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O que podemos aprender com Anitta e Brigitte?

por Liliane Pimentel

Quem é a mulher que desafia a cultura do patriarcado ferindo a imagem idealizada da mulher santa, recatada e do lar? Quem é essa mulher que vai para a rua assumindo o protagonismo do seu desejo no mundo?
Essa mulher, encarnada na pele da Joana, Maria, Alice, Lúcia e tantas outras, mas, representada nas figuras públicas, as quais, tanto amadas quanto odiadas, ao mesmo tempo veneradas e ordinariamente subjugadas são mulheres representadas na falta de beleza da Brigitte Macron, no excesso de rebolado de Anitta, só para citar duas figuras femininas que causaram (mesmo sem intenção) polemica nas últimas semanas.

Escrevo depois de passados vários dias após a polêmica apresentação de Anitta no Rock in Rio e o alvoroço em torno da (falta de) beleza da primeira-dama francesa Brigitte Macron. Não escrevo agora por estar atrasada no assunto, mas porque precisava de tempo para processar as duas polêmicas. A digestão foi lenta.

Confesso que, como mulher e profissional de saúde que trabalha com saúde mental, esses são assuntos que me tocam profundamente, tanto pela condição de ser mulher quanto por acompanhar o sofrimento de mulheres julgadas por não se enquadrarem em padrões preestabelecidos, seja por não terem o padrão de beleza esperado ou por não corresponderem ao que se espera de uma mulher.

Acompanhei nas redes sociais comentários a respeito das duas mulheres em questão – Anitta e Brigitte – e foi impossível não ser atravessada pela mistura de ranço com espanto ao ler comentários baixos, ofensivos e extremamente desrespeitosos.

É possível que muitas pessoas não concordem quanto à beleza de Brigitte ou o mérito de Anitta quanto ao patamar profissional que atingiu na música. São justamente as diferenças de ideias, opiniões, posicionamento que contribuem para discussões ricas. Entretanto, temos que concordar que a falta de respeito não pode e, não deveria ser confundida com liberdade de expressão.

Ora, como pode uma moça intitulada Anitta ter um show transmitido por um canal de TV num festival de Rock? E como poderia alguém tão desprovida de beleza como Brigitte estar casada com um homem público, o atual presidente da França, Emannuel Macron, ou melhor, como poderia ele ter se interessado por uma mulher como ela?

Agora, vamos fazer uma reflexão reversa. Quantas mulheres gostariam de estar na pele de Brigitte? Não me refiro ao casamento com Macron, mas à posição social, à visibilidade que ela tem, ao poder da figura de primeira-dama. Quantas mulheres gostariam de assumir a posição que Anitta conquistou de empresária bem-sucedida e empreendedora?

Tanto Anitta quanto Brigitte encarnam a ambiguidade daquilo que é desejado e repudiado. No desejo temos poder, dinheiro, posição social, fama, sucesso, admiração, protagonismo feminino. No quesito repúdio temos velhice, breguice, excessos, apelo sexual, exposição e, novamente, protagonismo feminino.

Como uma arma, aponta-se o dedo para quem afronta nossas crenças, nossos valores, sobretudo, nossos ideais morais, sociais, os bons costumes. Enquanto a Outra está no fogo cruzado não é necessário que nos deparemos com aquilo em nós que não funciona tão bem – a insatisfação no relacionamento, a dificuldade na criação dos filhos, uma vida sexual meia boca, a falta de dinheiro, o medo de envelhecer sem alguém ao lado, a incerteza da vida, o tic-tac anunciando a passagem do tempo. De certo modo, Brigitte lembrou ao mundo que o tempo passa, o que foi possível verificar a olho nu, mesmo na pele bem maquiada – as marcas do tempo a indicar que ela é uma mulher madura. As mulheres envelhecem, a pele fica flácida, a aparência não tem o mesmo vigor de outrora, nem o mesmo viço das mais jovens, o que se torna brega, expondo os excessos do tempo que denotam falta de apelo sexual, portanto, a desvalia.

