ARTIGOS

Por que há tantos jovens conservadores?

por Marcus Vinicius de Souza Nunes

Há muito tempo venho me incomodando com a expressão “jovem conservador”. Como é possível que alguém assuma como marcador de sua identidade ser, ao mesmo tempo, jovem e conservador? Parece-me um claríssimo caso de contradição. Tenho em mente a ideia de natalidade de Hanna Arendt em Entre o passado e o futuro. Uma vida que nasce é sempre o novo que irrompe, é sempre uma pergunta, uma provocação posta ao atual estado de coisas.

Se esse é o caminho ordinário, como explicar as multidões de jovens que se deixam arrastar por um discurso conservador fácil, que veem comunismo em toda parte, que temem pela família, pelas tradições, pelo fim da religião e da civilização ocidental? O que acontece com esse novo que não deseja o novo?

Em minhas pesquisas tenho me debatido – essa é a melhor expressão! – entre dois temas, que no fim conformam um só. De um lado, pergunto-me como se articulam as narrativas religiosas tradicionais, em especial o cristianismo hegemônico, com a genealogia de práticas de gênero e sexualidade. Como o cristianismo ainda configura sexualidades, como detém, ainda, esse poder? De outro, desde os estudos de cibercultura, me pergunto como novas performances de gênero se vão construindo nas mídias sociais.

Foi justamente essa articulação que me permitiu ver nas mídias sociais, como um discurso conservador se vai construindo em torno de um verdadeiro idílio, de uma imagem paradisíaca de um outro mundo confiável. Uso esta última expressão, porque me interessa aqui fazer um contraponto com aquele outro mundo possível que foi durante anos o slogan do Fórum Social Mundial.

Falar de um pensamento progressista, como um bloco maciço e coeso, é um equívoco. Mas, a uma certa distância, é possível buscar um elemento comum de uma identidade provisória: pensar progressistamente é pensar para frente (pro-gressus), em direção a um algo que ainda não está presente. O slogan do Fórum se explica aqui. Quem pretende mudanças radicais na sociedade, sejam econômicas, políticas, culturais ou de gênero, é porque pensa que é possível, sim, a partir de alianças, de lutas e do compartilhamento de ideias, construir um outro mundo diferente deste em que estamos. É a boa e velha utopia, como um ponto distante no horizonte em que nunca chegamos, mas que nos mantém caminhando.

O pensamento conservador vê nessa mudança um perigo. Os conservadores se aferram às suas tradições, ao seu lugar, à sua terra, aos seus valores. Tenho em mente, por exemplo, Roger Scruton, um dos maiores ideólogos do conservadorismo. Por que mudar, se o que temos é mais sólido, mais firme, mais confiável? O que acontece é que as pessoas que compartilham essa forma de ver o mundo não veem, e não podem ver, que o que consideram firme e sólido é um idílio, uma utopia reversa.

Se o pensamento progressista mira um objeto ainda não presente, mas coletivamente buscado; se o pensamento reacionário é um delírio de retorno a algo que não existe e nunca existiu na forma imaginada; o pensamento conservador é um bucólico poema, de escrita questionável, sobre uma fantasia do presente. “As coisas até poderiam funcionar de outro jeito, mas é o melhor que temos”, “talvez possamos fazer melhor, mas já fazemos bem”, “há que preservar aquilo que sempre funcionou”.

Esse idílio é tão utópico quanto a utopia progressista. Contudo, se esta impele, aquele estaciona, pois seu objeto aparentemente não está distante, não precisa ser alcançado, está aí, disponível à mão. Ao conservador basta estender seu braço e ele toca as realidades que diz querer preservar. Mas o que toca é um objeto fantasmático. Já foi perdido, ou melhor, nunca esteve aí. Sempre foi uma imagem, uma idealização.

Não quero aqui cair na facilidade das oposições irreconciliáveis: uns querem vida, outros querem morte, uns querem liberdade, outros opressão. Não se trata disso. O conservador é aquele que não reconheceu que o grande Outro que busca – seja Deus, a Pátria, a Família, a Propriedade, ou tudo isso junto – não morreu, porque simplesmente não está aí. O conservador não reconhece aquilo que Slavoj Zizek costuma repetir tenazmente: não há grande Outro ao qual recorrer.

Quando penso assim, entendo porque há jovens conservadores. Se eles existem é porque existem pessoas que não conseguem conviver com a angústia de saber que não há um Outro a recorrer. É curioso perceber como, mesmo nas tradições religiosas hegemônicas, aqueles que enfrentam essa angústia face a face não caminham para a não religião, mas para a mística. Assumem a ausência do Outro no seu silêncio, e silenciam junto.

Mas os jovens conservadores não silenciam. Entram em denominações religiosas tradicionais (em especial o catolicismo e algumas expressões do protestantismo) e assumem os aspectos mais exteriores dessas tradições. Roupas, cânticos, certa moral sexual. Tudo isso é visível, palpável. Tudo isso grita lá onde só há o silêncio da ausência desse Outro. Por isso, esses jovens conservadores não hesitam em usar as mídias sociais como uma estratégia de ataque permanente a alguns membros de suas próprias tradições religiosas, por não representarem a pureza delas. Pior, veem membros infiltrados por todos os lados em suas próprias denominações, clubes, partidos, grupos e coalizões. Veem por todos os cantos os destruidores das tradições que querem preservar. Fazem isso porque sabem que esses seus preciosos objetos são muito delicados, facilmente destrutíveis, porque feitos de palavra e fantasia.

Esses jovens conservadores não são autônomos, é importante salientar. A volta reacionária que vivemos alimenta esse conservadorismo e se alimenta dele. O jeito deles conservarem o que “têm” é caminhar ainda mais para trás, como se buscassem ganhar algum tempo de reserva, já que o presente se esvai.

O fenômeno é político? Com certeza. Mas o fenômeno tem algo de existencial, algo que esses jovens não conseguem elaborar, algo que não conseguimos ajudá-los a elaborar. O tempo é de crise para todos nós.

MARCUS VINICIUS DE SOUZA NUNES é doutorando em Educação, Comunicação e Tecnologia pela UDESC

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1 resposta »

  1. E que difícil ficar a espera de uma epifania ou mesmo de uma frustração que desloque esses jovens a um lugar que os obrigue a reelaborar seus ideais. Que crise.

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