ARTIGOS

Marco Feliciano: escândalos de um playboy pentecostal

por Juan Manuel Domínguez

Para toda história de destaque você precisa de um bom personagem, e, dentro das berrantes histórias que envolvem pastores milionários da teologia da prosperidade, a de Marco Feliciano é, talvez, a mais caricata. Mesmo quando o deputado federal diz não gostar dessa teologia, ele reproduz todos os estereótipos dos pregadores mais renomados dela.

A Teologia da Prosperidade tem origem em solo norte-americano no século XIX, sendo expandida para o Brasil a partir da década de 1970, tendo como expoente dessa disseminação os bispos Edir Macedo e Silas Malafaia, entre outros. O ponto central dessa doutrina é a comercialização da fé cristã, deturpando os ensinamentos presentes na Bíblia Sagrada. Trata-se de uma roupagem que introduziu a pobreza e a doença no rol de maldições que poderiam acometer a vida daqueles que não se preocupam em acumular riqueza na terra. Feliciano declarou não ser favorável ao ensino dessa doutrina, porém, sempre teve atitudes análogas às que têm os que a pregam: ostentar riqueza e condenar a pobreza como uma maldição divina, um castigo de Deus perante a falta de mérito do sujeito.

Feliciano foi expulso do seu próprio partido (Podemos), por gastar a escandalosa cifra de R$157.000 em implantes dentários, utilizando dinheiro da Câmara dos Deputados, e também por ser um bolsonarista fanático. Na oportunidade o deputado declarou “em relação a minha expulsão do Podemos, assim me manifesto:  “Ser expulso de um partido por apoiar o presidente Bolsonaro é para mim motivo de orgulho”. O nome de Feliciano passou a ser citado como possível vice de Bolsonaro na disputa para presidente em 2022, o que daria uma participação mais destacada aos evangélicos na política nacional.

Em 2016, Patrícia Lelis, jornalista e integrante da juventude do PSC, partido em que atuava Feliciano, relatou que foi chamada por ele para ir a seu apartamento funcional, em Brasília, no dia 15 de junho, para participar de uma reunião sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigaria a União Nacional dos Estudantes (UNE).

Quando chegou, descobriu que ele estava sozinho e que não havia reunião, então segundo seus relatos, Feliciano começou a agredi-la e tentou estuprá-la. Patrícia relata que gritou e que uma vizinha do deputado bateu à porta para saber o que estava acontecendo, o que colaborou para que o fato não se concretizasse. O caso foi arquivado em 2018 pelo juiz encarregado “por não vislumbrar elementos mínimos para a propositura de ação penal”.

Já em 2019, após a expulsão de Marco Feliciano do partido, Patricia Lelis escreveu nas suas redes sociais: “Marco Feliciano foi expulso do partido Podemos após uma série de acusações envolvendo inclusive assédio sexual no gabinete. Volto a dizer: Não fui a primeira vítima do Feliciano e muito menos a única, apenas a primeira a denunciá-lo”.

Em 2014 tomou notoriedade nacional quando o pastor fez um custoso tratamento de peeling em um centro de estética de Balneário Camboriú (Santa Catarina). Feliciano estava na cidade para participar do Congresso de Gideões, um dos eventos religiosos mais importantes de América Latina e onde ele faria uma pregação. A diretora da clínica disse na oportunidade que Feliciano era um cliente assíduo e que encontrava-se ali para fazer um tratamento para reduzir as manchas e rejuvenescer a pele com um gel à base de ouro.

Em 2018 a revista Veja publicou uma matéria na qual ficava demonstrado que Marco Feliciano tinha quadruplicado seu patrimônio desde 2010, ano em que entrou na política. No primeiro ano como deputado, o pastor tinha declarado um patrimônio de R$ 638.000. Já em 2018, momento da publicação da matéria, Feliciano declarava um patrimônio de R$ 2.760.000, ou seja, tinha mais que quadruplicado sua fortuna e já entrava na lista dos pastores milionários do país.

Em 2019 o pastor realizou um tratamento dentário que causou assombro pelo custo. O gasto foi de R$157 mil, valor que saiu dos cofres públicos. A quantia foi reembolsada ao parlamentar pela Câmara dos Deputados. O pastor confirmou o valor do tratamento dentário e disse que sofria de dores crônicas relacionadas ao bruxismo. “Sou político e pregador. Minha boca é minha ferramenta.” Por causa disto, o Podemos decidiu expulsar Feliciano. Na nota oficial divulgada em dezembro de 2019, o partido manifestava o desacordo geral com as atitudes do parlamentar a respeito dos fundos públicos:

“Parece-nos, outrossim, importante destacar que entendemos por desproporcional e pouco recomendado que em pleno ano de 2019 um parlamentar ainda se utilize de recursos públicos para fins particulares, vide o caríssimo tratamento (dentário) feito pelo representado e pago com dinheiro do povo”, afirma o parecer do Conselho de Ética do partido, assinado pelo presidente do Podemos em São Paulo, Mario Covas Neto.

Feliciano é um dos maiores apoiadores de Bolsonaro dentro da bancada evangélica. Com sua imagem prolixa, poderíamos dizer até glamurosa, própria dos magnatas que frequentam os mais caros cassinos de Miami, aparece junto do presidente em quase todos os atos oficiais do governo.

O último que Feliciano parece ser é um pregador da palavra cristã, mas esse é outro assunto. Hoje, junto ao resto dos políticos evangélicos que ainda não foram presos, Feliciano utiliza sua influência para disseminar o ódio e o preconceito para com os defensores dos direitos humanos, os movimentos sociais e as minorias identitárias. A defesa de um político que defende a tortura e a violência sistêmica parece ter se tornado sua atividade mais destacada.

O vergonhoso vínculo com corrupção, assédio sexual, moral e tudo o pior que a política tem, parece não incomodar sua beata investidura.

JUAN MANUEL DOMÍNGUEZ é militante, professor, escritor, jornalista, roteirista, produtor e diretor de cinema. É colunista da Mídia Ninja e do Brasil 247, além de fotógrafo de documentários que fazem a defesa dos direitos humanos

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