ARTIGOS

120 dias distantes

por André Gobbo

120 dias distantes! E quanta coisa mudou? Quanto o meu mundo mudou? Que mundo deixei e que mundo encontrei? Quem eu era e quem sou? Ou então, a partir de agora, quem serei?

Que caos é esse? Filosófico? Acho que não? Embebecido pelo suco gástrico, vejo-me em meio a uma orgia governamental em que, como cidadão desse Brasil varonil, sequer sei o que será do amanhã? Será o país das Emas ou então das Dinoremas? O que esse povo do sul, do sudeste e outros rincões fez com a gente? Em massa entregaram o país ao comando de um alcaide que colocou as barbas de molho para zelar pelas laranjas, sem nenhuma qualidade internacional, que germinaram do seu próprio saco escrotal. E hoje, essa mesma gente que se acha a ‘elite da nata do coco do bandido’ se esquiva de assumir a sua própria culpa. Mantem-se mudos! Mórbidos! Como se seus votos não tivessem nada a ver com o que estamos vivendo.

120 dias distantes! Ao sair da escuridão da caverna e ver os raios do sol daqui fora me pergunto: será que esse tempo me serviu para alguma coisa ou foi tudo em vão? Refleti ou regurgitei? Quero ver os raios do sol ou me contentarei com as sombras das chamas fracas, de uma pequena fogueira, que refletem na parede da minha caverna? Fui capaz de sobreviver no isolamento ou morri no isolamento da vida?

Já se foram 120 dias que estamos distantes! Quantos amores perdi e não pude enterrar? Por quantas vidas velei? Quantas coroas enviei? De quantas almas lembrei? Em meio a quantos pesadelos despertei? Quanto vivos que me restam e que, mesmo estando pertos, sequer lhes abracei?

Aniversários não tive. Meus familiares, colegas, amigos e alunos vejo pelo tela de um computador. Abraços se resumiram ao toque de cotovelo. E lá por Brasília, aquela planejada por um comunista, os vermes capitalistas comem churrasco, cantam o hino nacional, rezam o Pai Nosso, veneram a Cloroquina e tomam cervejas nas embaixadas opressoras. Sem máscaras! Comemoram a independência dos Estados Unidos, enquanto os povos e animais da nossa Amazônia e do nosso Pantanal são dizimados pela avareza do capital.

120 dias distantes! Como um animal de focinheira ninguém mais vê o meu sorriso, nem como colega, nem como amigo, muito menos como um irmão. Enquanto isso a ‘elite’ brasileira, a quem os pobres reverenciam sem temor e vergonha, continua mandando e desmandando no nosso presente e futuro.

Em Balneário Camboriú, a ‘Dubai brasileira’, os donos do dinheiro não renunciaram as suas regalias, festas íntimas, dentre outros tantos absurdos que constantemente viram manchetes. Enquanto isso, nas sinaleiras, os vendedores de pano de prato, jujubas e bergamotas são rechaçados, expulsos e humilhados, para que, dessa forma, as autoridades possam manter o status de tudo isso que só existe naquela ‘maldita’ Venezuela.

Além disso, nesse caos em que me sinto imerso, vejo que as máscaras de pano, algumas costuradas em fundo de quintal, se tornaram adornos obrigatórios inclusive para os mais pobres. Quem tiver condições financeiras que compre aquelas mais sofisticadas: de marcas famosas e que garantem maior proteção. Quem não tem, que faça de conta que está usando e sendo protegido. A morte mesmo assim se avizinha e, se duvidar, baterá na sua porta!

Mas eu, ora uso uma máscara negra, ora uma branca, ora uma colorida, mas todas, para mim, sem nenhuma cor. Com elas confesso que vivo como um eterno querubim mascarado. Um brasileiro idiota que, sufocado por essa elite que quer salvar a economia ao invés das vidas, sequer é capaz de gritar um ‘Fora Bolsonaro’ na cara desse povo moribundo e alienado que sustenta tal governo macabro, que nos envergonha internacionalmente e transforma nossa bandeira verde e amarela em um capacho das grandes potências.

