ARTIGOS

O que Bolsonaro e Napoleão têm em comum?

por Marcos Afonso Johner

Bolsonaro tem muitas características em comum com Napoleão. Mas engana-se quem pensa que a referência diz respeito ao famoso imperador francês que, por certo período da história, dominou a Europa. Refiro-me ao porco Napoleão, aquele infame personagem da fábula A revolução dos bichos, de George Orwell.

Na Granja do Solar, uma variedade de bichos, tais como porcos, cavalos, ovelhas, vacas, cachorros etc., vivia sob o comando do Sr. Jones, o fazendeiro que, depois de algumas crises financeiras, já não conseguia administrar corretamente o lugar. Insatisfeitos, os bichos se revoltaram e destituíram o Sr. Jones do comando, expulsando-o da fazenda, que, a partir de então, passou a chamar-se Granja dos Bichos. Os porcos, considerados os mais inteligentes, assumiram a direção da fazenda. Depois de algumas reviravoltas, Napoleão, um dos porcos, escoltado pelos raivosos cães que ele adestrou ao roubar-lhes, ainda quando filhotes, de sua mãe, conseguiu expulsar Bola-de-Neve, o porco com quem até então dividia a liderança da fazenda. O episódio marcou a ascensão de Napoleão como autoridade suprema da granja. Eis um resumo bastante grosso para situar o leitor que porventura ainda não tenha lido o livro.

Na ocasião em que Bola-de-Neve foi expulso, ele e Napoleão debatiam a respeito da instalação de um moinho na granja. Ambos discutiram e apresentaram as suas propostas e ideias para todos os animais que lá habitavam, os quais, ao final, votariam sobre a aprovação ou rejeição. Ao perceber que Bola-de-Neve articulava bem as suas ideias e conseguia chamar a atenção do público, Napoleão ordenou que os raivosos cachorros perseguissem o seu oponente. Assim que obtiveram êxito em afastar Bola-de-Neve da fazenda, os cães retornaram ao celeiro e permaneceram juntos a Napoleão, sacudindo a cauda para ele da mesma maneira como os outros cachorros outrora faziam com o Sr. Jones.

Assim que assumiu o comando, Napoleão determinou que todos os problemas relacionados ao funcionamento da granja seriam resolvidos por uma comissão de porcos, que se reuniria em particular e depois comunicaria as decisões aos demais, sem haver debates entre o restante dos bichos. Alguns porcos se opuseram. No entanto, os cachorros de Napoleão soltaram um rosnado ameaçador, que obrigaram os protestantes a se calar. As ovelhas berraram um estrondoso “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” por um quarto de hora, soterrando qualquer hipótese de discussão.

A passagem demonstra que a força bruta não lida bem com argumentos, ou melhor, não se importa com eles, motivo pelo qual recorre a mecanismos repressivos para silenciar os seus opositores. Aqui, basta lembrar-se da censura à liberdade de imprensa nos períodos ditatoriais e, mais recentemente, a “lista de detratores”, que reúne jornalistas, professores, influenciadores digitais etc., monitorados por criticarem o governo Bolsonaro, o que atesta uma clara tentativa de impedir o exercício da liberdade de expressão.

Os cachorros obedientes e fiéis parecem representar aquela massa alienada e sempre pronta a defender o seu líder, seja ele quem for; noutras palavras, um exército de fiéis escudeiros que não abandonam o seu mestre e saem latindo e mordendo quem pense diferente ou aja em sentido contrário ao dele. Nesse modelo avesso às aspirações democráticas, não há lugar para discursos racionais. Basta dispor de um grupo mais fanático, simbolizado pelas ovelhas, que grite meia dúzia de palavras sem sentido, mas que em sua soma componha um jargão com efeitos populares, para sufocar qualquer tentativa de sobriedade e racionalidade no debate. Qualquer semelhança com os bolsonaristas é mera coincidência…

Na sequência dos acontecimentos, os animais começaram a questionar se a tomada do poder por Napoleão seria mesmo legítima. Para acalmar os ânimos, o porco Garganta, um animal cuja capacidade de persuasão era capaz de convencer que o preto é branco, anunciou que a lealdade e a obediência eram mais importantes, e o lema que os animais deviam ter em mente era a disciplina. Qualquer passo em falso e o inimigo poderia retornar, e, por certo, ninguém queria o Sr. Jones de volta. Ao ouvir essas palavras, os animais se aquietaram, além de aceitarem o fato de que as discussões poderiam implicar o retorno de Jones, o que justificava a supressão dos debates. Sansão, o cavalo obediente e servil, disse: “Se é o que diz o Camarada Napoleão, deve estar certo”, adotando a máxima “Napoleão tem sempre razão”.

