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Os ricos conseguirão comer notas de dinheiro?

por Luiz Eduardo Cani e Paulo Ferrareze Filho

No último dia 6 de novembro foi publicada uma entrevista com o bilionário Ray Dalio, que declarou que o mundo se aproxima de uma grande mudança paradigmática relacionada ao capitalismo. Dalio pensa que o “mecanismo” que impulsiona o capitalismo já não está funcionando corretamente, pois “o dinheiro é essencialmente grátis para quem tem dinheiro e credibilidade financeira, mas é essencialmente indisponível para aqueles que não têm dinheiro e credibilidade”. O resultado são as cada vez mais brutais desigualdades sociais (TAUHATA, 2019).

Dalio disse o óbvio: é impossível qualquer economia sem força de trabalho. Economizar é controlar e equilibrar o que temos à disposição diante das necessidades, reais ou ilusórias de consumo. Sem recursos excedentes não há possibilidade para uma economia.

Daí porque a frase de Paulo Guedes é própria de um canalha neoliberal: “Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo” (CONGRESSO EM FOCO, 2019).

É óbvio que quem não possui recursos excedentes não consegue poupar. O ato de poupar, inerente à lógica econômica, pressupõe recursos excedentes. E para que haja excedente é preciso trabalho, em geral com extração de mais valia (valor excedente entre o valor produzido e o valor recebido pelo trabalhador). Formas de auto-organização podem envolver uma dinâmica de menor exploração, mas, se todos os trabalhadores quiserem receber o valor integral do trabalho, não será possível nenhum tipo de economia.

O que estamos vivenciando nesses tempos é um processo de inversão do núcleo econômico: do trabalho para a financeirização. Ao contrário da lógica tradicional em que o trabalho produz o lucro, a lógica da economia global financeirizada implica a extração de lucro a partir de investimentos de alto risco. O investidor adquire ações de empresas de capital aberto ou títulos de dívidas, sob a promessa de ser remunerado de modo muito mais generoso do que as tradicionais cadernetas de poupança. Contudo, há mais risco: se o valor da ação adquirida reduzir, o investimento terá resultado negativo. Assim também ocorre com os títulos das dívidas, cujo inadimplemento implica no não recebimento da remuneração esperada (exceto em alguns títulos com garantias, sobretudo aqueles com garantia de até R$ 250.000,00 por número de CPF, cujo garantidor é o Estado brasileiro).

Isso desde logo denuncia a tragédia já que há uma privatização dos lucros e uma socialização dos prejuízos. As instituições financeiras são as únicas titulares dos lucros decorrentes da venda dos títulos, mas, em alguns casos, a União é responsável por eventuais inadimplementos das instituições financeiras. Noutros casos, simplesmente o risco da atividade econômica é arcado exclusivamente por quem adquiriu o título. Novamente, as instituições financeiras estão blindadas. Tudo em conformidade com a lei.

Obviamente o trabalho ficou de lado nesse contexto, afinal de contas, os lucros dos investimentos são muitas vezes superiores aos lucros da dinâmica de produção e consumo da economia tradicional. Produzir e comercializar demanda mais esforço e mais tempo do que especular no mercado financeiro. O problema para quem atua nesse mercado não é dinheiro, mas eventual demora para receber resultados positivos. Assim é que o trabalho acaba prejudicado diante desses “novos segmentos de mercado”.

Esse processo de conversão de “coisa nenhuma” em mercadoria foi chamado por George Rigakos de comodificação (commodification). Ao estudar o mercado de segurança privada surgido no Canadá, na década de 1990, Rigakos constatou que os vários relatórios produzidos por uma empresa de segurança não passavam de um conjunto de informações sem relevância em matéria de “segurança”, mas apenas agregavam valor ao serviço prestado. A comodificação é uma das três etapas do processo que Rigakos chamou de pacificação (pacification): despossessão (dispossession), exploração e comodificação (RIGAKOS, 2016).

O resultado do processo de pacificação é a produção de um modelo econômico alheio ao trabalho, que opera exclusivamente tendo em vista a ampliação exponencial dos lucros, sem preocupação com o trabalho ou com os trabalhadores.

Diante desse contexto, a pergunta que inaugura este texto não será respondida por nós. Cabe aos cientistas da natureza responder se um humano pode sobreviver com uma dieta a base de papel. Isso porque, no limite, o modelo econômico que temos em plena execução hoje produzirá a morte de todos os trabalhadores, mas não do 1% da população que se locupleta, com auxílio do direito e do estado neoliberal, a partir de processos de pacificação.

Sem trabalhadores, não haverá economia, tampouco recursos a consumir. Será o 1% capaz de extrair do dinheiro que tem os nutrientes necessários para sobreviver? Podem tentar. O problema é que boa parte do dinheiro mundial é apenas digital. Podem tentar fazer fotossíntese também. Vai que dá…

LUIZ EDUARDO CANI é doutorando em Ciências Criminais (PUCRS), bolsista da CAPES, professor e advogado.

PAULO FERRAREZE FILHO é professor de psicologia jurídica, psicanalista em formação e doutor em filosofia do direito (UFSC).

Referências

CONGRESSO EM FOCO. “Rico capitaliza recursos, pobre consome tudo”, diz Guedes. Congresso em foco, 03 nov. 2019. Disponível em: <https://congressoemfoco.uol.com.br/economia/paulo-guedes-critica-servidor-publico-e-detalha-pacote-pos-reforma-da-previdencia/>.

RIGAKOS, George S.. Security/Capital: a general theory of pacification. Edimburgo: Edinburgh University Press, 2016.

TAUHATA, Sergio. Mundo se aproxima de grande mudança de paradigma no capitalismo, diz Ray Dalio. Valor Econômico, São Paulo, 06 nov. 2019. Disponível em: <https://valor.globo.com/financas/noticia/2019/11/06/mundo-se-aproxima-de-grande-mudanca-de-paradigma-no-capitalismo-diz-ray-dalio.ghtml>.

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