120 dias nos separam, mas jamais nossos ideais se esquivaram. Mesmo perto de alguns me senti mais distante ainda: sem nenhum afago, sem nenhum carinho, sem sequer uma palavra fraternal. Vi o ‘meliante mor’, aquele fruticultor do laranjal, influenciar os nossos ‘meliantinhos’ a agirem e reagirem como ele age e pensa.

Agora o tal do ‘mito’ falou que Covid-19 é igual chuva: ou seja, conforme ele, se ninguém pegar, ela pegará a gente. Lamentavelmente estamos à mercê das forças econômicas e religiosas que vencem as ciências e nós, pobres ‘gripadinhos’, teremos que render cumprimentos e orações a Ministros pastores, militares e privativista. No Brasil do futuro, a terra em breve será plana! Criada por Deus e desgraçada por natureza !

Oh!!! O que essa ‘elite inteligente’ fez com a gente? Tempos difíceis! 120 dias distantes! Ergui bandeiras? Bati panelas? Ou fui aquele tipo de gente submissa às curtidas de amigos fantasiosos das redes sociais que me pareciam sentir vivo? Indignei-me com as indiferenças assistidas ou me preocupei apenas comigo mesmo? Pensei na possível construção de uma nova sociedade, livre, democrática e mais igual? Ou então esse tempo me serviu para apenas colocar a bandeira brasileira nas gruas dos altos prédios que estou construindo para demonstrar que hoje quem manda no Brasil somos nós: os ricos, sonegadores de impostos e donos do poder, a quem essa ‘negrada, pobre e nojenta’ deve servir.

Lá se vão 120 dias! Ouviu o canto dos pássaros? O soar das ondas nos costões? Acordei com o som escandaloso das doces saracuras? Dormi com o clarão da lua? Sensibilizei-me com a voz de um desconhecido que bateu em minha porta pedindo ajuda? Com o choro calado de todos aqueles que sofreram sem pelo menos deixar transparecer? Ouvi o ranger das grades dos presidiários que roubaram um ‘xampu’ e os condenei à morte pelo Covid-19, enquanto, de outro lado, comemorei a soltura dos que fizeram as quebradinhas de milhões de reais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro?

120 dias distantes! Vi enxurrada, ventos e a ameaça dos gafanhotos. Um vírus foi capaz de me distanciar de tudo o que mais amava. Enquanto isso aqueles mosquitos enfadonhos que perturbam o sono disseminavam outras doenças como a zika, a dengue, o chicungunha e tudo mais. Ciclones colocavam cidades por terra. Águas lavavam e levavam todo o pouco que tinham. O céu por instantes virou mar… O meu pequeno Sertão (RS), com medo, perdeu o sossego e a estabilidade do meu Descanso (SC).

Daí penso: 120 dias distantes! Quantas barrigas roncaram de fome sem ninguém dar um resto de feijão? Quantos pais e mães viveram sem dormir sentindo a dor dos seus filhos? Quantas crianças órfãos ficaram? Quantas viúvas e viúvos hoje dormem na cama fria? Quantos covas abertas e fechadas com corpos condenados na promessa de virarem pó e ressuscitarem em uma vida de fartura e paz?

120 dias distantes! Olhei para fora da janela? Vi e compreendi a tristeza dos meus parentes e vizinhos? Compartilhei o pão que fiz? Agi pelos que dormem sobre os papelões encharcados e pelos animais cheios de pulgas? Compadeci-me por aquelas famílias que perderam para o vento o teto das suas casas? Pelos que definhavam nos raros leitos de UTI dos hospitais?

A ansiedade foi capaz de tornar mais claras as sombrias noites. Os medos venceram a coragem. O gráfico da morte se sobrepunha ao da vida e a desigualdade entre uns e outros aflorou muito mais. A elite aplaude! Enfim, agora a empregada virou empregada. Sem direito! Sem piedade e sem dó. Não andará mais de avião. Não mijará mais no meu banheiro. E nem mesmo poderá esquentar a sua marmita ‘fedida’ em meu micro-ondas.

