ARTIGOS

A feliz preguiça de Bolsonaro

por Felipe Eduardo Lázaro Braga

Tem uma cena muito boa em Don´t Look Up: depois de meses e meses alertando a população americana sobre a chegada inevitável de um cometa, Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence finalmente conseguem vê-lo a olho nu, ainda um ponto minúsculo no céu. Diante da aparição, eles não ficam desesperados ou melancólicos – aquele cometa está prestes a acabar com a vida humana, aí incluídos família, amigos, crianças, velhos, A Divina Comédia, etc. Pelo contrário: eles ficam maravilhados.

Um pouco porque aquele cometa é, para ambos, um objeto de estudo científico, e olhá-lo daquela maneira, sem o auxílio de fotografia, equação orbital, modelo matemático, deve causar certo deslumbramento inevitável. It´s horrific and it´s beautiful at the same time, é como descreve o Leo cientista.

Mas há mais no sentido de alegria da cena: os carros vão estacionando no meio da avenida, os figurantes olham para o céu, a montagem mostra o frame do cometa se aproximando, e a expressão de todos é de medo, pavor, gravidade. Leo DiCaprio e Jen Lawrence, ao calcularem a trajetória de colisão do cometa, ficaram com medo, apavorados, assumiram o ar de gravidade que a tragédia exige. Mas naquele exato momento em que o cometa pode finalmente ser visto a olho nu – isto é, momento em que a realidade se impõe para todos – os dois sentem a alegria genuína de gritar em volta: eu avisei! Estão vendo, vamos todos morrer!

We´ve been trying to tell you this whole time.

Jair Bolsonaro passou as festas de fim de ano de 2021 andando de Jet Ski em Santa Catarina. Pescando também, e dançando funk machista. Curtindo parque de diversões lotado, e brincando de hot wheels. O país estava um caos por causa das chuvas de verão excepcionalmente intensas, e que atingiram com especial monta os territórios do sul da Bahia e norte de Minas Gerais. Motivo pelo qual toda a diversão de Bolsonaro ganhou aquela conotação de insensibilidade e falta de empatia.

Enfim: idiota, escroto, genocida, despreparado, babaca, etc.: fora Bolsonaro. Mas, no todo, é Bolsonaro sendo transparentemente quem ele é, sem nenhuma novidade.  

Depois de toda a diversão, vem a vigésima quarta internação pela facada. Fico com preguiça de sugerir ou inferir qualquer motivo pequeno e eleitoreiro para esse calendário oficial da facada, que se repete sacrossantamente a cada tantos meses. Preguiça de achar que a família Bolsonaro está manipulando a boa-fé dos brasileiros, que sentiram genuína comoção quando ele sofreu o atentado. E ainda mais preguiça de constatar que, provavelmente, a família Bolsonaro está sim manipulando a boa-fé dos brasileiros, principalmente quando observamos a relação estreita entre a cobertura intensiva da internação (mídia tradicional/perfis de rede social), e as métricas de engajamento e popularidade on-line, que explodem em memes e orações (e desviam a atenção das férias escandalosas e insensíveis).    

A facada, sabemos, já tem feriado próprio pra chamar de seu, solstício de verão da facada de fim de ano, que é ritual bolsonarista obrigatório se repetindo no imaginário fotográfico das internações. Sempre com os mesmos enquadramentos: Jair Bolsonaro com o tubinho de soro ao lado, cara de sofrido, negócio de alimentação preso no nariz, foto mostrando abdômen/cintura/rosto; ou: Jair Bolsonaro andando também muito sofrido num corredor branco, arrastando o sorinho portátil ao lado, e as enfermeiras/enfermeiros encorajando o presidente como se ele estivesse andando pela primeira vez depois de vinte anos. Por pura diversão maliciosa, fico imaginando o país descobrir que, na verdade, Bolsonaro continuou suas férias em Florianópolis, e que lá em 2019 ele produziu oito ensaios fotográficos da facada, só trocando mais ou menos o arranjo de luz, a cor do avental, a cara da enfermeira, etc., verdadeiro gênio trambiqueiro aprimorando a tecnologia do atestado falso.   

Etc. gente, que preguiça. Está claro que Jair Bolsonaro é um fenômeno historiográfico conhecido e populista, mais ou menos na linha de montagem Collor/Quadros. Mas cuja ascensão eleitoral é absolutamente contemporânea, feita na esteira licenciosa das redes sociais. Os sujeitos apaixonados por Bolsonaro são, naturalmente, a parcela óbvia de influência do presidente; é preciso sopesar, no entanto, até que ponto os progressistas – nós – somos igualmente indispensáveis para o mecanismo de influência digital de Bolsonaro. Sopesar agora, porque Bolsonaro, ainda que perca as eleições presidenciais de 2022, continuará projetando sua influência nociva e razoavelmente ampla no debate público brasileiro, no exato momento em que o país vai precisar se reerguer do desastre que foi sua presidência; não só ele não vai ficar quieto, como vai atrapalhar, na melhor cartilha populista, o processo necessariamente doloroso de recuperação, da mesma maneira que, lá nos Estados Unidos, Donald Trump pauta o debate e intensifica polarizações absurdas, debilitando a saúde democrática do país, e aprofundando a espiral decadentista em que os EUA estão.