A presença de Garganta representa como uma propaganda bem articulada é capaz de manipular a massa e fazê-la aceitar passivamente o regime, tornando-a dócil ao sistema. As pessoas internalizam os deveres de lealdade e de obediência ao líder, cujas ações e ordens passam a ser inquestionáveis: ele é a própria lei. Como disse Bolsonaro para os seus eleitores numa daquelas reuniões típicas no puxadinho do Palácio do Planalto, “eu sou a Constituição”. Um processo muito semelhante ao que ocorria no regime Nazista: a palavra do Führer tinha mais validade do que as leis.

Já a ameaça de retorno do Sr. Jones representa algo que aconteceu nas eleições de 2018 e parece persistir até agora: tudo menos o PT, então aceitemos um candidato troglodita que não sabe articular bem as ideias e os projetos, mas que levanta bandeiras fáceis e slogans populistas que chamam a atenção do grande público. Autoriza-se a restrição de alguns direitos para impedir que o governante anterior ou alguém de seu partido retorne, sob o pretexto de que ele “acabaria com o país”. Enquanto isso, vários direitos, principalmente das classes baixas, vão sendo soterrados e varridos para debaixo do debate, enquanto o líder continua a jogar a culpa dos problemas para outras pessoas e partidos. Os movimentos bolsonaristas exemplificam bem a situação: várias faixas solicitando a intervenção militar para a “defesa da liberdade”, com o famoso grito “eu autorizo”, pelo “direito de não ter direitos” etc. Para lembrar o próprio Evangelho de Cristo (Mt., 15, 14), Bolsonaro é um cego guiando outros cegos; logo, se não se sabe para onde ir, qualquer caminho serve (Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas).

Três semanas depois de assumir o poder, Napoleão surpreendeu os bichos da granja ao anunciar que o moinho de vento seria finalmente construído, sem ao menos dar alguma explicação sobre o motivo que o fizera mudar de ideia. Apenas alertou os animais que a tarefa extraordinária significaria trabalho mais duro, podendo até ser necessário reduzirem-se as refeições. No mesmo dia do aviso, Garganta explicou que Napoleão nunca fora contra a construção do moinho de vento, e que o projeto apresentado por Bola-de-Neve fora roubado dentre os papéis de Napoleão. Algum bicho questionou o motivo pelo qual Napoleão manifestou-se contra a construção do moinho. Garganta explicou que Napoleão apenas fingira a sua contrariedade em relação ao moinho, uma medida tomada para livrar-se de Bola-de-Neve, um ser de péssimo caráter e influência perniciosa. Com Bola-de-Neve fora do caminho, o projeto poderia prosseguir sem a sua interferência. Era uma tática: embora os bichos não estivessem certos do significado da palavra tática, Garganta falava de modo tão persuasivo e três cachorros rosnavam tão ameaçadores que os animais aceitaram a explicação sem mais perguntas.

Não raro os políticos demandam o sacrifício do povo, o trabalho duro, mesmo que sem a remuneração e as condições adequadas, enquanto os privilégios da elite permanecem intactos [na fábula ocorreu a redução das rações dos animais da granja em períodos de dificuldade, com exceção da dos porcos e dos cães]. Há uma romantização do sofrimento, sustentada pela lógica neoliberal da meritocracia e do “empresário de si mesmo”. O cavalo Sansão, obediente e servil, é a representação perfeita: trabalhar sem questionar, já que o líder está sempre certo e deve-se obediência a ele, mesmo que as condições de trabalho sejam precárias. Em nossos dias, a inflação – positiva apenas para a elite e os especuladores do mercado financeiro – e a alta taxa de desemprego implicam uma informalização cada vez maior do mercado de trabalho, mediante a desregulamentação e a supressão de direitos trabalhistas. Na fábula, o porco Garganta convenceu os animais de que eles não sentiam falta de comida, a despeito das aparências. O governo apenas operou um reajuste na distribuição dos alimentos. No Brasil de 2021 as coisas não são diferentes: é preciso convencer a população de que não há fome no país e de que as medidas econômicas são adotadas em seu benefício, não obstante caracterizarem retrocessos. Adaptando a Teoria do Brasil de Darcy Ribeiro ao contexto desta resenha, o governo apresenta um mínimo de concessões para silenciar os movimentos reivindicatórios e fazê-los acreditar que realmente está agindo em prol da nação.

