ARTIGOS

O dilema das redes sociais: entre ludismo e algoritmos

por Roberta Oliveira Lima

Começo esse texto falando que fui algoritmizada. Não sei ao certo se essa expressão existe em nosso vernáculo, mas foi a forma que encontrei para explicar o que me ocorreu. 

Percorrendo as redes sociais nas últimas semanas, os algoritmos que constroem a minha bolha repetiam, constantemente, e muitas vezes em tom de alerta, a necessidade urgente de assistir ao documentário da Netflix:  o dilema das redes sociais. 

Assim, algoritmos me levaram à produção que trata, ironicamente, da manipulação dos algoritmos das mídias digitais e seus reflexos em nossos comportamentos e sentimentos como autoimagem, consumo e mil outras possibilidades. Trata, também, de forma acertada e necessária, do poder de alteração de panoramas políticos e do quanto isso pode ser perigoso às democracias ao redor do globo. Explica, ainda, sobre o aspecto viciante e desenhado sob medida dos layouts das plataformas, que servem para o consumo insaciável dos seus usuários, com cores e formatos específicos, além de demonstrar como sites como o google são capazes de alterar informações sobre uma mesma pergunta como o aquecimento global em conformidade com o local ou preferência pessoal de seus usuários.

Posto tal panorama, começo a falar de algumas reflexões que me surgiram, tanto em relação ao documentário em si, quanto aos comentários que li nas redes sociais de forma geral. Uma das propostas defendidas por Jaron Lanier, um dos entrevistados e autor do livro “Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais” lembra a retórica ludista[1] , pois incapaz de conseguir lidar com a irrefreável onda tecnológica, aposta na sua destruição ou extinção. Vamos combinar: isso é impossível ou, no mínimo, bem improvável.

Recentemente assisti à live de Alexandre Morais da Rosa e Luiz Eduardo Cani cujo tema era: “ensinando um robô a julgar”[2], também acompanhei algumas discussões em sites jurídicos sobre o tema e me filio à compreensão trazida na live de que não há como virarmos as costas para essa realidade. É o que está posto: queiramos ou não; desejemos ou não. A pergunta é: o que é possível compreender? Como iremos nos adequar? A cosmovisão atenta às  transformações sociais e seus desdobramentos é, nessa hora, fundamental para qualquer pessoa que se pretenda, minimamente, relevante, seja na área do Direito ou fora dela.

E por qual razão trago o tema da live em questão? Porque, talvez, se não a tivesse assistido, teria facilmente sucumbido a alguns espantos que acometeram setores progressistas, estudiosos, mas talvez um tanto quanto ingênuos, ou algoritmizados, que pareceram comprar muito fácil um certo tom tecnofóbico e melodramático do documentário.

Acredito que, mais do que pensarmos em nos retirar das redes, por estarmos sendo manipulados e trabalhando gratuitamente para as plataformas de mídia social, conforme alerta o documentário em alto e bom som, precisamos ter em mente que a internet é campo de disputas (Bourdieu) e é nessa perspectiva de disputas e diante de elementos como capital, campo, agentes do campo e habitus é que precisamos notar que, talvez, o dilema proposto na produção da Netflix não seja um dilema das redes em si, mas um dilema do modo de produção capitalista, hoje organizado em redes.

Chamo a atenção para o fato de que Bourdieu não escreveu para o campo de algoritmos em que estamos imersos contemporaneamente e trago, agora, de forma singela, alguns de seus conceitos citados no parágrafo acima. Quando ele fala de campo, podemos entender referido conceito como o espaço social em que estamos imersos e que é, ao mesmo tempo, campo de forças e campo de lutas, com processos de representação e nomeação, possuidores de dimensão simbólica própria e que, dependendo da lógica do próprio campo, exaltará um tipo diferente de capital. Capital que, para Bourdieu, não é apenas econômico, mas também social, cultural e simbólico. Há, também, a construção de um habitus, que pode ser compreendido como a disposição para agir de uma forma socialmente construída e que se torna um princípio unificador e gerador de práticas padronizadas, não necessariamente reflexivas ou conscientes, mas que são incorporadas pelos agentes do campo, modelando suas ações e práticas.[3]

Saindo do plano teórico e divagando um pouco sobre nosso comportamento nas redes sociais, o que assistimos, postamos, consumimos e divulgamos, talvez fique fácil perceber os componentes retratados por Bourdieu em sua construção sociológica. Somos agentes do campo nos relacionado com outros agentes do campo, valorizando capitais específicos, desenvolvendo habitus próprios.

Assim, diante de um espaço social (campo) que é um não-lugar territorial como o das redes e ciente de que Bourdieu, ao tratar do campo, informa que as posições sociais não precisam coincidir com as posições geográficas, vide, por exemplo, o porteiro e o CEO da empresa que tomam o mesmo elevador e que encontram-se territorialmente próximos e socialmente longínquos é que precisamos estar atentos ao analisar o potencial dilema das redes proposto pelo documentário da Netflix.

