ARTIGOS

Carnaval político: a voz das minorias transformada em arte

por Laiela Santos

Durante  o carnaval o Brasil tem os holofotes do mundo voltados para si. Carnaval é tipicamente uma festa de celebração dos afetos, do desejo e do corpo. Carnaval é manifestação da arte popular, da cultura e da liberdade de expressão.

Cultuados esses valores, natural que a crítica ao presidente viesse, uma vez que ele representa a negação de tudo isso. Combate às fake news, racismo institucional e perseguição aos povos indígenas são algumas notas características do governo Bolsonaro que acabaram retratadas no carnaval carioca.

Na avenida, a exposição desses valores é expressão do estado de direito e da democracia, conquistados a duras penas no Brasil. Por isso que as críticas, especialmente nesses tempos sombrios, foram mote de algumas escolas de samba. A denúncia do racismo, da homofobia, do feminicídio, do genocídio indígena e da intolerância religiosa tomaram formas e cores em algumas escolas no carnaval carioca.

Entre elogios e críticas, a Mangueira fez réplicas multifacetadas de Jesus. A divindade de Cristo foi representada de várias formas. Primeiro por uma mulher preta, para denunciar os altos índices de feminicídio. Em seguida por um menino periférico na cruz, para denunciar o genocídio negro em ação nas favelas cariocas. Por fim, por um indígena, para denunciar o massacre físico e moral de nossos povos originários.

Magistralmente, a Mangueira mostrou que a religião cristã prega justamente o oposto daquilo que os asseclas bolsonaristas propagam com seus ódios e extremismos.

Também a Mocidade Independente de Padre Miguel, em um de seus carros alegóricos, fez notar a expressão “Exu te ama”, usando a arte como protesto e denunciando a intolerância religiosa.

A arte, em mais um carnaval, fez resistência, dando voz aos filhos bastardos de um país que quer amar e defender a diversidade. Usar a liberdade de expressão como forma de protesto é e sempre será um ato político.

Disso tudo, deve permanecer o desprezo a todos os inimigos da liberdade de expressão e da tolerância religiosa. Afinal, só com luta e resistência se criam lugares de fala para aqueles que sempre tiveram vozes silenciadas.

LAIELA SANTOS é escritora e militante do Movimento Feminista Negro

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