Assim como Donald Trump, Bolsonaro é um tiririca, e está lá para cumprir seu papel de bufão. Os escândalos e deboches não são consequências inevitáveis, e indesejáveis, do absoluto despreparo de Bolsonaro para ocupar o cargo de presidente (que, de todo modo, ele já não ocupa); são, antes, a realização mais perfeita do método de engajamento incessante e inescrupuloso do novo poder, para o qual o desastre do país não passa de colateral menor no horizonte de critério do que realmente importa: popularidade de curtíssimo prazo nas redes sociais. Conteúdo, conteúdo novo, conteúdo novíssimo, é a máquina de fornecer pequenas recompensas de espetáculo, e que não pode parar, sob pena de minar a própria mecânica de projeção dos bolsonaristas. Bolsonaro não precisa pensar em política pública de longo prazo, porque sua ambição é alimentar a voragem imediatista das redes on-line.   

Em agosto de 2021, o ex-presidente Lula alcançou certo estrelato virtual – leia-se: estrelato conquistado na linguagem específica de curtidas/comentários/interações on-line – quando sua namorada, a Janja, postou aquela foto bonita dos dois abraçados, debaixo de uma lua incrível no Ceará: ela com o rosto do Lula-antigo estampado na camiseta (acho o Lula metalúrgico idêntico ao poeta Ismar Tirelli); ele de sunga e sorriso mega simpático. Os índices de engajamento on-line, absolutamente expressivos, trabalharam para associar a imagem do ex-presidente à do sujeito descontraído, simpático, curtindo uma praia com a namorada, gente como qualquer um de nós.   

Em dezembro de 2021, Lula tirou outra fotografia importante: a do aperto de mãos com Geraldo Alckmin. Goste-se ou não do ex-governador Alckmin, goste-se ou não da possível composição de chapa entre ambos, a fotografia – e mais do que a fotografia, o ensaio de diálogo entre eles – tem uma gravidade cívica imensa no cenário de terra arrasada do Brasil de 2021: cada um deles, a partir de suas respectivas afiliações ideológicas, representa o esforço político, intelectual e burocrático que gerou, no Brasil da redemocratização, as nossas grandes conquistas sociais, nomeadamente o combate à hiperinflação, e o projeto de erradicação da miséria extrema. Aí está uma possível composição de frente ampla e democrática entre setores da centro-esquerda e centro-direita, como resposta direta à inclinação autoritária do atual governo, exemplo de civilidade para o Brasil e exemplo de civilidade para o mundo, que caminha em toada igualmente polarizado: nem de longe essa fotografia gerou tanto engajamento quanto a sunga do Lula.

Novos tempos, novos métodos. Assim como John Kennedy derrotou Richard Nixon porque passou maquiagem antes de aparecer na televisão, o político do século XXI vai ter de conjugar a rapidez meio histérica das redes sociais (coisa que Bolsonaro fez primeiro), à gravidade e responsabilidade de gerir o Brasil de urgências reais (coisa que nem de longe Bolsonaro tentou fazer). A foto da sunga e a foto do Alckmin mostram um ensaio de Lula on-line com um pé nos problemas do país, e outro no modo contemporâneo de comunicá-los; uma foto para os adultos, e uma foto para consumo mais célere.   

Concluo desta maneira: Bolsonaro é um tiririca. Do lado da extrema direita, a galera o adora, ri, se diverte, produz memes, faz montagens com as falas do presidente, etc.: nostalgia de um “humor” cafona e agressivo. Mas, num certo sentido, é tiririca para o lado de cá também, o lado progressista: ele confirma, diária e ostensivamente, como estávamos certos em fazer-lhe oposição intransigente. Cada passo em falso do presidente é mais um “eu avisei” de estimação, ainda que silencioso e subentendido; há uma recompensa, uma dose de dopamina na catástrofe de estar correto; de olhar para o cometa e dizer: pois é pessoal, eu estava tentando alertar todo mundo, ninguém me ouviu né. O cometa vai matar a ambos, mas não se trata mais do cometa: se trata da disputa entre um e outro lado na arena de curtidas, que é uma realidade com dinâmica e vida própria. O mecanismo de sucesso que gerou o fenômeno Bolsonaro precisa de dois termos, ambos alimentados pelo mesmo tiririca: os “chucros” que acham graça no que ele faz, e os “indignados” que reagem às besteiras. Um e outro termo são indispensáveis, porque a graça, no final das contas, não é a besteira em si, mas o incômodo que ela gera nos outros. A criança não acha a palavra “pinto” engraçada, ela ri da reação dos adultos.  

Dois dias depois de todos os bolsonaristas terem orado para Nossa Senhora de Fátima proteger a saúde do presidente, Bolsonaro já estava jogando futebol com o Marrone. Diante das besteiras desse senhor, penso que o passo de sofisticação política de 2022 é ignorar suas tentativas infantis de ser notado; just don´t look at him.

FELIPE EDUARDO LÁZARO BRAGA é doutorando em Sociologia (FFLCH-USP)

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