ARTIGOS

Encontrar a paz no quarto com cadáveres na sala

por Paulo Ferrareze Filho

Não surpreende que, no último ano de mandato, Bolsonaro continue sendo idiota, abjeto e criminoso.

Se a psicologia social tem algum dever sobre a pandemia bolsonarista, é o de tentar explicar como ainda há 40 milhões de pessoas no Brasil que permanecem com Bolsonaro. Penso que é importante transformar percentuais em número de habitantes para que tenhamos presente o tamanho dessa massa de pessoas. Mais do que analisar Bolsonaro, parece-me prudente, e sobretudo útil às gerações futuras, analisar essa massa remanescente de 40 milhões que ainda outorgam poder a um sujeito tão rasteiro e tão perverso quanto Bolsonaro.

É preciso tomar esse dado – os 40 milhões – como um mistério, um enigma, um verdadeiro objeto de pesquisa. Há ótimos trabalhos, desde outras experiências, que tentam explicar os mecanismos psíquicos que operam em determinadas massas, suas pulsões, sua relação com o líder, seus modos de subjetivação e seus mecanismos de propaganda e propagação.

No entanto, o que há de particular em nossa massa de 40 milhões? Depois de dois anos de uma mortandade pandêmica seriamente agravada pela irresponsabilidade de Bolsonaro, o que poderá aterrar a divagação delirante da incrível massa de 40 milhões que ainda negam as evidências científicas das vacinas?

Podemos introduzir o tema pensando na velha historieta moral que distingue os sábios, os inteligentes e os burros. Lembrem-se que a diferença entre o inteligente e o burro está, basicamente, na repetição do erro. No nosso roteiro particular da metáfora do filme Não olhe para cima (Netflix), 40 milhões desprezam o fato de que matar e promover a morte, por ação ou omissão, é crime.

É pressupondo que a linguagem tem essa potência performática que podemos colocar as digitais de Bolsonaro na cena do crime humanitário que cometeu, pelo conjunto da sua não obra, na pandemia. É sob a enunciação e o albergue de Bolsonaro que pais da elite carioca rogaram para que a escola não obrigasse seus filhos a tomar a vacina. Um traço marcante dessa elite paleolítica é que perdeu a vergonha de expor a própria burrice, como esses senhores pais e mães no Rio de Janeiro que foram noticiados e que certamente nem perceberam o próprio vexame cognitivo.

Essa falta de vergonha na cara encontra abrigo na falta de exemplo do mito ao qual se reza cartilha idêntica. Assim, se o presidente abaixa a máscara de uma criança durante uma pandemia mortal, o crime já não é cometido por meio de palavras com efeito de rebanho ou por omissão, mas por ação. Além de promover a morte, também ensina a massa a matar em larga escala a partir de um intenso trabalho de propaganda, em geral azeitado com bastante dinheiro e mentira.

pesquisa de Daisy Ventura, Cláudia Perrone-Moisés e Kathia Martin-Chenut confirma que, quando se trata de saúde pública, é possível matar a partir de escritórios. Assim, quando Bolsonaro, que mentiu ou distorceu informações sete vezes ao dia em 2021, disse que “nunca viu crianças mortas por Covid”, ao mesmo tempo em que produzia propaganda alucinatória para seu rebanho, também cometia este crime que, apesar de não constar no código penal, é por todos conhecido: o crime de matar criancinhas.

O artigo das pesquisadoras ainda levanta informações sobre como a gestão de Bolsonaro repercutiu internacionalmente: “Catástrofe humanitária”, “Pior gestão do mundo”, “Ameaça à saúde global” e “pária pandêmico” foram algumas das honrarias recebidas. Além disso, aponta que o Brasil “foi alvo de incontáveis apelos de organismos internacionais, entre eles da OMS e do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas, além de três medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.”

O estudo também transcreve Carlos Ayres Brito, ex-ministro do STF: “por meio de sistemáticas ações e omissões, o governo Bolsonaro acabou por ter a pandemia sob seu controle, sob seu domínio, utilizando-a deliberadamente como instrumento de ataque (arma biológica) e submissão de toda a população”, havendo “fundadas e sobradas razões para que o Presidente da República possa responder, no plano internacional, por crime contra a humanidade.

Sete teses, de acordo com a pesquisa, justificam a criminalidade de Bolsonaro:

  1. Defesa da imunidade de rebanho como resposta à Covid-19.
  2. Incitação constante à exposição da população ao vírus e ao descumprimento de medidas sanitárias preventivas.
  3. Incitação de uso de medicamento comprovadamente ineficaz para o tratamento da Covid-19.
  4. Banalização das mortes e das sequelas causadas pela doença.
  5. Obstrução sistemática às medidas de contenção promovidas por governadores e prefeitos.
  6. Abstenção de medidas de prevenção da doença.
  7. Ataques a críticos da resposta federal, à imprensa e ao jornalismo profissional, questionando a dimensão da doença no país.

Se imaginávamos que a disseminação do conhecimento científico seria facilitada com o advento da era da comunicação, o atual estado da pós-verdade, cuja gramática contempla a circulação da mentira deslavada, conduziu-nos a uma pós-democracia que permite que pessoas refutem a ciência por negativa geral. Uma neosseleção natural que mata muito mais aqueles que colocam a teimosia e a pobreza simbólica no lugar da evidência, da proposição e do argumento. O negacionismo é isto: no lugar da antítese, coloca-se uma bomba para implodir não só a tese, mas a ciência inteira de onde essa tese fala.

Se os enunciados de Bolsonaro revelam traços perversos, sua ascensão atende à demanda de uma sociedade de neuróticos desamparados transformados em perversos ordinários. No ótimo Cidade Perversa, Danny-Robert Dufour ajuda a explicar a massa que elegeu Bolsonaro em 2018:

“[…] neuróticos em desamparo podem tomar como Senhor, se não o primeiro lunático que aparecer, pelo menos aquele que tiver dado mostra de maior rigor.”

Ou talvez os remanescentes já estejam delirando, afinal, são tempos de transe e de confusão mental. Sejam neuróticos desamparados ou psicóticos delirantes, fato é que encontram a paz no quarto mesmo com os cadáveres na sala.

Será ainda preciso dizer que palavras e omissões matam tanto quanto um revólver? A ignorância já cansou de mostrar na história como é desastrosa. Neste capítulo brasileiro, ela definitivamente naturalizou a morte, o matar e o morrer.

PAULO FERRAREZE FILHO é professor, pós-doutorando em Psicologia Social USP e psicanalista em formação

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