Estamos 120 dias distante! Quantas vozes silenciadas diante dessas barbáries governamentais? Quantas Emas precisaremos para desafiar essas forças que nos governam? A Ema, enfim, virou verbo: Eu ema! Tu emas! Ele jamais!

Quantos corações ainda batem? Frios, indiferentes, sós? Quantos ainda vivem sem renda, sem teto, sem-terra, sem mãe e nem pai, sem nada? Submissos à condição de escravos de uma elite cada vez mais soberba que quer ganhar dinheiro em meio a desgraça? Quantos ainda serão condenados a viverem sem motivos para viver? Pobres, negros, periféricos, favelados, condenados à miséria a quem um dito ‘mito’ sustenta às custas do dinheiro público de uma nação toda por R$ 600.

120 dias distantes! Avistei novas oportunidades e caminhos? Ou voltarei à mesma vida que levava há tempos? Quantos sonhos protelados e quantos enterrados? Quantas utopias de adolescentes que renasceram e me fazem seguir rumo ao horizonte? É para lá que eu vou…

É para lá que eu vou… Tentarei construir um mundo menos desigual, tanto por palavras quanto por ações que não sejam compartilhadas em uma rede social apenas para acumular likes. Um mundo em que a renda seja distribuída. Em que as vidas sejam zeladas sobre todas as coisas, sem hipocrisias. Em que um abraço e um sorriso sem máscaras voltem a ser os maiores patrimônios que poderemos ter. Mas que a insensatez e a corrupção mascarada sejam percebidas aos homens e mulheres de boa vontade.

É para lá que eu vou… Quero construir um mundo onde as pessoas sejam mais importantes que as mercadorias. Que todos possam circular pelo mundo afora, sem barreiras, assim como as mercadorias que geram lucros para uns e que circulam livremente, em detrimento dos imigrantes que sofrem todos os tipos de preconceitos, sinônimos de prejuízos e perturbações.

É para lá que eu vou… Que nesse mundo do consumismo todos pensem: O que produzir? Para que produzir? Para quem produzir? De modo que possamos nos tornar em uma nação verdadeiramente independente, com respeitável capital intelectual, investindo na pesquisa e na educação: laica e gratuita. Que possamos formar brasileiros capazes de ler, interpretar, identificar, formular e resolver os tantos problemas que ainda nos assolam e ameaçam.

Como eterno aprendiz o que me desanima é ver esse povo sendo formado sem ser capaz de identificar os problemas que lhes acometem… Se não sabem identificar, muito menos serão capazes de resolver. Cada vez mais são defensores de uma ‘escola sem partido’, contrários a quem os faz questionar e pensar. Mesmo assim se acham os ‘doutores’… e sequer se acham corresponsáveis por essa situação vexatória a que estamos submersos.

É para lá que eu vou… Anseio por um país de menos aparência e mais eficiência. Menos aula e mais educação. Um país de menos mitos e mais verdades. Mais democrático e filosófico, do que alienado e irracional como o que a gente infelizmente constata nesses sombrios tempos que nos acometem.

Enquanto trabalhador que sou é para lá que eu vou: na cova, em pé e para a cova. Não sei que dia nem que hora. Mas para ela jamais levarei essa culpa que os meus contemporâneos um dia, quiçá no último suspiro, haverão de se resignar com Getúlio Vargas, João Goulart, Leonel Brizola, Pedro Simon, Paulo Paim, além de outros tantos democratas, fazendo votos de que “Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão” (VARGAS, 1954).

Por fim, advirto aos mais indignados: às manifestações de ódio nesses tempos virtuais responderei com o meu perdão! Faço votos para que o meu Brasil acorde desse sono hipnótico profundo e volte às ruas para cantar e vibrar pela sua liberdade!

ANDRÉ GOBBO é professor universitário (Uniavan), doutorando em Educação científica e tecnológica (UFSC) e mestre Educação (UFPB)

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