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Sobre a desconfiança

por Cláudia de Marchi

Esse é o pior ano da minha vida. Em 2019 vivencio um ano em que, apesar dos sórdidos pesares, eu sou uma mulher um pouco mais madura e experiente, mas nem por isso me sinto menos pequena e medíocre nesse momento em que lhes escrevo.

Leio textos de colegas escritores.

Vejo opiniões excelentes sobre política. Algumas mais sucintas e razoáveis do que outras.

Às vezes me identifico e concordo, noutras não. Mas respeito e eventualmente repenso o meu pensar. Todavia me vejo cercada por isso: opiniões, filosóficas ou jurídicas, acerca do atual e infame desgoverno.

Pela primeira vez em minha vida vivencio uma fase em que, apesar de saber quais são os meus princípios e valores, penso: “Mas escrever não é algo demasiado arrogante?”.

Querer passar o que penso adiante não seria uma espécie de prepotência ignorante?

Da arrogância típica dos seres que sabem de pouco a nada acerca da vida, mas creem-se donos da verdade?

Escrevo publicamente em redes sociais desde 2002/2003.

Apenas agora venho questionando a importância desses atos (escrever e divulgar meus escritos).

Seria isso uma crise de inspiração?

Não sei!

Se não sei de nada hoje em dia, menos ainda sei nominar esse cansaço e essa preguiça que me fazem querer estar calada virtual e socialmente.

A maioria dos textos que leio é de pessoas sensatas e, independente de suas preferências políticas, os sensatos são, no Brasil, afins em relação às críticas ao atual governo que nos adoece diariamente.

Penso em escrever sobre sentimentos, sobre desapontamentos, sobre dificuldades financeiras e sobre “apertos” diversos, mas penso: “Nenhum dos meus colegas (que escrevem para a revista Caos Filosófico) passa por isso, o Brasil está um caos, todavia ninguém quer ler nada correlato a tal assunto ou sobre o seu cotidiano de acompanhante de luxo que rema contra a maré da hipocrisia praticamente desacompanhada!”.

Dentro de todo esse quadro de “só sei que nada sei”, há meses uma pessoa entrou em minha vida, em teoria, de forma despretensiosa, demonstrando preocupação com minhas eventuais crises de ansiedade e dizendo-me querer, apenas a minha amizade, ainda que virtual.

Essa pessoa me disse que o mundo é repleto de seres maldosos e sem sensibilidade para entender a minha sinceridade e intensidade, e que, portanto, preocupava-se comigo, pois eu me “expunha” demais.

Ele me dizia de forma afável, quase paternal, que meus textos e “luta” contra o mainstream só serviam para me desgastar física e psiquicamente e que, no fundo, de nada repercutiriam em mudanças no mundo como ele é.

Exausta que eu estava, vi sentido em suas palavras.

Por outro lado, sempre fui muito densa e franca e sempre tornei públicos os meus sentimentos e pensamentos: de blogs até jornais semanais!

A escrita está presente em boa parte da minha vida adulta.

Não sei, no entanto, porque dei tanta atenção às opiniões de tal pessoa, mas ela me parecia boa apesar de alguns pesares que passou e que eu nunca entendi como “atos típicos de uma pessoa genuinamente bondosa”, mas me abstive de julgar-lhe, afinal, quem sou eu no mundo para julgar alguém?!

Eu já lhes falei que estive muito, muito, muito exausta psiquicamente neste ano? Pois então, foi neste contexto em que tal pessoa me procurou sem, por momento algum, demonstrar atração ou interesse sexual em mim. Surgiu sugerindo um médico carioca de rara sensibilidade para tratar distúrbios de ansiedade.

Esse indivíduo parecia-me amigável, justamente porque não tinha interesse em ter sexo comigo, chegando em minha vida apenas como um ser humano que sofre com o mesmo transtorno psíquico que eu (Ansiedade). Logo, aos poucos, conquistou o meu respeito e carinho, mas sempre frisando que era “diferente” e que eu não deveria me abrir tanto, pois muitos estão na internet para, perfidamente, acompanhar minha vida, vibrar com minhas desgraças e ignorar meu sucesso e louros.

