ARTIGOS

Quem matou Sandra Silva?

por Laura Astrolabio

Sandra Silva, conhecida como tia Sandra, filiada ao Partido Socialista Brasileiro – PSB, foi encontrada morta na última terça feira dentro do Rio Roncador no Rio de Janeiro, ponto turístico local, que deságua na Baía de Guanabara. Sandra estava pré-candidata a vereadora no município de Magé, na Baixada Fluminense, no Estado do Rio de Janeiro.

As investigações preliminares apontam para a hipótese de crime político.

Seja como for, investigações precisam de tempo, investimento e interesse político para prosseguirem. E a democracia brasileira exige todo cuidado em casos como esse, pois se trata de um assassinato de uma mulher que estava candidata em região delicada.

Apesar de trágico, é importante provocar: sabem desde quando assassinatos políticos na região acontecem? Desde sempre. Absurdo que o TSE sequer produza estatística com dados de pré-candidatos/as e candidatos/as assassinados/as. Quer dizer, informam os óbitos, sem indicação das causas. Temos algo de extrema relevância sendo negligenciado.

Uma pesquisa apresentada no 42º Encontro Anual ANPOCS, que analisa o período de 1998 a 2016, informa que o Estado do Rio de Janeiro é a unidade da Federação que concentra o maior número de homicídios por violência política eleitoral, com 13 homicídios.

Importante dizer que essa pesquisa parte de uma amostra de 79 casos pelo país. Ou seja, não é sobre a totalidade dos casos e os pesquisadores também não tiveram acesso aos processos judiciais que poderiam ajudar no aprofundamento a respeito de como os casos foram (ou não) solucionados, considerando, ainda, o que já foi dito sobre a dificuldade encontrada devido o fato do TSE apenas informar os óbitos e não as causas.

Na Baixada Fluminense, nascem e crescem pessoas sabendo que a arena política não pode ser acessada por aqueles e aquelas que não sejam herdeiros e herdeiras de capital político de algum familiar poderoso, que não faça parte de esquemas políticos ou que não tenham quem os/as proteja da violência política.


É que enquanto essas milícias “só” estavam violentando em lugares como a Baixada Fluminense, ninguém se importava. E sobre a violência política, as mulheres negras são as mais vulneráveis porque carregam as opressões de gênero, raça e classe.

Daí a importância de escutarmos a base da pirâmide, porque sobre violência de Estado , violência política , milícia , fascismo e outras violências, a base da pirâmide sabe mais do que muitos dos intelectuais desse país, até porque a maioria desses intelectuais, principalmente os intelectuais públicos, fazem as análises de conjuntura política partindo de Brasília , quando para Brasília acontecer, como está acontecendo hoje, primeiro tivemos milicianos aos montes, que hoje estão na Casa do Povo, trilhando caminhos em lugares como a Baixada Fluminense.

Não é para deixar de ser intelectual e nem abandonar os livros. Não é um discurso anti-intelectual. É um discurso sobre práxis. É sobre a necessidade que se impõe de um movimento no sentido de carregar pessoas que fazem parte de grupos oprimidos e coloca-las nos espaços de onde saem as decisões que impactam diretamente suas vidas e as vidas de suas comunidades que são compostas, majoritariamente, por pessoas negras e pobres.

Foi Marx quem disse que “os filósofos apenas interpretam o mundo de diferentes maneiras, o que importa é transformá-lo”, e para transformá-lo, como nos ensinou Lênin, o plano prático é tão importante quanto o plano teórico, porque a luta por emancipação e direitos de um povo deve ser diretamente conduzida pelo proletariado. São os oprimidos em nossa sociedade que devem conduzir a luta. No Brasil, classe tem cor e gênero.

Se fizermos uma pesquisa rápida teremos conhecimento de que o Rio de Janeiro não se resume a capital, tampouco a Capital se resume a Zona Sul, e a violência política não começou ontem.

Podemos trabalhar com a hipótese de que se Marielle tivesse sido morta antes de se tornar vereadora na Capital, por causa do trabalho político que ela já fazia, ninguém ia se importar. Se mulheres negras não tivessem feito (como ainda estão fazendo) o grande barulho, ninguém ia fazer, porque ela era mulher, negra e favelada.

Marielle foi fruto da construção com mulheres negras e foi o levante de mulheres negras que decidiu fazer com que a notícia de seu assassinato tomasse proporções internacionais e que continuam trabalhando para que jamais seja esquecido.

Portanto, vejam, fora da capital e fora da elite econômica e política desse país existem centenas de insurgentes revolucionárias/os, que assim devem ser considerados/das “apenas” pelo fato de carregarem a coragem de participar de uma disputa eleitoral num país onde o jogo político é tão violento e reproduz as opressões sociais, raciais e de gênero. No entanto, essas pessoas cheias de coragem não têm o privilégio de uma blindagem, porque carregam classe, raça e gênero que os/as vulnerabilizam. Suas mortes não escandalizam, por exemplo.

Quantas pessoas da ala do “meu Deus do céu estamos vivendo o neofascismo” ao menos mencionaram que uma mulher negra pré-candidata em Magé foi encontrada morta, num rio, exatamente nessa semana, durante o período da pré-campanha eleitoral?

Qual a mobilização que o PSB tem feito a respeito da morte de Sandra Silva para além de divulgar nota? Qual o apoio que está oferecendo para os familiares de Sandra? Queremos e precisamos saber!

Pesquisando as notícias sobre a morte de Sandra Silva, não conseguimos encontrar narrativas da história dessa mulher.

A linha de investigação é de que o crime seja um crime político, como já dito anteriormente, porque assim dizem as matérias com um ou dois parágrafos escritos sobre ela e a tragédia. Todos “artigos” que informam muito pouco ou quase nada sobre a trajetória dessa que era uma mulher negra. Nenhum destaque em grandes revistas de esquerda.

Foi Fidel Castro quem disse “sem propaganda não há movimento de massas. Sem movimento de massas não há revolução possível”.

Precisamos falar sobre isso. Estamos falando de uma hipótese de violência de gênero, raça e classe na política. Queremos saber quem ela era, o que ela fazia, sua trajetória em sua comunidade. Queremos que contem a história de Sandra Silva.

Quem era essa mulher que apareceu morta num rio depois de decidir enfrentar o campo político mesmo diante dos entraves da divisão sexual e racial do trabalho, num cenário neofascista, numa região em que a violência política impera e num contexto de pandemia em que a violência de gênero se aprofundou?

LAURA ASTROLABIO é advogada, especialista em Direito Público, mestranda em Políticas Públicas em Direitos Humanos na UFRJ e articuladora política no movimento Mulheres Negras Decidem

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