Na contramão, porém, nem tanto, Anitta, no vigor da juventude performou no palco do Rock in Rio exibindo o corpo sarado, rebolando toda sua sensualidade brega. Acompanhei nas redes sociais comentários a respeito do show da Anitta, coisas que não reproduzirei aqui, tão pejorativas quanto desnecessárias. Entretanto, considero válida uma análise: é preciso rebolar muito mesmo para empreender, alcançar uma carreira internacional e elevar um ritmo marginalizado como o funk a um patamar mais alto. Por mais que não sejamos fãs do ritmo, do estilo da cantora, há que se reconhecer a força, garra, persistência por trás da personagem meiga e abusada, malandra, que rebola, poderosa, sem medo do terremoto, anunciando favela chegou.

Se o que incomoda é a exposição do corpo, lembremos que qualquer trabalhador vende seu corpo no ambiente de trabalho. Alias, não é isso que proporciona a mobilidade ao sujeito? O corpo! Qualquer trabalhador sujeito a um trabalho remunerado está vendendo não apenas seu tempo, sua disponibilidade, mas seu corpo, o corpo que labuta, o corpo que forma um conjunto com a mente no trabalho intelectual.

O que causa mais revolta do que ver alguém da favela ascender, parece ser o fato de uma mulher ocupar esse lugar, mais, uma mulher que usa seu corpo para isso, afinal, lugar de mulher seria no recato do lar (?). Aqui, não está em jogo o quanto o corpo esta a mostra, o que esta em jogo é uma mulher jovem, com um corpo sarado, favelada, solteira que ousou bancar seu desejo – viver da música, no meio artístico, sobretudo, se mostrar como bem entende, sem solicitar autorização a terceiros.  

O que causa mais repulsa do que ver uma mulher envelhecer, aparentando as rugas que indicam a passagem do tempo, sem medo de mostrar sua cara? É o preço que Brigitte pagou por aparentar a idade que tem. Mas vejamos, com o dinheiro que ela tem poderia usufruir dos melhores e mais caros tratamentos estéticos, poderia fazer plásticas, consultar os melhores cirurgiões. Brigitte foi subversiva ao assumir sua cara ao sol, com rugas, com a maturidade que tem.

As críticas, a enxurrada de comentários são o preço que Anitta e Brigitte pagaram por assumir o protagonismo da própria vida, por bancar um desejo.

Contudo, o ponto onde quero tocar é o do merecimento, pois me parece que por mais que uma mulher se esforce, lute, trabalhe, de seu melhor, nunca será o suficiente. Jamais será suficientemente boa, não por si. Vale lembrar aqui os estereótipos que são empregados quando uma mulher sobe de cargo, quando assume um relacionamento com um homem de alta posição social ou ainda, quando uma mulher é vista sozinha num bar ao final do dia.

A imagem da puta e da santa, da cachorra e da recatada, da novinha e da panela velha que habitam o imaginário coletivo popular não tolera que as duas figuras simbólicas se materializem na mesma mulher. Assim, se é bonita é burra, se não é burra é feia.

Desse modo, a repercussão dos comentários dirigidos a Anitta e Brigitte, se nos possibilitarmos uma reflexão, nos favorecem avaliar nossas condutas, as palavras que usamos para definir aquilo que gostamos ou não. Assumir o protagonismo na vida exige muita coragem, um tanto de rebolado, expor a cara nua e crua, se deixar ver na multidão. O preço a pagar por não seguir com a maioria é sempre caro, pode ser solitário. Afinal, quem não quer pertencer, se sentir amado, querido, adorado, validado? Mas afinal, a que custo abrimos mão de tudo aquilo que poderíamos ter sido e feito por não querer desagradar a plateia?

Brigitte e Anitta representam a força que nós mulheres carregamos. O poder de ir além dos limites daquilo que nos contaram a respeito de ser mulher. Elas nos deixam um recado sobre protagonismo feminino. Enquanto há regras ditando padrões, exigindo uma conduta assim ou assado, elas esfregam na nossa cara a necessidade de romper com regras rígidas.

Encerro com a cantoria de MC Andinho que abriu o show de Anitta “mandando a letra” “…ela é apenas uma menina”. Engano seu MC, a Anitta é uma mulher dona de si. É preciso ser muito mulher para se bancar.

LILIANE PIMENTEL é psicóloga clínica, psicanalista em formação e especializanda em psicanálise (UNIFEBE/HSC)

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