O amigo em questão conheceu minha mãe e até o seu afeto conquistou!

Nunca “deitou-se” comigo, por outro lado teve, de mim, consideração e afeto: o que são, afinal, o despir de roupas e uns orgasmos perto do despir a alma, caro leitor?

A princípio nada ocorreria entre nós, pois, ao contrário dos “outros” homens ele não seria capaz de trair a esposa e, para ficar comigo, deveria estar separado dela. Logo, apenas vivenciamos um jantar, uma visita em minha casa, outra à minha mãe em nossa loja, uma manhã num clube e um segundo almoço.

Eu acreditei no que ele me dizia e achava que, todo sábado em que ele saia “fugido” da minha casa, era porque não queria cair na tentação da infidelidade. Achava aquilo meigo e romântico, tal qual eu sou. (Sim, no fundo no fundo e agora bem no raso: frise-se que eu sou!).

Embora, desde o primeiro encontro eu tenha lhe achado estranho, apesar de atraente e muito articulado, passei a crer em sua sinceridade, até porque suas palavras corroboravam a boa impressão que eu nutria. 

E foram muitas conversas virtuais! Foram muitas palavras que, agora sei, foram jogadas ao vento.

Todavia, ocorreram beijos e, após eles, era comum algo íntimo vir a ocorrer entre duas pessoas adultas e maiores de idade.

Mas ele fugiu novamente e não me contou que era sexualmente impotente.

Segundo ele isso se deu graças ao fato da esposa ser demasiado fria com ele.

Esposa com quem ele está há praticamente duas décadas!

Disse isso para mim- que estava confusa em meus pensamentos numa tarde ébria de domingo-, após ele ter saído correndo da minha casa na véspera. 

Senti nojo.

Nojo, raiva e sabe-se lá mais o que!

Até então, no entanto, eu acreditava nas dificuldades conjugais que ele me narrava, principalmente, via WhatsApp e não pessoalmente, como preferia dizer-me suas palavras doces de paixão.

Incrível como uma relação desprovida de contato físico e sexual pode nos afetar tanto!

Essa pessoa me fez desconfiar de todos que me acompanham em redes sociais, muito embora, até hoje, eu não saiba o nome dele on-line ou, mais especificamente, o perfil que ele usa para me stalkear.

Nunca transamos.

Nem perto disso.

Mas, num período horrível da minha vida, esse ilustre desconhecido aproximou-se amigavelmente de mim e da minha família (mãe), expôs-se e conquistou a nossa confiança.

Algo tão difícil de ser conquistado!

Sequer os profissionais que pago para isso conseguem fazê-lo, mas ele conquistou minha amizade num período que eu precisava de um amigo.

O cara que sempre frisava o quanto valorizava a minha autenticidade nunca me contou nada verdadeiramente íntimo a seu respeito. E, quando pôde, valeu-se das justificativas típicas de qualquer covarde para justificar a mantença do “status quo”.

Como estou hoje?

Feliz, pois contrariando o que tanto ouvi de seus lábios aptos à mentira: estou me “expondo” de novo! Ou melhor, estou fazendo catarse pela escrita, coisa que sempre me fez muito bem.

Autores escrevem por amor a escrita e necessidade psíquica, não para conquistar aplausos alheios. Escritores escrevem para mexer com os nervos das pessoas, para incomodar-lhes, não para agradar a massa. Do contrário a escrita seria inócua! Infelizmente, por algum tempo afastei-me de mim, pois entretida na lábia desta criatura obscura. 

Estou, porém ciente de que nada pode ser mais perigoso e passível de usurpação, decepção e dor do que dar a nossa confiança genuína para alguém. E esse texto é sobre isso!

