ARTIGOS

Invisibilidade feminina e aquilo que não cessa entre irmãs

por Mariana Anconi

As mulheres (irmãs, mães, tias, sobrinhas, netas, etc.) no decorrer da história receberam atribuições rígidas e fixas sobre o que deveriam fazer de suas vidas; isso inclui como se vestir, como se comportar no casamento, cuidar do filhos, da casa e, ao final, serem gratas a tudo. É certo que algumas mulheres que não se encaixavam em tais atribuições foram vistas como rebeldes, loucas e até doentes. Se algumas tinham suas vidas inviabilizadas ao olhos do machismo, outras incomodavam por aparecerem demais.

Em que nível a vida se constituiu como invisível? O que aparece nas mulheres que causa incomodo? Estas são algumas perguntas que pude decantar do filme de Karim Ainouz “A vida invisível” baseado no romance homônimo de 2016 da autora recifense Martha Batalha.

O filme conta a história das duas irmãs separadas pelo pai que representa o discurso nos homens com efeito devastador nestas mulheres. O diretor Karim coloca em cena o Rio de Janeiro com uma lente melodramática que explora o verde tropical, a sonoridade da cidade, o silenciamento das verdades dos laços e as rupturas com o que é familiar.

Separação

O que separa o Brasil atual de um Brasil dos anos 50? Estamos muitos distantes? As configurações familiares ganharam novas nuances, muitas lutas e conquistas fazem parte da história até os dias de hoje. A luta insiste como causa para legitimar o espaço para as diferenças, sejam elas de ordem sexual, política e estética. Enquanto não houver espaço para as diferenças haverá a tentativa de apagamento no outro daquilo que vira ameaça.

Tentar apagar ou fazer desaparecer o que ameaçava foi o caminho escolhido pelo pai de Guida e Eurídice para lidar com as escolhas das filhas. Únicas em suas diferenças e vontades, porém igualmente marcadas pelo desejo. Eurídice sonhava em estudar música em Viena e Guida sonhava a liberdade de poder ser o que quiser em uma época de muito silenciamento das mulheres e poucas políticas públicas.

Eurídice e Guida são atravessadas pelos discursos dos anos 40 e 50 no Brasil. Inseridas em um modelo de família em que a submissão das mulheres frente ao pai tem conotações de respeito e reforça o lugar de inferioridade da mulher na família e extendendo-se ao campo social. Guida, em sua posição inquietante de si e para com os outros, aparecia “demais” em seu desejo. “Causava” na família. Justamente por ser motivo de causa, partiu.

Fugiu da família que lhe era infamiliar para viver um amor solido como a fumaça de seu cigarro dissipando no ar. Ao voltar para casa, depois do fracasso amoroso, o lar lhe fora negado e a mentira de que a irmã Eurídice estava em Viena fez com que as duas fossem separadas pela segunda vez. A primeira foi quando diferenças enquanto mulheres, irmãs, sujeitos.

A relação entre irmãs é marcada por ambivalências. É a chance que se tem de dialetizar com alguém desde a mais tenra idade. Mas esse outro não é um qualquer. A proximidade da convivência estabelece a intensidade da relação marcada pela diferença. Perguntas brotam: O que é o eu e o outro; O por quê das diferenças; O por quê das semelhanças; Por que o outro e não eu. Aqueles que tem irmãos podem vasculhar na memória quando se deram conta que esse outro tão próximo lhe é imensamente estranho.

Os laços e rupturas podem ganhar força a partir do discurso parental. A forma como as diferenças atravessam suas narrativas familiares pode contribuir para uma aproximação ou um afastamento desses que são atravessados pelas questão da filiação. Não raro vê-se na infância as teorias criadas sobre ser adotado, ser esse estrangeiro. O lugar do infamiliar na própria família.

