ARTIGOS

Sejamos um país de maricas

por Paulo Ferrareze Filho

Arte de Nicole Andersson (@nicolefreitas.a)

Freud descobriu outro corpo além do organismo. Se é em um desses dois campos/corpos – o orgânico e o psíquico – que se origina o complexo fenômeno das ideologias, este campo/corpo há de ser, certamente, o psíquico.

Então partamos dessa hipótese: de que o psiquismo é a fonte maquínica de nossas ideologias. Campo em que nossas ideologias se constituem e criam raízes.

Como a biologia é incompetente para fazer o organismo humano sobreviver, talvez este outro corpo (o psíquico), seja o meio mais próprio para eternizar, através dos retalhos da história, o humano: seus dramas, suas fantasias, seus heroísmos, suas transformações, seus conflitos etc.

Com mitos ou memes, a linguagem é sempre o instrumento que nos dá a possibilidade de conhecer nossa própria humanidade. Nossa eternidade está muito mais assegurada nas bibliotecas do que nos cemitérios. São os livros e não as ossadas que contam sobre nós.

Se tomamos, com Bobbio, a ideologia como um conjunto de ideias e valores que orientam e estruturam a ordem pública[1], podemos elaborá-la e cruzá-la com características importantes do psiquismo, a saber:

1º) O psiquismo é um corpo dividido entre um Eu e um Não-Eu.

2º) Essa divisão faz com que este Não-Eu, aquilo a que chamamos de inconsciente, não esteja diretamente à disposição de nossas capacidades cognitivas. Por isso um dos postulados cardinais de Freud é o de que o “Eu não é senhor na sua própria casa”.

3º) Esse inconsciente que nos constitui, só se constitui porque participa de uma relação de sociabilidade com outras pessoas, inicialmente com aqueles quem desempenham as funções materna e paterna. Não é demais lembrar que as relações de sociabilidade são a matéria prima da política, razão que levou Lacan a afirmar que o “inconsciente é a política”.  Assim, as pulsões inconscientes nada mais são do que a ressonância da palavra que o outro inscreveu em nós, processo que é iniciado a partir dos primeiros significantes que as figuras maternas e paternas “tatuam” nos bebês, esses nossos políticos em potencial.

Se ideologia é um conjunto de crenças compartilhadas, necessariamente inscritas psiquicamente, cabe indagar o que há de inconsciente na ideologia que, hoje, politicamente nos domina.  

Trata-se de fazer um exercício como aquele sugerido por Zizek no Guia Perverso da Ideologia, quando tenta mostrar a força da ideologia dominante (no capitalismo) nas entrelinhas da propaganda. É esse o ponto de partida do argumento de Zizek para demonstrar como ditaduras (como o consumismo) sobrevivem dentro de sistemas formalmente democráticos. Para Zizek a ideologia é uma força que opera nas entrelinhas das linguagens óbvias.

No ar de nossos tempos, a ideologia dominante chama-se Bolsonaro. Bolsonaro é a corporificação de um movimento social de negacionismo radical que diz foda-se à lei, à história, à ciência, à OMS, ao racismo etc. Na psicanálise, sustentar esse foda-se é uma postura própria dos perversos, esses a quem chamamos de psicopatas no senso comum. Por isso, não é exagero dizer que essa ideologia é a expressão de uma patologia do social que está corporificada em Bolsonaro.

De inconsciente há o fato de que o personalismo suplanta a socialidade. O bolsonarista fundamental é essencialmente um sujeito que não percebe o quanto despreza o fato de que vive em conjunto, com outros humanos, especialmente com aqueles que julga diferentes dele mesmo.

Por isso pede armas, ainda que inconscientize o fato de que mortes, globalmente consideradas, aumentam com uma população mais armada. Por isso diz que não há racismo nem dívida com os negros, argumentando que nunca chibatou um negro e desprezando nosso histórico de escravidão renitente. Por isso pede liberdade – só econômica, claro –, desprezando dados, gráficos, teorias e teses que sustentam que, enquanto coletividade, nos fodemos até o cu fazer bico na medida em que damos liberdade para os leviatãs do mercado. Por isso pede punição aos maus, desprezando a ciência criminal que já sabe de trás pra frente que o punitivismo é a resposta mais burra que podemos dar ao problema da criminalidade. Por isso ri, mesmo que com o canto da boca, quando Bolsonaro chama prudentes em relação à covid de maricas ou quando sugere que mulheres se separam entre estupráveis ou não estupráveis. Ameniza-se a piada que caçoa o feminino e seus derivados porque se inconscientiza (ou nem tanto…) o machismo estrutural.

Nós, que não tivemos os olhos da sensibilidade arrancados pela ignorância bruta em 2018, devemos rezar para que deuses e demônios façam do nosso país um país de maricas o mais rápido possível. Se aquilo que para Bolsonaro representa uma barbárie pink for capaz de fazer com que as pessoas deixem de matar negros, que mulheres tenham salários equivalentes ao dos homens, que o povo LGBT viva sossegado e que pobres tenham o que comer e onde morar, então que o Capitão Marica venha logo nos salvar. Façamos um acordo – não de cavalheiros – mas de maricas, assinado com batom de gliter e com previsão de extinção da virilidade cega, do destemor suicida e da tosca capacidade cognitiva dos machos heterotop, sempre irretocáveis e inabaláveis diante da morte.

Quando escrevi nas redes “Eu desejo muito que o Brasil seja um país de maricas” e um interlocutor printou o significado de maricas do Google, me interpelando com um agudo “Sério isso?” (vide abaixo), pude ver ali, para além do que há de ingênuo na mensagem desse cara, a triste inconsciência da verdadeira demonização (este tema tão medievalesco…) do feminino na nossa cultura.

Por isso é que esse texto é um atestado de minha incompetência ao diálogo. Eu simplesmente não sei mais por onde começar a argumentar com gente como o Humberto. Então venho me calando. Quando o diálogo hesita há sempre silêncios cheios de sentido.

PAULO FERRAREZE FILHO é psicanalista em formação (CEAII/HSC-Unifebe), professor de psicologia jurídica (UNIAVAN) e faz pesquisa de pós-doutorado em psicologia social (USP)


[1] BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. Editora da UNB. Vol.1. 11ª ed. 1998, p. 585

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