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O amor é uma alternativa ante os imperativos do gozo?

por Flávia Tridapalli Buechler

Se vivemos em uma sociedade onde o dinheiro é representado como valor supremo, o que significa dizer que quem o detém está munido de poder e acesso, e que 85% do total da riqueza do mundo está concentrada nos 10% mais ricos da população (BAUMAN, 2015), torna-se inquestionável o fato de que a vida digna, longe do medo e da necessidade, não faz parte da realidade de todos. Mas, o que ocorre em nossa época para que, mesmo com tantos progressos científicos e avanços tecnológicos, a pobreza, o desrespeito, a violência gratuita, os excessos e o adoecimento atinjam cada vez mais os sujeitos e se escancaram em cada cenário que compõe a sociedade? Diante de tantos horrores que assolam o campo social de nossa época, seria o amor uma saída possível frente ao cenário dessa realidade que é cotidiana para uma grande parcela da população mundial? Em vista dessas inquietações, proponho fazer alusão a algumas características que configuram o espírito do nosso tempo, para em seguida problematizar o amor como um recurso social.

Se com a psicanálise aprendemos que a forma como habitamos o mundo e nos relacionamos com o outro é construída discursivamente, faz-se importante nos questionarmos sobre as características e as consequências dos atuais discursos hegemônicos que configuram o laço social, a saber: o discurso tecnocientífico e o discurso do capitalista. Cultivo a ideia de que esses dois discursos trabalham a serviço do esgotamento do sujeito de desejo e da vida junto(s), visto que se edificam sobre pilares que nos conduzem à alienação e à segregação.

Caracterizam esses dois discursos: 1) o rechaçamento do mal-estar que é estruturante do sujeito e da civilização (FREUD, 1930/1996); 2) a fabricação dO-Indivíduo, representado com letra maiúscula por referir-se à encarnação de um ideal  e por assombrar os sujeitos de carne e osso (LAJONQUIÈRE, 2010); 3) a promessa de que é possível tamponar a falta-a-ser no encontro total entre sujeito e objeto, em que o primeiro acredita comandar a produção e o consumo do segundo, mas na realidade passa a ser determinado por ele (PASSONE, 2013); 4) a sobreposição da lógica do mercado à lógica civilizatória, que é o mesmo que sobrepor o imaginário ao simbólico (QUINET, 1999); 5) o afrouxamento da lei sob o império da norma, onde o que marca a conduta não é mais o limite, mas o que deve ser feito, gozar sem empecilhos o tempo todo (VOLTOLINI, 2018); e 6) a condução dos sujeitos à uma deriva conformista (VIVÈS, 2019)[1].

São diversas as consequências dessa arquitetura discursiva dominante que tem como imperativos a produção, o consumo e o gozo. Me atenho no momento às seguintes: 1) o esgotamento de quaisquer recursos naturais e humanos, ao se configurar como um sistema que consome tanto a ponto de se destruir, como propõe Jappe (2017), quando se refere ao surgimento de uma sociedade autofágica, e Han (2017), quando defende que o burnout e outras psicopatologias se intensificam nessa modalidade de laço social; 2) a alienação, pois reduzir a linguagem ao comando impossibilita o sujeito de se engajar na polissemia do simbólico e de se autorizar à invenção de caminhos possíveis quando aceita incorrer à castração e às vicissitudes do desejo (VIVÈS, 2019)[2]; e 3) a segregação, pois qualquer sujeito que não se encaixa no modelo ideal que a sociedade de consumo preza tem seu valor anulado, o que acaba por produzir uma hierarquização do humano e uma intolerância com o diferente, estruturando o que segundo Mbembe (2018) é nomeado como necropolítica.

Assim, face a esse cenário, seria o amor um recurso social possível para combater os horrores e os imperativos de gozo de nossa época?

