ARTIGOS

Até quando as mulheres vão tomar tapas na cara?

por Marly Terezinha Perrelli, Larissa Zucco e Mariana Tosin

Quem já tomou tapa na cara? Quem já experimentou situações de violência e nem as percebeu? Nesse caso, a própria vítima busca por justificativas. Os atos violentos e o “tapa na cara” podem vir a ser considerados um descontrole, mascarando ainda mais as atitudes agressivas.

No mapa da violência há números concretos, relatos, memórias, casos e inclusive mortes por conta da agressividade e violência humana. Não há pessoa ou classe social que esteja isenta de sentir raiva ou ódio, assim como não há quem não sinta um mísero momento de felicidade, harmonia ou paz interior durante sua vida. Sentir raiva não justifica promover violência – já que a violência é multifacetada -, mas pode-se entender a violência como uma exteriorização extrema desse sentimento destrutivo. E assim, juntamente com o sentimento individualista e mesquinho do ser humano, aproximamo-nos cada vez mais do estado natural do homem (“o homem é o lobo do próprio homem”), definido por Hobbes como indisposto à convivência pacífica. Nascemos, crescemos, nos relacionamos, desenvolvemos nossas funções cognitivas e (com sorte) aprendemos a lidar com nossas emoções, ou então a mascará-las, reprimi-las ou intensificá-las em toda e qualquer ação. E isso influencia diretamente nos relacionamentos e nas estruturas dos nossos vínculos.

No que se refere à relacionamentos, culturalmente diz-se que todos os casais discutem e/ou brigam, e que isso é “normal” e aceitável. Então questiona-se: que significa esse “aceitável” e até onde isso vai? Procuramos, inconscientemente, por figuras que de alguma forma se assemelham às figuras paternas ou maternas de nossa referência. Criamos padrões e estereótipos do “correto”, mas mesmo assim seguimos modelos criados que são nocivos e não lutamos para modificá-los, visto que estão impregnados em nossa mente. A maneira de se relacionar por meio da violência está enraizada em nosso comportamento.

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”[2]. A referida autora construiu essa frase a qual condensa todas a explicações sobre a nossa aprendizagem de ser o humano no mundo.

Nem os casamentos arranjados de antigamente e nem o nosso inconsciente nos ajudam quando o quesito é relacionamento. Cada um terá de se comprometer com as consequências de suas projeções e aprender de uma maneira saudável a conviver com o melhor e o pior de si e do(a) parceiro(a) em uma relação.

Fala-se em casamento arranjado pois é algo que possivelmente você já ouviu falar, seja por relatos de mãe, avó ou professores. Além de juntar as filhas com quem era financeiramente vantajoso para as famílias, não existia a possibilidade de divórcio, e quando passou a existir era muito caro, complicado e levava tempo. Fora que, a mulher divorciada nunca era bem vista socialmente. Não existia preocupação quanto ao desejo da mulher, tampouco dos seus sentimentos, nem se estaria em um relacionamento saudável, se estaria confortável, segura e livre de abusos e agressões. Nesse sentido, percebemos que o corpo da mulher ainda é de todos, mas não é de cada uma delas.

Desde o início do século XIX grupos feministas lutam contra a violência doméstica, considerando humilhante a agressão e o desrespeito que as mulheres sofrem cotidianamente por seus companheiros. Em 1971, Erin Pizzey foi responsável pela criação do primeiro abrigo para libertação de mulheres e crianças, em Londres, a fim de expor a realidade das “esposas espancadas”[3], oferecendo-as apoio emocional e material. A ação de Pizzey é uma das expectativas otimistas que surgem na contemporaneidade. O papel do feminino na sociedade sofreu profundas transformações: as mulheres hoje ocupam cargos que outrora eram destinados exclusivamente aos homens, conquistaram direitos políticos e frequentam universidades. Apesar de todos esses êxitos conquistados pela luta feminina, há formas de opressão que as silenciam, e a violência doméstica é uma das principais. 

“Ao menos uma em cada três mulheres é espancada, coagida ao sexo ou abusada por um parceiro íntimo ao longo da vida (globalmente)” – Dado de 2008 do Departamento de Informação Pública das Nações Unidas que demonstra a dimensão imensurável dessa violência.

Assim, a violência contra as mulheres é um “sintoma de estruturas de poder maiores que banalizam o desespero de homens pelas mulheres. Na sua forma mais extrema, homens assassinam mulheres”[4]. Os relacionamentos abusivos, em geral, são aprendidos socialmente, seja em casa vendo a relação dos pais, com amigos ou ainda   com a própria cultura machista que objetifica a mulher. Podemos caracterizar, então, essa necessidade do homem de se afirmar como chefe da relação uma construção social, ou seja, desde a infância o homem aprende a ser viril, insensível e forte, e, consequentemente, repressivo.

Nessas circunstâncias, qual é o papel da sociedade frente à violência doméstica? Se você escuta sua vizinha gritando e implorando por socorro pois o marido ou namorado está à agredindo, o que você faz?

Percebe-se, portanto, que tanto os homens quanto as mulheres estão aprisionados em estereótipos de gênero. Entretanto, se os homens não precisarem performar a masculinidade, se eles não precisarem ser agressivos e controladores a fim de serem aceitos, as mulheres não serão pressionadas a serem submissas e violentadas. A igualdade de gênero é benéfica para ambos os lados, e possibilita ainda que as mulheres possam ser proprietárias de seus próprios corpos.

Logo, o “tapa na cara” é uma violência que se justifica pelo fato do homem estar “nervosinho”? Não é possível validar este tipo de agressão, pois não podemos justificar para aceitar, fingir para não enfrentar e morrer para anunciar a gravidade do problema.

MARLY TEREZINHA PERRELLI é mestre e doutora em psicologia (UFSC)

LARISSA ZUCCO é acadêmica de psicologia (UnC)

MARIANA TOSIN é acadêmica de medicina (UniCentro)


[1] http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/mapa_da_violencia_baixa1.pdf

[2] BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo, v.I, II. Tradução Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

[3] O Livro do Feminismo / colaboração Hannna McCann … [et al.]; Tradução Ana Rodrigues. – 1 ed. – Rio de Janeiro: Globo Livros, 2009: il (As grandes ideias de todos os tempos), p.163

[4] O Livro do Feminismo / colaboração Hannna McCann … [et al.]; Tradução Ana Rodrigues. – 1 ed. – Rio de Janeiro: Globo Livros, 2009: il (As grandes ideias de todos os tempos), p.316-317

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1 resposta »

  1. Genial texto. Concordo em tudo. Por ser uma mulher da atualidade com visão para o futuro. Porém, acho esse tipo de maldade e agressões entre companheiros sempre vai existir.
    Acredito que depende da sabedoria de cada pessoa para saber lidar com esse tipo de violência.

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