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A fofoca é nossa urina animal

por Mauro Gaglietti

Meu irmão, ninguém engana Deus

Sig, O Rato, está pasmo com a repercussão do que escreveu na semana passada nessa coluna sobre a fofoca. O que chamou mais atenção no retorno que teve dos únicos três leitores que têm no Brasil é que a fofoca tende a colaborar com o ordenamento social e a manutenção dos valores preponderantes de uma cultura vigente. Sig, O Rato, foi buscar no teorema de Thomas as confirmações inesperadas previstas pela fórmula das profecias que se auto-realizam dando conta de uma complexa teia social no qual aspectos sócioestruturais ambivalentes se dispõem em momentos diferentes das práticas microinteracionais no dia-a-dia, no qual as fofocas têm um papel inusitado. Justamente por reforçar as crenças, os hábitos e os costumes à medida que se complexificam as reiterações sociais de tudo o que é cultivado em termos de valores morais. Em suma, é um mecanismo de reforço de padrões e, ao mesmo tempo, o fofoqueiro torna-se o centro de atrações entre aquelas pessoas que legitimam a fofoca como uma prática “normal”. Ao mesmo tempo, tal procedimento ao ser adotado permite ao fofoqueiro de plantão demarcar território em relação àquelas pessoas que consideram a fofoca uma prática deplorável. Ainda, na coluna anterior Sig, O Rato, tratou a concepção segundo a qual o discurso sob forma de uma fofoca delicia os que acionam ou mantém a boataria na medida em que permite aos que falam da vida alheia a vivência, ainda que substituta, (vivência vicária), dos fatos e eventos narrados e expostos, mesmo que não tenham acontecido (ou do modo que foi narrado). Na verdade a fofoca é uma estratégia que ao ser jogada, por um lado, atrai, e, por outro, repele pessoas para dentro ou para fora do círculo. É a urina usada por outros animais não humanos.  Em suma, é uma maneira de convergir o olhar do grupo por intermédio do sadismo angariado por meio da depreciação do outro, um certo apartheid se constitui nessa vivência falsa, substituta à medida que avança a manipulação do prestígio e status alheio. Talvez seja essa mesma busca desenfreada que vive de falar na vida alheia que oportuniza momentos de sensação real de poder aos que gostam de fofoca. Vivência vicária e ao mesmo tempo vivência protagonizada ao se relatar para o outro a narrativa do ato de fofocar.  Sig, O Rato, tem observado que as fofocas mais comuns ocorrem entre pessoas que têm ligação, que estabeleceram um certo laço social, em grupos de convivência mais estreita. Esse é o cenário para a proliferação da boataria sugerindo a incidência de um maior controle do comportamento dos frequentadores destes grupos em virtude de se sentirem mais ameaçados e inseguros. Quanto menor a autoestima, grau elevado de depressão ou angústia e o que é mais corriqueiro, grau altíssimo de ressentimento social/pessoal exalando vingança e impotência, maior será a probabilidade de que a pressão interna e, como parte dela, a concorrência interna, levem as crenças coletivas a extremos de ilusão e de rigidez doutrinária, bem como a uma intensa rede de boataria acionada para exercer tal controle. Assegura-se, nesse sentido, que o ressentimento é uma das condições mais perigosas aos seres humanos e, infelizmente esta parece ser sua condição moderna. O ser humano declina, seu grande temor é que o ressentimento se torne de tal forma contagioso e perigoso que consiga operar uma inversão dos valores. Sig, O Rato, de imediato lembrou que terá que reler Nietzsche na medida em que na situação posta, o pesadelo se torna realidade: os fracos triunfam sobre os fortes. A incongruência entre as crenças (que acabam por favorecer percepções distorcidas da realidade) e os fatos efetivos leva a um menor controle sobre esses últimos, propiciando assim um sentimento de insegurança que irá por sua vez propiciar mais distorção sobre os fatos, num circuito recursivo difícil de ser quebrado. Foi possível, ainda, abordar na coluna da semana passada, também, o fato de que a fofoca ou boataria poderem atuar no sentido de realizar o postulado da profecia que se auto cumpre e se auto-reproduz por intermédio de mecanismos complexos nos quais os eventos narrados, baseados ou não em evidências reais, exercerem um poder de realização inusitado em diversas situações. Assim, a fofoca torna a vida das pessoas mais interessante à medida que a cada narrativa permeada de fofocas as tiram das suas rotinas, proporcionando uma representação espetacularizada de eventos da vida alheia que tenham algum significado escandaloso ou digno de atenção diferenciada, por isso têm um valor considerável como entretenimento. Sig, O Rato, pergunta: seria possível pensar que nossa vida e nossas relações são formas de narrativas vivas? A narrativa viva compõe-se de outras narrativas que são móveis, abertas, rígidas, aceleradas, densas, contrapostas, conflagradas entre si ou fazendo parte de uma cooperação cega e surda. A complexa trama da vida social torna-se pensável