarcal do milionário bondoso e sensível que dispus grande parte da sua fortuna para, em ocasiones, virar um miliciano disfarçado de morcego que responde ao nome de “Batman”. Essas são as simbologias messiânicas que construíram a subjetividade desse povo. Precisam de um patriarca, precisam de um senhor, que resolva tudo com armas, como se faz naqueles filmes de dentro das salas dos shoppings. Uma figura que centralize as responsabilidades que cada um deles, como cidadão, não quer tomar. Como tentar respeitar o que é diferente, tolerar o que lhes resulta incómodo. Os empresários que apoiam o Bozo? Ganhar um pouco a menos, talvez, praticar um capitalismo mais honesto. Então, mesmo que seja o MBL, que deu origem a grande parte do capital político do governo, que queira discutir as medidas ou as alianças que estão sendo tomadas, a resposta será colérica, intransigente.

Esse exército de autômatos acríticos e furiosos faz sua força para levar o Brasil a uma catástrofe sócio econômica iminente, como aconteceu no caso da Argentina. Esse cenário polarizado não resulta feliz, mas é a realidade que temos hoje. A mitologia, a religião e a literatura dizem que um autômato não acorda do seu letargo ao menos que algo verdadeiramente dramático aconteça. É assim que ele se percebe como um ente patético na sua falta de autonomia e de pensamento e senso crítico, vems isso refletido nos contos de E.T.A. Hoffman e Phillip Dick. Um futuro promissório do Brasil depende de que isto não seja necessário.

Originalmente publicado no “Brasil 247”

Juan Manuel Palomino Domínguez é Colunista no “Brasil 247” / “Mídia Ninja” / “El Destape” – Editor colaborador no “Caos Filosófico” e “Le Monde Diplomatique”.

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