Freud, em seu texto Mal-estar na civilização (1930/1996), afirma que uma das exigências ideais da sociedade civilizada é a de que o Eu ame o próximo na mesma proporção que ama a si. Freud discorre sobre essa exigência retomando a frase “o homem é lobo do próprio homem” para relembrar que “em consequência de uma mútua hostilidade primária entre os homens, a sociedade é permanentemente ameaçada de desintegração” (p. 61), isso porque paixões movidas pela pulsão são mais fortes que a razão.  No entanto, Freud relata que a humanidade se valeria de muitos meios para estabelecer fortes identificações entre si, e a identificação como uma das versões do amor, remeteria ao amor narcísico:

“Se amo uma pessoa, ela tem de merecer meu amor de alguma maneira. […] Ela merecerá meu amor, se for de tal modo semelhante a mim, em aspectos importantes, que eu me possa amar nela; merecê-lo-á também, se for de tal modo mais perfeita do que eu, que nela eu possa amar meu ideal de eu.” (FREUD, 1930/1996, p.59).

Segundo Jorge (2019), o amor narcísico é a versão mais comum do amor no campo social, e através dele, buscamos encontrar uma completude que supostamente nos desvencilharia de nossa própria castração e do encontro não-todo com o outro. Observa-se com isso que o amor pertence ao registro do imaginário, registro em que é possível o encontro de um sentido fechado, que por vezes não é de todo mal, visto que faz o real adquirir sentido para aquele que ama, bem como pode transformar a pulsão de morte em pulsão vida (JORGE, 2019).

É interessante notar como o amor narcísico corresponde a algumas características dos discursos hegemônicos de nossa época: rechaçamento do mal-estar, predomínio do imaginário, valorização daqueles que semelham a um modelo ideal. Nesse sentido, não parece impossível afirmar que essa versão do amor também corresponde a um desserviço da vida junto(s), ou melhor, da vida junto às diferenças. É ao que Freud (1930/1996) se refere quando relata que o interesse pelo resto do mundo se apaga nas ligações amorosas estabelecidas principalmente pela identificação dos membros entre si, e que em nenhum outro caso Eros revela tão claramente o âmago do seu ser, o propósito de transformar vários em um.

Em vista disso, não me parece ser o amor narcísico um recurso social que combata os cenários de horror que configuram a contemporaneidade. Lajonquière (2018)[3], ao relembrar um episódio que vivenciou no período escolar de sua vida, também nos coloca a pensar sobre essa questão. Narra o autor que um colega de classe, que não gostava dele, recusava-se a fazer um trabalho com ele no que a professora interveio falando: “Nós não estamos aqui para gostar do vizinho, nós podemos muito bem trabalhar em comum”. Trata-se de uma passagem muito interessante, visto que não coloca o amor como operador primeiro da vida civilizatória. E é claro que isso não faz do amor algo a não ser levado em consideração, pois pode haver outras formas de amar que não se estruturam necessariamente de uma condição especular e de uma aspiração à completude, mas deixo essa questão em aberto.

Na ocasião do IX Encontro Nacional e Colóquio Internacional do Corpo Freudiano que ocorreu em novembro deste ano, em uma plenária que tinha como tema o ódio nas relações sociais, Betty Milan disse que é a escuta e não o amor o nosso único recurso social. No mesmo evento, mas em um outro momento, Denise Maurano propôs que se faz necessária a socialização do saber psicanalítico. Atravessada pela fala dessas duas mulheres, dois pensamentos me ocorreram: o primeiro faz referência à pergunta que é título desse texto, e o segundo faz referência ao particular posicionamento da psicanálise frente aos discursos hegemônicos de nossa época e frente à sustentação do pacto civilizatório.

Freud pôde nos ensinar sobre uma ética do impossível, que escuta o real da falta-a-ser através da livre circulação da palavra e que se estrutura muito mais como um posicionamento que como uma ciência que se pretende universal. E que como posicionamento, insiste, a partir de um ato analítico e político ao mesmo tempo, na sustentação do não-todo, que é justamente o que dá partida, o que põe sempre em movimento e o que impede o curto-circuito do desejo e das relações. Assim, a socialização dessa ética preserva o assujeitamento à linguagem ao invés do assujeitamento à língua morta proferida por tiranos e perversos, seja ela na versão que aparecer.

