ARTIGOS

Retratos de nossa melancolia em Lars von Trier

por Paulo Ferrareze Filho

O coronavírus trouxe consigo ares de morte, de vazio, de nada, de fim-de-mundo. O filme Melancolia (2011), de Lars von Trier, prenuncia um cenário similar, tanto pela catástrofe anunciada quanto pela atmosfera pré-apocalíptica.

Trier cria um enredo em que um planeta está prestes a chocar-se com a Terra para pôr termo à raça humana. Trata-se, portanto, de um retrato da melancolia que antecede a extinção da raça humana. Demonstra como nós, humanos, nos relacionamos com a morte a partir da angústia. Como somos frágeis diante de um término que não admite arrependimento posterior. Revela-se, enfim, o estado de tristeza profunda que circunda nossos processos de luto antecipado.

Trier foi, junto com Thomas Vinterberg, um dos precursores do movimento de cineastas que ficou conhecido como Dogma 95. Esse movimento, criado em 1995, pretendia, a partir de dez princípios reitores, recuperar o realismo e o cinema de autor numa época em que a sétima arte atingia as massas – e lucrava muito com isso – valendo-se de efeitos especiais, exatamente como aconteceu em clássicos de bilheteria dos anos 1990 como Jurassic Park e Exterminador do futuro.

Alguns dos princípios do Dogma 95 são notáveis e estão presentes em Melancolia

(a) Uso da câmera na mão para fazer com que o realismo da instabilidade (subjetiva) cause incômodo no espectador. Essa perspectiva é uma das marcas de Trier, que mais de uma vez afirmou que se os filmes não causam incômodo não são realmente bons. 

(b) É vetada a realização de filmes que não retratem a época atual em que são filmados e produzidos. Daí porque, em tese, os filmes do movimento Dogma 95, exatamente como é o caso de Melancolia, são metáforas cruas do mundo contemporâneo. 

Assim é que podemos conjecturar que essa despersonalização pretendida pelo movimento faz dos filmes retratos-diagnósticos não só de dramas pessoais, mas também de dramas coletivos e sociais, ou seja, são filmes-metáforas do ar de nossos tempos. 

Para Lacan, as metáforas são as figuras de linguagem que, na clínica, anunciam sintomas. Com essa premissa, Melancolia funciona como o retrato-subjetivo do mundo contemporâneo: nossas relações, valores, referências, fraturas e prevalências são expostos na tela pelo gênio de Trier. 

Mas Melancolia não trata apenas do social. Trata também do psicossocial. Em super câmera-lenta e com a trilha pontiaguda de Wagner em Tristão e Isolda – estratagema já utilizado por Trier em Anticristo (2009) – o prelúdio do filme anuncia um caminho onírico e inconsciente. A composição das imagens e da música, uma vez embebidas em lentidão, sugerem que o filme fala a língua dos sonhos, a via régia para o inconsciente. A cena em que Justine caminha sofregamento com raízes que a impedem de avançar pode representar a “exclusão de formas optativas” que Freud qualificava como uma das características precípuas dos sonhos. 

Assim, a partir da mirada de Trier, podemos diagnosticar traços sintomáticos da grande melancolia contemporânea a partir de dois vetores. Primeiro, o de que as relações de trabalho estabelecidas a partir do discurso neoliberal são melancolizantes e, segundo, que a melancolia devém da negação de um devir-mulher.

As relações de trabalho estabelecidas a partir do discurso neoliberal

No filme Dançando no Escuro, de 2000, Trier já criticava o modo de constituição das relações de trabalho nos Estados Unidos no início do século XXI. 

Em Melancolia, o tema e a crítica retornam. No casamento de Justine, a cena dos votos aos noivos é representativa não só pela metáfora que faz dos discursos que circulam em nosso espaço público, mas também pelo fato de que é o chefe de Justine o primeiro a proferir o voto. Ele também é quem toma mais tempo na sequência em que ainda falam o pai, o marido e a mãe da noiva. 

Eis o modo sutil de Trier denunciar como as relações de trabalho preponderam sobre as demais dimensões da vida. Como imperativo categórico, as relações de trabalho e o eficientismo que o mercado requer estão incomodamente retratadas quando o chefe, além de enfatizar apenas qualidades profissionais de Justine, lhe oferece, em meio ao voto, uma promoção na empresa. 

