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E o casal imaginou que a sua doméstica estava imune ao coronavírus

por Djeff Amadeus

Chocado e com ódio. Assim li a reportagem[1] de que uma empregada doméstica estava trabalhando na residência de um casal infectado pelo coronavírus, em São Conrado/RJ.

Chamaram-me a atenção, na reportagem, dois pontos: o primeiro, a fala supostamente atribuída ao casal dando conta da preocupação deles em isolar-se, mas mantendo a empregada doméstica trabalhando para eles; o segundo, a omissão do jornalista ao não manifestar nenhum tipo de indignação ou denúncia contra essa situação. Um silêncio complacente!

Este artigo pretende analisar o ato falho da reportagem ou do casal que, ao utilizar a palavra quarentena, no sentido de isolamento, deixou escapar como a maioria da população brasileira enxerga as empregadas domésticas.

Palavras que tropeçam são palavras que confessam – eis a definição que Lacan e Garcia Roza dão ao termo ato falho.[2] Uma palavra que tropeça, então, entrega aquilo que está no inconsciente, oculto, mas escapou. 

Chamar o marido pelo nome do amante, esquecer o anel de casamento quando estava indo se casar, despedir-se de alguém com um boa morte (em vez de boa sorte) são só alguns exemplos de atos falhos que entregam aquilo que estava oculto, no inconsciente, mas escapou: a saudade do amante, a vontade de não casar e o que a pessoa deseja àquele que ela está se despedindo.

O uso da palavra quarentena, nesse sentido, deixa escapar algo revoltante: a maioria da classe média não enxerga as empregadas domésticas como pessoas. Reparem que o diálogo com um médico – considerado pela maioria da classe média como uma pessoa – se dá à distância, pelo telefone. Aqui todo o cuidado com seu semelhante.

Já com a empregada doméstica o contato é direto! É direito porque a quarentena serve para isolar as pessoas a fim de proteger outras pessoas. Mas para quem não enxerga uma empregada doméstica como uma pessoa, ela pode ficar no mesmo ambiente de pessoas infectadas com o coronavírus e, além disso, trabalhando para elas.

Reparem na sutileza das palavras, porque elas, como disse o maior de todos, Fanon, não são neutras. O casal está em quarentena, “isolado”; não fala com ninguém. Apenas com o médico por telefone. A empregada é uma ninguém. É o ninguém quem está ali, ajudando-os. Eis como a maioria da classe média enxerga àqueles que servem de escada para o seu sucesso.

Muito provavelmente infectada, ela, a empregada, também poderá infectar seus filhos. E não terá médico para atendê-la por telefone. Será no SUS. Ela, doente, levando os filhos, também doentes, que contraíram o vírus de alguém que ainda poderá lhes dizer: – Demos máscaras e luvas à empregada doméstica. Ela que não soube usar direito. Te vira!

Em nenhum momento a reportagem se dá conta de que o casal não está isolado p… nenhuma! Eles estão com uma empregada doméstica que, agora, além de empregada doméstica, será também enfermeira. E não ganhará mais por isso. E há quem dirá que ela deve agradecer pelos infectados darem trabalho a ela. Esse tipo de gente, que diz isso, é aquela que, durante a enchente que matou muitas pessoas, ligou ao Ifood para que um jovem fosse levar comidas, para eles, de bicicleta, na enchente. E ainda reclamam porque a comida chega fria.

Por essas e outras que pessoas como o meu irmão Thiago Fabres não aguentaram viver neste mundo. Imagino ele me ligando, indignado, pra dizer que não estava conseguindo dormir. Que daí de cima continue olhando e lutando pelo nosso povo, irmão!

DJEFF AMADEUS é advogado, mestre em direito e hermenêutica filosófica pela Unesa, pós-graduado em filosofia pela PUC-Rio, pós-graduado em processo penal pela ABDCONS-RJ e membro da FEJUNN e do Movimento Negro Unificado (MNU).


[1] http://blogdoneylopes.com.br/o-caso-do-primeiro-carioca-com-coronavirus-de-transmissao-localhttps://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/o-caso-do-primeiro-carioca-com-coronavirus-de-transmissao-local.html

[2] GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Rio de Janiero, Zahar, 1994, p. 9

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