Para tanto, é preciso persistirmos frente às dificuldades inerentes à cultura que não cedem no rechaçamento do mal-estar e na tentativa tirânica de encarnação da lei, no qual a diferença não é admitida e onde não se aceita que haja um desejo que transcenda o desejo do tirano, criando um gozo não partilhável e do qual poucos tem acesso (JORGE, 2019). Na mesma lógica, Leclaire (1975/1977) lembra que a prática psicanalítica consiste em tornar manifesto o trabalho constante de uma força de morte, morte a todo e qualquer ideal de sujeito que reduza ao silêncio e ao anonimato toda voz e vida dissonante, modelo esse que renasce a cada época e que demanda aos sujeitos, de geração em geração, que não cessem de matá-lo, pois não há vida possível, de desejo e de invenção, se renunciarmos a esse trabalho.

Por fim, face ao horror e aos imperativos de gozo de nossa época considero que o amor em versões não narcísicas junto de outros operadores como a ética do impossível, a livre circulação da palavra e a condição de autoria do sujeito, podem vir a estruturar no laço social atual uma amarração que não deixa cair no esquecimento ou na frigidez as esperanças de liberdade e igualdade que um dia animaram o espírito revolucionário no ser humano.

FLÁVIA TRIDAPALLI BUECHLER é psicóloga, especialista em psicopatologia da infância e da adolescência e especializanda em psicanálise, sujeito e laço social (UNIFEBE/HSC).


[1] Conferência realizada por Jean-Michel Vivès sob o título “Não havia outra escolha possível” – Conformismo, conformidade e confirmação. Uma abordagem psicanalítica do devir-desistente ou do devir-persistente” na ocasião do IX Encontro Nacional e Internacional do Corpo Freudiano no Rio de Janeiro em novembro de 2019.

[2] Ibidem.

[3] Conferência realizada por Leandro de Lajonquière na ocasião da III Jornada do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura (NUPPEC) sob o tema Como viver junto(s)? Porto Alegre: FACED – UFRGS. Acessado em: https://www.youtube.com/watch?v=HMmyoPYrrbQ

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zigmund. A riqueza de poucos beneficia a todos nós? Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilização. In S. Freud. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. (J. Salomão, trad., Ed. Standart Brasileira, Vol. XXI, pp. 33-79). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Trabalho original publicado em 1930)

HAN, Byung-Chul. Topologia da violência. Vozes: Rio de Janeiro, 2017.

JAPPE, Anselm. La société autophage: capitalisme, démesure et autodestruction. Éditions La Découverte: Paris, 2017.

JORGE, Marco Antônio Coutinho. Só o amor pode fazer o gozo condescender ao desejo. Reverso, Belo Horizonte, v. 41, n. 77, p. 75-81, jun. 2019. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952019000100009&lng=pt&nrm=iso

LAJONQUIÈRE, Leandro de. Figuras do infantil: a psicanálise da vida cotidiana com crianças. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

LECLAIRE, Serge. Mata-se uma criança – Um estudo sobre o narcisismo primário e a pulsão de morte (A. S. Styzei, trad.). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977. (Trabalho original publicado em 1975)

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Trad. de Renata Santini. São Paulo: n-1, 2018.

PASSONE, Eric Ferdinando Kanai. Psicanálise e Educação: o discurso capitalista no campo educacional. ETD – Educação Temática Digital, 15(3), 407-424, dez. 2013. https://doi.org/10.20396/etd.v15i3.1263

QUINET, Antonio. A ciência psiquiátrica nos discursos da contemporaneidade. Associação Mineira de Psiquiatria – O Risco, v.10, n.8, p.12-4, 1999. http://egp.dreamhosters.com/EGP/161-a_ciencia.shtml

VOLTOLINI, Rinaldo. O psicanalista e a pólis. Estilos da Clínica, 23(1), 47-61, 2018. https://dx.doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v23i1p47-61

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