ARTIGOS

Sou delegado mas estou sempre parindo criminosos

por David Queiroz

Foi somente mais uma prisão de dois jovens por tráfico de drogas em um plantão policial na cidade de Balneário Camboriú. Nada de novo. Eram só mais dois “Silvas” que ingressariam no sistema carcerário que já os conhece bem, apesar desses dois jovens nunca terem sido presos antes (mais da metade das pessoas presas no Brasil são acusadas de tráfico de drogas, jovens e pobres).

Foram presos com cerca de 30 pequenos (mudas) pés de maconha. Nada que eu não tenha visto nesses quase 20 anos que estou na Polícia Civil. Nada que justificasse uma breve nota em um jornal local. Mesmo assim, por mais comum que posso parecer, não consigo ficar indiferente. Mas a minha inquietação não é em relação a ação desses jovens. Não, eles não são os protagonistas da minha reflexão de hoje.

O que eu não consigo é entender e ficar indiferente com a incoerência do playboy e da patricinha. Não consigo não me indignar com a dissonância cognitiva do playboy mimado que brada e se orgulha do seu suposto comportamento ético, de sua honestidade, mas que, por lazer, fuma maconha e usa ecstasy em uma festa com seus amiguinhos ricos.

Minha indignação não reside no uso da droga em si, pois, por questões de política criminal, sou totalmente favorável à descriminalização da maconha e de algumas drogas sintéticas. O que me desperta cólera, na verdade, é a cegueira e o contrassenso da patricinha que, ao mesmo tempo em que se preocupa com o meio ambiente – ela recicla o lixo, não toma banhos demorados, tem uma horta orgânica no fundo de casa e até já pensou em parar de usar desodorante aerossol – e com a fome e a extinção do rinoceronte branco na África, fuma maconha no final de semana quando vai para praia com suas amigas cool.

Essa dupla de alienados é a mesma que participa ativamente de protesto contra a corrupção, pela paz, contra o crime. Será que eles percebem a contradição de seus comportamentos? Será que se dão conta de que esse suposto lazer (fumar maconha) está longe de ser um ato ingênuo e desprovido de consequências deletérias para a sociedade? Será que eles se dão conta de que sua aventura transgressora de final de semana alimenta a engrenagem do crime, financiando o tráfico e uma cadeia de outros crimes dele decorrentes?

Infelizmente, acho que não. Suas visões egocêntricas e narcistas os blindam de qualquer autocrítica e tampam os seus olhos para qualquer visão que confronte o que chamam de direito de ser feliz (um eufemismo para palavra egoísmo): eu fumei maconha, mas foi só uma vez, para me divertir com meus amigos em uma festa. Não fiz mal a ninguém. Não fiz nada de errado. Esse é sempre o discurso/justificativa.

Talvez haja um muro que os impeça de ver o outro lado da vida. Dessa vida que não é a deles. Um muro que os separa da realidade de quem não teve os mesmo privilégios financeiros que eles tiveram. E são tantos os muros… tem o muro dos presídios, que, de forma maniqueista e ilusória separa os bons dos maus. Tem o muro dos condomínios, o muro do prédio, o muro do preconceito, o muro cultural, o muro das escolas, o muro que separa os valores de quem teve um pai para se orgulhar e de quem muitas vezes sequer teve mãe.A vida é repleta de muros que por vezes nos cegam e nos impedem de ver as consequências nefastas de um ato aparentemente inocente, gerando incoerência entre comportamentos e discursos, pretensões e ações.

Talvez a patricinha e o playboy não queiram ver que esses dois jovem, ao ingressarem no sistema carcerário, por uma questão de sobrevivência, serão obrigados a se filiarem a uma organização criminosa. E que, mesmo quando forem soltos, serão considerados pela sociedade ex-criminosos e, portanto, terão menos chances ainda de conseguirem um emprego e, com isso, cada vez mais estarão inclinados para a vida do crime. O estigma de criminoso é internalizado pelo preso (teoria do etiquetamento) que passa a acreditar que seu único caminho na vida é praticar crimes. A sua “inocente” diversão, patricinha, é a mola propulsora de muitos crimes. Por mais que você não queira admitir, playboy, toda vez que você enrola um baseado, há sangue de muitas vidas e o peso de muitos crimes em suas mãos.Sei que seu mecanismo de defesa cerebral esta te impelindo a afirmar que meu discurso é exagerado e alarmista. A negação é natural. Desprezar a ideia da existência de algo parecido com o imperativo categórico kantiano (ou, para simplificar, se revestem de uma visão de túnel, esquecendo-se que existem pessoas fora da gaiola dourada em que vivem e, em última instância, demonstram um desamor a palavras empatia e alteridade)  é reconfortante para quem se depara com seu lado obscuro  e busca amenizar e justificar suas ações num sem número de privilégios que reputam ter conquistado e na inocência da sua ação pérfida. Não acho meu discurso exagerado… Não.

Ao contrário. Toda vez que prendo um jovem como o de ontem tenho a sensação de que pari um criminoso. Será que esse filho também é seu?

DAVID QUEIROZ é delegado de Polícia no Estado de Santa Catarina e mestre em Ciências Criminais na PUC/RS. 

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