O eficientismo sintetizado na máxima “fazer mais com menos” é uma das marcas precípuas do discurso neoliberal. As promoções de emprego, nesse cenário, são basicamente definidas a partir da eficiência. Ainda que aliada a outros predicados menos determinantes, a equação oriunda da relação entre custo e desempenho é o que baliza a distribuição dos cargos preferenciais nas empresas. 

Certo é que a possibilidade de ser promovido faz sempre par antitético com a ameaça de demissão. Ao mesmo tempo em que a eficiência pode conduzir à elevação salarial e hierárquica na empresa, a ineficiência pode significar descartabilidade.

Não sem razão que a crítica de Trier se consuma quando Justine, já tomada pela depressão, pede demissão ao chefe em meio ao casamento de modo áspero dizendo: “– nada é demais para você Jack. Eu odeio tanto você e sua empresa que não poderia encontrar as palavras para descrever isso. Você é apenas um homem desprezível e sedento de poder…”

O quadro agonizante e desruptivo de Justine lembra os sintomas da Síndrome de Burnout, nome dado pela psiquiatria para quadros psíquicos e somáticos de adoecimento causados pelo esgotamento no trabalho. 

Um dos discursos privilegiados para analisar os efeitos do neoliberalismo na saúde física e psíquica dos trabalhadores é o que formata as atuais relações entre bancários e banqueiros no Brasil. De um lado trabalhadores cada vez mais restringidos de seus direitos, de outro um mecanismo mordaz de acumulação de capital e de aumento de desigualdade social. 

O sofrimento dos trabalhadores do setor bancário é o efeito sócio-laboral de um mecanismo que fez da financeirização o ápice cruel do capitalismo neoliberal. Na medida em que permite que se comercialize não mais produtos, serviços ou mesmo o dinheiro com empréstimos, na financeirização é a própria expectativa de recebimento do valor emprestado que gera dividendos. 

Nesse cenário, a massa de trabalhadores bancários brasileiros, agora sem parte de seus direitos em razão da criminosa reforma trabalhista de 2017, serve para sustentar o lado pantagruélico dessa relação laboral tão ferina. O banco Itaú, por exemplo, obteve pornográficos R$ 26 bilhões de lucro líquido em 2019. E não só a cifra inimaginável como o silêncio retumbante das ruas e das redes sociais é que chocam a quem consegue compreender o custo social pago para que uma única empresa faça sobrar, a partir de seus negócios, R$ 26 bilhões em um único ano.

Como modelo econômico, laboral, filosófico e epistemológico, o neoliberalismo converte-se na nova grande narrativa do mundo contemporâneo, o mercado converte-se no grande Sujeito enunciador e o consumismo converte-se em articulador entre o enunciado neoliberal e a enunciação do mercado. O mercado dita, por meio da necessidade de consumo, as ordens imperativas que legitimam a narrativa neoliberal da eficiência e do progresso. É justamente na contramão dessa narrativa que Justine caminha quando pede demissão e manda o chefe às favas. Nesse contexto, a concorrência voraz é anestesiada pelo discurso que nos instiga a ver as dificuldades como obstáculos que podem ser vencidos por alguém obstinado e empreendedor, como se fosse possível existir uma massa de Michael Jordans exitosos nesse cenário de concorrência cruel e desigual. 

Esse efeito ricochete exercido pelo imperativo da concorrência faz com que a liberdade individual acabe consumindo a si-mesma. Eis o paradoxo do neoliberalismo: oferece liberdade, mas entrega sua própria restrição. 

Por isso, como anunciou Foucault no livro Nascimento da biopolítica, se no liberalismo clássico as leis existiam por causa do mercado, no neoliberalismo a lei existe para o mercado, a lei serve ao mercado. O mercado torna-se, pois, o destinatário das ações do Estado. Se no discurso manifesto aposta-se no Estado mínimo, no latente o Estado se torna máximo na medida em que garante a ferro e fogo a livre concorrência apenas entre meia dúzia de grandes tubarões. Não sem razão que no Brasil, até hoje, apenas cinco grandes bancos detém a maior fatia de clientes e concentram mais de 90% de toda a circulação de riquezas e ativos do país. 