Se durante o governo de Napoleão os bichos trabalharam feito escravos e, se não aceitassem trabalhar nos domingos à tarde, teriam a ração diminuída pela metade, no governo Bolsonaro acontece algo semelhante: um glamour da informalidade, da precariedade, da desregulamentação, das supressões de direitos, obrigando muitos trabalhadores a disporem de horas e mais horas em troca de uma miséria, caso não queiram passar fome. Na fábula, o resultado foi inevitável: apesar do trabalho humilhante dos bichos, a fome bateu às portas, tendo apenas palha e nabos para comer; no Brasil de 2021, as imagens de pessoas fazendo filas para comprarem ossos e pegando alimentos de caminhões de lixo atestam com clareza o caos alimentar. Napoleão resolveu ocultar esse fato ao resto do mundo, selecionando e instruindo alguns bichos, principalmente as ovelhas, para comentar que, em vez disso, havia ocorrido aumento das rações. Bolsonaro age em linhas quase idênticas: procura mascarar o problema da fome, afirmando ser uma grande mentira que as pessoas passam fome no Brasil, taxando de idiota quem diz que é preciso comprar feijão e insinuando que as pessoas devem dar “tiro de feijão” quando tiverem a casa invadida.

Além disso, para relembrar 1984, outra obra de Orwell, a propaganda cria uma realidade paralela, subjetiva, existente apenas na cabeça dos seguidores e alheia a qualquer dado objetivo existente no mundo real. Noutras palavras, manipula-se a realidade conforme os interesses do líder. Inventam-se mentiras e distorcem-se fatos que aconteceram, para dizer que não aconteceram, ou que aconteceram de uma forma diferente, conforme a estratégia do astuto Garganta. Há uma regularização da mentira. Se o líder afirma que 2+2=5 ou que um medicamento comprovadamente ineficaz para o tratamento de uma doença é eficaz, então ele está certo. “Napoleão está sempre certo”.

Desse modo, é possível que o líder adote medidas contraditórias com aquilo que sustentava publicamente. No caso da fábula, isso é retratado pelo episódio da construção do moinho e, noutra ocasião, pela venda da madeira da granja ao fazendeiro Frederick, até então considerado um inimigo dos interesses da fazenda; no caso de Bolsonaro, vários fatos: o conluio com o “Centrão”, amplamente criticado durante as eleições, chegando um ministro atual do governo a cantar “quem gritar pega centrão, não sobra um meu irmão”; a aliança com corruptos, como Roberto Jefferson, quando Bolsonaro dizia-se contra a corrupção; a política do “toma lá da cá”, com a indicação política para os Ministérios; a demissão de ministros “técnicos”, na primeira oportunidade em que se colocaram contrários às ideias fanáticas de Bolsonaro, como aconteceu com Mandetta.

Outro ponto de apoio dessa lógica consiste na criação de um inimigo para depositar a culpa dos problemas. Assim como Napoleão jogava a culpa em Bola-de-Neve [em certo momento da fábula, o moinho foi destruído por forças da natureza, mas Napoleão terceirizou a responsabilidade do ocorrido para Bola-de-Neve], Bolsonaro coloca-a no PT, na esquerda, nos governadores, no comunismo, no socialismo, no STF, na ONU, na OMS, nas ONGS, na Venezuela, na China… Mesmo após três anos de governo, Bolsonaro parece incapaz de assumir a responsabilidade pelo país. Afinal, para alguém com as capacidades cognitivas limitadas, é mais fácil colocar a culpa em terceiros.

Seguindo o plano da regularização da mentira, se futuramente for comprovado que o medicamento indicado pelo governo foi realmente ineficaz (várias pessoas morreram ou tiveram efeitos colaterais), então serão adotadas as providências para dizer que as coisas não foram bem assim e que os responsáveis pelas mortes foram o STF e os governadores. Aliás, em determinado momento da fábula, espalhou-se a notícia de que Bola-de-Neve invadira a granja durante a noite, sendo que uma de suas ações teria sido jogar a chave do depósito no fundo do poço. O interessante foi que os bichos continuaram a acreditar nessa versão, mesmo depois que a chave perdida foi encontrada sob um saco de farinha. No caso de Bolsonaro, alguns de seus defensores negam que ele tratou a Covid-19 como uma “gripezinha”, apesar de existirem vídeos nos quais ele expressamente se refere à doença dessa maneira.

