ARTIGOS

O papel da figura paterna

por  Liliane Cristina Fidencio Pimentel

O que desejaria profundamente uma criança, senão o amor de um pai? O amor dedicado, os ouvidos atentos, os olhos que a fitam, a voz que lhe dirije com afeição, à figura paterna? 

Segundo dados do IBGE, cerca de 12 milhões de mães chefiam os lares sozinhas e 57% destas estão abaixo da linha de pobreza; estima-se ainda que mais de 80 mil crianças não tem o nome do pai no registro de nascimento (Metrópoles, 2020). Poderíamos estar discutindo políticas públicas de incentivo a paternidade consciente, a educação sexual para meninos, a conscientização a cerca das responsabilidades de gerar uma criança.

Porém, a questão a ser discutida é a orientação sexual da figura paterna, pois deve ser homem, com genital masculino, que nasceu assim. Entretanto, um pai é feito de algo além de um genital. O reconhecimento de paternidade, é um direito do filho. Se esse lugar de pai não pode ser preenchido pelo genitor, porque não poderia ser por alguém de orientação homoafetiva ou LGBTQI+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, outros)?

Numa sociedade machista e patriarcal, a figura paterna não poderia ser encarnada por um transexual, nem mesmo se ele estiver disposto a arcar com o pacote da paternidade. Lembremos que o pacote não inclui apenas pagar contas, comprar fraldas, custear alimentação ou pagar uma pensão. A paternidade passa pelo colo, o aconchego dos braços daquele que será o pai, o conselho zeloso, o olhar atento, o norteador na nova vida. Além disso, a figura que encarna o lugar de pai tem um papel ativo no suporte e apoio a mulher mãe ou a figura materna não apenas ajudando-a; mas a incentivando, validando sua maternagem. Repito, a função da figura paterna é ativo, não passivo. 

Um filho deveria ser um empreendimento a dois, independentemente se são dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher, um transexual ou LGBTQI+. Importante colocar aqui que papel materno e paterno não são rígidos, fixados na orientação sexual e que o imprescindível para que uma criança se desenvolva e cresça emocionalmente estável diz respeito mais ao ambiente na qual estará inserida do que a orientação sexual das figuras de apego. 

Não nos esqueçamos que no Brasil foram registrados cerca de 233 agressões diárias contra crianças e adolescentes no ano passado (Veja, 2019). São agressões das mais variadas formas que incluem espancamento, tortura, violência sexual, negligencia; na grande maioria dos casos, são excessos cometidos pelas figuras que deveriam ser de cuidado, entre elas, pai e avô (Correio Braziliense, 2019).

O lar, que deveria ser o lugar de segurança e acolhimento para uma criança; a família, a primeira rede de apoio que a criança tem na vida; as pessoas que desempenham funções tão importantes na vida de uma criança e que deveriam ser referência de cuidado e proteção, são, em muitos casos, seus algozes. E a preocupação está na orientação sexual de quem vai desempenhar as funções de cuidado básicos, porém imprescindíveis nos primeiros anos.

Para finalizar, lembremos que um pai é feito de afetos, de interesse genuíno em doar seu tempo ao filho. Se essa figura, independente da orientação sexual, estiver disposta a ser a figura paterna em essência deve ser, não nos interessa como ele se relaciona sexualmente ou amorosamente com seu par. É um direito seu não concordar, mas é seu dever ético e social respeitar.

LILIANE CRISTINA FIDENCIO PIMENTEL é psicóloga clínica, psicanalista em formação e especializanda em psicanálise (UNIFEBE/HSC)

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Cida. Crianças e adolescentes são alvos de vários tipos de violência diariamente. Correio Braziliense, 2019. Disponivel em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/09/09/interna_cidadesdf,781448/criancas-e-adolescentes-sao-alvo-de-varios-tipos-de-violencia.shtml. Acesso em: 10 de agosto de 2020.

AGÊNCIA BRASIL. Brasil registra diariamente 233 agressões a crianças e adolescentes. Veja, 2019. https://veja.abril.com.br/brasil/brasil-registra-diariamente-233-agressoes-a-criancas-e-adolescentes/#:~:text=A%20Sociedade%20Brasileira%20de%20Pediatria%20ressalta%20que%20o%20resultado%20dos,interna%C3%A7%C3%B5es%20hospitalares%20e%20de%20mortes.&text=Al%C3%A9m%20disso%2C%20no%20per%C3%ADodo%20analisado,morreu%20v%C3%ADtima%20de%20maus%2Dtratos.Acesso em: 10 de agosto de 2020.

LÁZARO, Natália. Dia dos pais pra quem? Com 80 mil crianças sem pai, abandono afetivo cresce. Metrópoles, 2020. Disponivel em: https://www.metropoles.com/brasil/dia-dos-pais-pra-quem-com-80-mil-criancas-sem-pai-abandono-afetivo-cresce. Acesso em: 10 de agosto de 2020.

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