Por outro lado, como o neoliberalismo joga com o desejo de pertencimento por meio do consumo, faz do próprio lugar de oprimido um lugar de desejo. O oprimido não quer apenas permanecer nessa condição, na medida em que, por ter assegurado emprego e renda mínimos, consome as migalhas do parque neoliberal, mas também porque ocupa o lugar que o excluído (o desempregado) não tem. Logo, mesmo que o trabalhador oprimido e ingênuo sonhe em se tornar o empregador-opressor, na realidade sabe que, na selva neoliberal, ao manter-se empregado já está literalmente “no lucro” (na realidade com muito pouco dele…). Aqui funciona bem a máxima de La Boétie de que a dominação é mais eficaz quando há voluntariedade por parte do dominado.

Todo esse quadro está presente em Melancolia, seja na relação absurda que Justine tem com o chefe em sua festa de casamento, seja pelo fato de que a melancolia das personagens habita um palacete com um jardim imenso e belo, próprio de reis e de ricos. 

É o tamanho absurdo dessa fenda desmedida entre os extremos gerados pelo neoliberalismo que simbolizam o sintoma hemorrágico que assistimos nesse verdadeiro filme-diagnóstico de Trier que é, sem chance de dúvida, um gênio vivo de nosso tempo.

A melancolia devém da negação de um devir-mulher

Deleuze qualificou os devires como linhas de fuga. O que Trier faz é exatamente uma linha de fuga. Isso porque constata como o modelo contemporâneo de vida e de organização social é potencialmente melancólico na medida em que ainda resiste em calar a voz das mulheres não raro com violência contra os seus corpos e almas. 

Com olhos de homem, Trier quer ver a partir do olhar de uma mulher. Essa é uma recorrência da sua chamada trilogia da depressão, já que em todos os filmes é das mulheres que parte a enunciação.

Por isso que assistimos a mãe da noiva, única mulher a quem é dado o direito de falar nos votos, renunciar a esse direito.

Quando Bolsonaro legitima a violência sexual contra mulheres em pleno Congresso, quando a Folha de S. Paulo noticia apenas a rotina de juristas homens na quarentena, quando constatamos que o parlamento brasileiro é composto por apenas 15% de mulheres ou quando percebemos que são as mulheres as que melhores resultados obtiveram no tratamento do coronavírus, percebemos como este é um tema central não só no filme de Trier quanto do nosso contexto psicossocial. 

Fato é que a melancolia, antigamente associada à bílis negra, hoje mais do que nunca deve assumir-se como uma menstruação espessa, escura e com cheiro forte. Porque os feminismos devem mesmo ser radicais. Devem, como os filmes de Trier, incomodar, mesmo que seja a paz dos narizes acostumados ao machismo de sempre.

Justine é uma Antígona renovada que transgride a lei dos estereótipos masculinos. Por isso rompe com o chefe ao pedir demissão, com o marido ao separar-se antes mesmo de consumar o casamento e com a figura paterna na medida em que assume, com a irmã, o papel não desempenhado pelo pai de seu sobrinho, que se suicida antes do fim do mundo.

Aliás, no último quarto do filme os cavalos (esses animais de reis e de ricos), agitados, só se acalmam depois que o marido de Claire se suicida. É a animalidade humana que adoece na medida das overdoses produzidas pelo machismo patriarcal e cavalar, seja nas relações de trabalho, nas relações afetivas ou nas relações sociais. 

É por isso que Justine, chamada de “tia invencível” pelo sobrinho, é capaz de demonstrar verdade com um choro não permitido ao mundo macho. É também por isso que pode suplantar o medo do pequeno homem que habitava o sobrinho. De modo a mostrar que os projetos em torno da hombridade humana carecem de uma nova edição: agora baseada na sensibilidade, na escuta do outro, na alteridade e nas capacidades mágicas da empatia.

Enquanto o marido de Claire dá ao filho a crua notícia de um fim que era insuperável, a “tia invencível” sugere com firmeza que uma “caverna mágica” poderia proteger-lhes do fim absoluto. É nessa caverna mágica, uterina e sensível que deve morrer o machismo. 

Talvez assim o nosso mundo possa doer menos de tanta desigualdade e machismo. 

PAULO FERRAREZE FILHO é professor de psicologia jurídica (UNIAVAN), pós-doutorando em psicologia social (USP) e psicanalista em formação

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1 resposta »

  1. Simplesmente fabulosa a sua articulação entre o filme, o contexto atual e as relações de gênero. Eu gosto muito desse filme, a agora já quero assistir novamente com essa perspectiva que vc apresentou. Encantada com sua forma de escrever, de simplificar o complexo. Ganhei o dia. Parabéns!

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