É sobre estar frágil, perdida e frustrada e ser atraída pelo ombro amigo afável que, querendo ou não, lhe expõe a maldade do mundo, enquanto oculta a sua: não lhe “dá” nada de superior em troca, pelo contrário, mostra ser só mais do mesmo com pitadas de psicopatia! 

Era apenas um cara bonitão que criticava meus nobres clientes e deles distava por uma questão que nada tinha a ver com superioridade ética e moral, pois era meramente física e/ou psicológica: a falta de potência sexual.

Essa história lhes parece tragicômica?

Pois a mim parece!

O único homem que conheci nos últimos 3 anos e que parecia ser “diferente” dos demais, era sexualmente inábil.

E, sim, volto a expor o que sinto, penso e vivo nessa vida, porque se o que coloco no papel servir para uma única pessoa não se sentir só neste mundo insano, eu me considerarei realizada.

Essa é a base da vida de todo escritor: tocar uma alma!

Sei, hoje mais do que nunca, que não serão os sentimentos, as energias ruins e as palavras do hater que mora longe de mim que me farão sofrer, chorar e desconfiar da humanidade. O que faz isso são as palavras e a presença de um amigo que diz que ama a minha figura, mas é incapaz de amar a si mesmo.

Quem magoa a nós, escritores, cronistas, “pseudocelebridades” e etc. não são os medíocres que expõe seu ódio na internet, mas aqueles que entram sorrateiramente em nossas vidas e demonstram que, por mais que digam que admiram a forma verdadeira com que vivamos, não passam de mentiras. Mentiras escusas e acovardadas!

Ora, as pessoas nos magoam na medida em que lhes damos confiança e atenção.

Se sinto falta dessa amizade? Claro! 

Sinto falta de ter alguém teoricamente inteligente com quem conversar, sinto falta de ter alguém que aparentemente se preocupava comigo e para quem eu podia contar coisas que não conto para meus parceiros sexuais. Sinto saudades da amizade doce e do é só “amor de amigo”, sem ilusões e sem beijinho na boca! 

Sinto falta do carinho falso que recebi do amigo que me disse uma frase que já ouvi outras vezes na vida, na qual nunca acreditei piamente: “Eu não confio em ninguém!”.

Eu mesma já disse essa barbaridade sem crer no que falava, apenas querendo passar-me por “inabalável”. Coisa que não sou, nunca serei. 

Sou feita de carne, ossos, músculos, desejos, verdade e amor no coração! 

E exatamente por isso confiei nele. 

Confiei em quem não merecia a minha confiança!

Erro meu, não dele.

Ele é só um povero diavolo solitário e infeliz que não pensa no que fala e não sente o que expõe. Uma pessoa que vive em negação e precisa afirmar-se superior aos outros homens para não se sentir tão mesquinho e, literalmente, impotente perante uma mulher que também é fogo!

Se existe algum erro que podemos cometer em fases ruins, esse erro é confiar no que estranhos nos falam.

Mas daí a desconfiar de todos, significaria que somos nós os infelizes sociopatas.

Não, eu não gosto de todos os seres humanos que a vida me apresenta, mas também não desconfio de todos, tal qual o faz o cidadão em questão. O cara que fez pouco caso da minha fé na humanidade!

Posso ser impulsiva e intensa e posso perdoar impulsividade e intensidade, mas não sou mentirosa, falsa e covarde, portanto sim, eu ainda acreditarei que existe, neste mundo, pessoas confiáveis, tal como eu sou confiável.

Não estou sozinha no mundo.

E, você que me lê, também não está só!

No fundo estamos aqui, persistindo e lutando, um dia de cada vez. Nos enganando, confiando e nos decepcionando, mas não enterrados no limbo da desconfiança e da falta de desejo pela vida, pelo amor e pela paixão!

Nós não fomos corrompidos pelo rancor, pelo medo, pelo comodismo e pela prostração acovardada daqueles que julgam quem está dançando na vida, mas nunca se levantam para bailar[1]!

CLÁUDIA DE MARCHI é advogada e acompanhante de luxo


[1] “E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”. Friedrich Nietzsche

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