Logo depois do sucesso da revolução, os bichos da granja entraram em acordo de que ninguém poderia morar na casa deixada pelo Sr. Jones, tampouco dormir nas camas. Porém, com Bola-de-Neve já expulso da fazenda, os porcos mudaram-se para a casa grande, onde fixaram residência. A inquietude dos bichos foi acalmada pelo astucioso Garganta, que os convenceu de que os porcos, sendo os cérebros da granja, necessitavam de um lugar calmo para trabalhar. Não obstante, alguns bichos tomaram conhecimento de que os porcos passaram a dormir nas camas. O mandamento original fora alterado sem que ninguém percebesse: “Nenhuma animal dormirá em cama com lençóis”. Afinal, a cama poderia ser qualquer lugar, diferentemente dos lençóis, que representavam a criação humana. Com Bolsonaro a situação é parecida: nas eleições, afirmou que “acabaria com a mamata”; depois de eleito, é o presidente que mais gasta com cartão corporativo, sem mencionar os negócios milionários efetuados pela esposa e pelos filhos.

Napoleão farejava a presença de Bola-de-Neve em todos os cantos da granja, o que deixava os animais aterrorizados: Bola-de-Neve parecia uma espécie de entidade invisível, impregnando o ar à sua volta e ameaçando os bichos com toda a sorte de perigos. Garganta anunciou aos animais que desde o início Bola-de-Neve fora aliado do Sr. Jones. Mesmo Sanção custava a acreditar, até Garganta afirmar que a declaração partira de Napoleão. O cavalo resignou-se: “Se o Camarada Napoleão diz, deve ter razão”. Bolsonaro vale-se da mesma estratégia: introduzir um medo generalizado, cujas origens se encontram num inimigo invisível, como o fantasma do comunismo, que a qualquer momento pode atacar e “transformar o Brasil numa Venezuela”. Assim como Napoleão, Bolsonaro precisa incutir o medo no imaginário de seus seguidores, deixando-os passivos em relação a medidas antidemocráticas, adotadas para garantir “o bem maior”, mesmo que a gestão governamental seja péssima.

Contrariando os princípios da revolução, Napoleão tratou de comercializar madeiras com o Sr. Frederick, um fazendeiro da região. Antes do negócio, porém, Napoleão atribuíra a Frederick um plano de atacar a Granja dos Bichos, em conluio com Bola-de-Neve, afirmando que jamais venderia as pilhas de madeira para esse fazendeiro. A justificativa para a venda a Frederick, posteriormente, foi a de um acordo secreto. Entretanto, depois de firmada a transação, Napoleão espalhou que as notas recebidas pelo pagamento da madeira eram falsas e que Frederick poderia desencadear o ataque a qualquer instante. Houve uma nova batalha na granja, durante a qual o moinho de vento foi destruído; após muita resistência, os animais venceram e celebraram a vitória. No entanto, em meio ao regozijo geral, o assunto das notas de dinheiro foi esquecido. Algo muito semelhante com a estratégia de Bolsonaro: criar uma “cortina de fumaça”, uma distração para que os escândalos dele e da família, a exemplo do envolvimento com as milícias e dos esquemas de “rachadinha”, passem despercebidos ou até mesmo sejam esquecidos.

Para conseguir disfarçar os problemas da granja, Napoleão tratou de criar a “Manifestação Espontânea”, que uma vez por semana reuniria os bichos para comemorar as lutas e vitórias. À hora marcada, os animais deviam abandonar o trabalho e desfilar pelo terreno, conduzindo bandeiras de modo a tornar visível o dístico “Viva o camarada Napoleão!”. No geral, os bichos gostavam das celebrações: só assim, eles poderiam esquecer que estavam de barriga vazia, pelo menos a maior parte do tempo. As “motociatas” organizadas por Bolsonaro assumem a mesma feição dos desfiles da granja. Os defensores do governo tremulam a bandeira nacional, que, infelizmente, foi apropriada como um símbolo do bolsonarismo. Mais uma forma de distração para dissimular a realidade brasileira.