Por outro lado, as redes sociais, por vezes, possibilitam um certo lugar comum, dentro desse não-lugar geográfico,  a agentes socialmente distintos e distantes, além de possibilitarem a conquista de um novo capital midiático (composto de seguidores) que pode ser transformada em capital econômico, mudando a própria posição de algum agente do campo em sua “vida real”, que o digam as blogueiras de lifestyle, vloggers e outros personagens variados.

Dessa forma, mais do que meros usuários passivos e operários disciplinados dos “espertos e maléficos donos das plataformas sociais” que o documentário dramatiza, temos uma realidade complexa que se interconecta com múltiplas dinâmicas, permitindo descobertas de novos talentos, criação e venda de produtos, surgimento de nichos onde compartilhamos/consumimos conteúdos e desenvolvemos habitus,   tal qual o faríamos na denominada “vida real”.

Acredito que uma importante perspectiva da história é contada no documentário, todavia, é tão somente um lado, que não parece compreender a complexidade e profundidade em que estamos mergulhados há algum tempo e que foi potencializada pela pandemia, que virtualizou ainda mais atividades que antes eram presenciais.

Precisamos cuidar do tempo de tela de nossas crianças e adolescentes? Certamente. Assim como precisamos cuidar de tudo aquilo que eles podem fazer ou consumir em exagero ou sem possibilidade de contato. Devemos estar atentos ao nosso tempo de conexão? Sem dúvidas! Inclusive, confesso, achei um tanto quanto pueril um dos trechos finais do documentário, quando eles aconselham as pessoas a desativarem as notificações de suas redes. Sério? Alguém que não seja obrigado a ficar conectado gosta de ouvir o celular vibrando ou tocando? Acho que celular e silencioso cada vez mais combinam e são opções para muitos de nós. 

Quanto àqueles que não conseguem manter o modo silencioso das notificações ou a desconexão, vale a análise e o autoconhecimento, pois sempre buscaremos escapes, as redes sociais são apenas mais uma possibilidade. 

Aliás, ironicamente, se seguirmos a lógica de certa forma expressa no documentário, sairíamos das redes sociais como facebook, twitter, instagram e ficaríamos à mercê da rede social Netflix e seus algoritmos, não é mesmo?

Quanto ao aspecto da manipulação de nossos dados, fomento às fake news e contribuição cada vez maior ao esgarçamento do tecido social, acredito que esses são, realmente, os fatores mais graves, e que, por serem graves,  merecem ser tratados não com a desconexão ou o medo de estar sendo “usado” pelas redes, mas com pressão social para o aperfeiçoamento de sistemas de comando e controle, aperfeiçoamento dos algoritmos em suas escolhas e com a disputa de tais lugares por setores progressistas da sociedade, que tem “perdido de goleada” da extrema-direita e sua organização, que é de estética e conteúdo duvidoso, para se dizer o mínimo, mas que funciona para arregimentar setores massivos de nossa população. Quanto à variação de entregas de respostas pelo google, ensinemos nosso povo a fazer pesquisas em fontes confiáveis ou apoiemos e divulguemos mais comunicadores científicos em nosso meio (eu sei que soou utópico, aceito sugestões).[4]

Por fim: Sorria: você está sendo algoritmizado, o dilema é do modo de produção capitalista e a tecnofobia não irá nos ajudar.

 Agora, vou ali, postar esse texto nas redes e ver a quantos algoritmizados ele alcançará…rs.

ROBERTA OLIVEIRA LIMA é professora da UNESA/RJ e doutora em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ)


[1] Ludismo ou Movimento Ludista é o nome dado a um movimento ocorrido na Inglaterra entre os anos de 1811 e 1812, que reuniu alguns trabalhadores das indústrias contrários aos avanços tecnológicos em curso, proporcionadas pelo advento da primeira revolução industrial. Os ludistas protestavam contra a substituição da mão-de-obra humana por máquinas. O ludismo pode ser considerado o primeiro movimento operário de reivindicação de melhorias nas relações e condições de trabalho.

[2] Recomendo a live completa. Assista em: https://www.youtube.com/watch?v=Z6iaqSPcOnE Acesso em: 21 Set. 2020

[3] SILVA, Felipe Gonçalves; RODRIGUEZ, José Rodrigo (orgs.). Manual de sociologia jurídica. São Paulo: Saraiva, 2013. Capítulo 05. Considerações sobre o Direito na Sociologia de Pierre Bourdieu.

[4] Citemos como exemplo, comunicadores da área biológica como Átila Iamarino ou da área sociológica como Sabrina Fernandes, etc…

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