a partir da combinação destas possibilidades em inúmeros arranjos e formatos variados. Nesta direção, nós próprios expressamos por meio de nossas ações e relações narrativas vivas para outros humanos e continuamente nos convertemos em símbolos, somos personagens de narrativas contrárias ou amistosas para os outros. Somos pessoas e como tal interpretamos papéis sociais em cada contexto dada a presença constante de mecanismos culturais de preservação de espaços de poder. Ou melhor, identificamo-nos com alguns que são símbolos e narrativas para nós próprios. Confrontamo-nos com aqueles que desafiam, impedem ou prejudicam o prosseguimento que não interpõem razões existenciais diferentes das nossas para a realização de suas narrativas. Nesses termos, as fofocas seriam assim formas de narrativas de apresentação destes eventos em um formato de censura prévia nas quais os valores sociais funcionariam como medida padrão de análise e avaliação dos comportamentos humanos (creio que uma espécie de superego social). A ideia da concorrência sistemática pela aprovação reforça a cosmovisão da superioridade na prática e no gesto de submeter outras pessoas. Sig, O Rato, reitera que a fofoca pode fornecer elementos (analisados pela turma de sociólogos que consta ali embaixo na bibliografia) de compreensão da vida social em seu aspecto socioestrutural, bem como em suas facetas microinteracionais. Elas não têm uma função única, exclusiva e determinada. Podem ser vistas como índices que expressam o grau de celebração de valores: quando tiverem alto poder de desestabilização do prestígio dos que estão nelas envolvidos, tende a assinalar o alto grau de que goza um determinado valor no qual se baseiam comportamentos, atitudes, condutas; na situação contrária, apontam para a erosão daquele valor em grupos específicos, uma vez que a transgressão dos valores em questão não mais suscita qualquer tipo de reação mais forte e nem deprecia o valor dos protagonistas envolvidos nos fatos que geraram os discursos da estética de fofocas. Nesta perspectiva, integram, ainda, o conjunto de elementos nos quais se pode enxergar um mapa dos aspectos socioestruturais de uma dada cultura tida como de menor valor. Assim, também, ocorre quando se percebe o valor integrador que as fofocas representam ao atuar como elemento de controle e integração do grupo. Em outras palavras, caso as pessoas definam certas situações como reais, elas são reais em suas consequências. No caso, a interpretação de uma situação causa a ação. Esta interpretação não é objetiva. As ações são afetadas por percepções subjetivas de situações (nos grupos de militância fundamentalista há muito disso e nos grupos acadêmicos há em demasia, não seria, excesso?! ….). Na perspectiva microinteracional, as fofocas propiciam gozo, prazer e excitação aos que as enunciam e aos que as ouvem. Promovem uma importante distância simbólica dos fatos e personagens envolvidos nas narrativas ventiladas, ao mesmo tempo em que permitem a famosa vivência vicária (experiência que substitui a vida real transferindo para uma outra dimensão do espaço temporal) destes mesmos fatos. A sensação de domínio sobre a vida alheia, a excitação de conspirar, tramar e decidir sobre a reputação de outrem e, portanto, de influir na processo de depreciação dos outros, traz uma inegável possibilidade de fruição pessoal importante para se entender o porquê dela ser um expediente recorrente e frequente nas interações cotidianas. Isso sem contar a possibilidade de desforra frente aos adversários e o delicioso exercício de passar o tempo comentando sobre os problemas alheios, enquanto nos esquecemos dos nossos e nos refestelamos em dissecar e aumentar (sempre que possível) os “desvios” e fraquezas dos que nos cercam. Sig, O Rato, vai retornar, com certeza, assim como você, aos mesmos livros que se encontram indicados abaixo para tentar entender um pouco mais o alcance que qualquer definição de uma situação dada, influencia o presente. Pelo visto, não só isso, mas – após uma série de definições nas quais um indivíduo está envolvido – esta definição gradulamente influencia a personalidade mesma do indivíduo. Procure dormir com um barulho desses!! Bom dia, boa semana e até breve!!

MAURO GAGLIETTI é professor universitário, mediador de conflitos e doutor em história pela PUC/RS

BIBLIOGRAFIA

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ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

ELIAS, Norberto. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

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GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1999.

GREIMAS, Algirdas J. Semiótica das paixões. São Paulo: Ática, 1993.

HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. Lisboa: Edições 70, 2003.  

SIMMEL, G. On Individuality and Social Forms (Selected Writings). Chicago: The University of Chicago Press, 1971..

SIMMEL, G. Sociologie et Épistémologie. Paris: PUF, 1991.

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