Outro acontecimento marcante da fábula ocorre com Sansão. Em certo dia de trabalho, o velho cavalo, já sem as condições físicas de outrora, desaba devido a problemas nos pulmões. Os porcos tratam de acalmar os bichos, informando-os que Sansão seria levado ao veterinário para ser curado. No dia em que a charrete veio buscá-lo, Benjamin, o burro, notou que se tratava do veículo do abatedouro de animais. Os bichos se alvoroçaram, mas nada puderam fazer. Para acabar com os burburinhos, Garganta explicou que a carroça pertencera ao carniceiro antes de ser comprada pelo veterinário, que ainda não apagara o letreiro. Os animais ficaram imensamente aliviados com o engano. O valente Sansão bem representa o trabalhador que vende a sua força de trabalho por toda a vida e, ao chegar o momento de se aposentar e viver os anos que lhe restam, morre. A distinção entre seres úteis e inúteis, servíveis e inservíveis ainda permanece entre nós. Trata-se de uma maneira de exercício da necropolítica, para mencionar Mbembe; ou seja, do poder soberano de decidir entre quem pode viver e quem dever morrer. Não importa se pessoas morrem devido à fome, às doenças tratáveis e curáveis. É preciso manter a roda da economia girando, mesmo que à custa da vida da população – e sem dar-lhe condições dignas de renda e emprego.

Ao fim da história, Napoleão já caminhava sobre as duas patas traseiras, assim como os humanos, violando um dos mais básicos fundamentos fixados após a revolução. Desfilava para todos os animais da granja, cujas tentativas de protesto foram silenciadas pelas ovelhas, que berravam “Quatro pernas bom, duas pernas melhor!”. Quando as ovelhas se calaram, Napoleão e os demais porcos já haviam adentrado a casa-grande. As ovelhas podem ser comparadas aos seguidores de Bolsonaro que diariamente o bajulam no puxadinho da Presidência da República, berrando impropérios aos jornalistas nos momentos em que eles tentam questionar o presidente.

Chegou o momento em que os mandamentos da granja foram apagados, e, em seu lugar, insculpido um único: “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”. Não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos andassem com chicotes nas patas e Napoleão se vestisse como um humano. Aliás, até convidou os fazendeiros vizinhos para cearem com ele e os demais porcos na casa-grande da Granja dos Bichos. O Sr. Pilkington, da Granja Foxwood, ficou impressionado em como o sistema implantado por Napoleão gerava uma ordem e uma disciplina exemplar, além de os animais trabalharem mais e comerem menos. E Pilkington concluiu com uma frase pitoresca: “Se Vossas Senhorias têm problemas com vossos animais inferiores, nós os temos lá com nossas classes inferiores”. Orwell encerra a fábula com uma passagem genial: “Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

A parte final da obra vai ao encontro daquilo que afirmou Bertand de Jouvenel: “As pessoas apegam-se ao grito de ‘liberdade!’ que repercute nos começos de toda revolução, não percebendo que não há nenhuma que não resulte no agravamento do Poder”. O final de Napoleão coincide com o caminho de Bolsonaro: antes de assumir o poder, criticava tudo o que havia de pernicioso, como os conluios políticos, a corrupção, a “mamata”; depois de gozar dos privilégios do poder, passa a agir exatamente como agiam as pessoas que ele criticava, associando-se a políticos corruptos, comprando parlamentares em troca de apoio político, interferindo nos ministérios por discordâncias técnicas e nos órgãos policiais para proteger os filhos investigados criminalmente etc. Enquanto isso, as “classes inferiores” são mantidas em total dominação, sujeitando-as ao trabalho incansável em troca de uma miséria; afinal, onde já se viu o(a) filho(a) do(a) gari ingressar na universidade pública e a empregada doméstica viajar de avião? “Empregada doméstica indo para a Disney, uma festa danada”, disse o Ministro da Economia, criticando a baixa do dólar à época, enquanto, agora, pode lucrar milhões com a alta do dólar, a inflação e os seus investimentos em paraísos fiscais no exterior.

Para concluir com uma frase do posfácio escrito por Christopher Hitchens à fábula, “aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”. E o que é mais irônico: Orwell escreveu A revolução dos bichos em crítica a Stallin e ao regime implantado na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. É engraçado perceber como Bolsonaro é tão parecido com aqueles espectros com os quais se afirma tão combativo.

MARCOS AFONSO JOHNER é mestre em ciências criminais (PUCRS)

REFERÊNCIAS

JOUVENEL, Bertrand de. O poder: história natural de seu crescimento. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Peixoto Neto, [n.i.].

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.

ORWELL, George. 1984. Tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

ORWELL, George. A revolução dos bichos. Tradução de Heitor Aquino Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras: 2007.

RIBEIRO, Darcy. Teoria do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1972.

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