Entre o privado e o público

Após a ruptura promovida pelo pai, Guida e Eurídice seguem a vida construindo seus caminhos, sem saberem, habitando a mesma cidade. Eurídice casa-se com Antenor que reproduz o discurso machista de seu pai. Sofre os abusos sob o respaldo do “sagrado matrimônio”. Guida precisa reconstruir os laços e um outro lar, que se torna possível através da solidariedade de outras mulheres (amigas, mães e irmãs) não consanguíneas.

O nó na garganta talvez seja um dos efeitos ao assistir algumas cenas. O diretor transforma aquele que assiste ao filme em testemunha dos crimes e violência em cenas com dose alta de angustia. É como a sensação de ter coisas por dizer e não sentir que é possível fazê-lo. Duas cenas doem no corpo daquela que assiste: a noite de núpcias de Eurídice e Antenor em que presenciamos o fato de que seu próprio corpo não lhe pertence. E a cena do pós-parto de Guida que, mergulhada em desamparo e sem nenhum tipo de assistência, desautoriza-se a cuidar do filho.

Aponto para o equivoco de uma leitura muito comum que se faz do filme: a ideia de que se trata de uma historia sobre a vida intima dessas mulheres em uma família conservadora. O equívoco está em achar que o os conflitos no âmbito familiar pertecem apenas a esfera da vida privada. Como se os lares fossem ambientes blindados a ponto de não precisarem do campo social e das leis. Muitas vezes o inferno está dentro dos lares e não fora dele.

O filme brilha ao justamente ao lembrar-nos que os dilemas familiares operam entre publico e o privado, ora dentro das casas, na sala de estar, na cozinha, ora nas políticas públicas como na saúde e nas lacunas das leis que rechaçam os direitos das mulheres.

Retorno do invisível

Os psicanalistas falam do retorno de um conteúdo que por vezes pode ser devastador. Criamos jeitos e laços para nos afastar disso. Lacan nos anos 70 desenvolve os quatro discursos como laços que pretendem rechaçar esse real, mesmo que estes estejam em torno de um impossível ou de impossibilidades fundamentais. Vamos tendo notícias do real em sua ex-sistencia. Tentamos criar realidades em que há subtração desse real. Não vê-lo ou querer torna-lo invisível não significa que não exista.

No filme há várias cenas que poderíamos pensar como retornos do que se tenta deixar invisível. As cartas de Guida a Eurídice são como esse retorno que insiste. O desejo pelo reencontro não cessa. As cartas têm seu caminho desviado. O pai impossibilita que elas cheguem ao destino (Eurídice) fazendo com que as irmãs fiquem sem contato. Ao perderem o contato localizam-se entre as exigências de uma sociedade patriarcal e o não-lugar para o desejo.

Guida continua retornando através das cartas por muito tempo. Nelas escreve sobre o impossível de estar separada da irmã. Aos seus olhos, Eurídice existe e lhe é visível mesmo sem vê-la ou encontrá-la. Escrever cartas é um jeito de sustentar o impossível da separação através da falta — que uma faz a outra.

Muitos dos que pensam e escreveram sobre o filme apontam o aspecto de que as duas são Uma, que se completam. Vejo nesse equívoco uma consistência quando Eurídice interpretada por Fernanda Montenegro parece condensar as duas em uma. Na verdade, entendo a presença de Fernanda como uma terceira mulher que em vez de reforçar a complementariedade das irmãs, surge como um resto da relação das duas, que insiste e não cessa de aparecer entre as irmãs e que se transmite a outras mulheres.

As irmãs não são Uma, mas duas, três, várias e diferentes representando apenas a si mesmas, em suas particularidades a respeito do feminino e sobre ser mulher.

Falar da relação entre irmãs me remete às ilustrações de Daria Petrilli, artista que transmite algo de feminino. Guida e Eurídice são como a ilustração em que duas mulheres sentadas lado a lado parecem ser iguais, enquanto pássaros passeiam por entre os buracos em seus corpos. E só assim, na falta, sustentam o desejo uma da outra.

MARIANA ANCONI é psicóloga, psicanalista e mestre pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

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