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O Brasil de Bolsonaro: excelência em brochar pesquisas e pesquisador@s

por Deisy Ventura

Minha vida profissional foi forjada pelo CNPq: fui bolsista de Iniciação Científica durante 4 anos de graduação; de mestrado e doutorado no exterior; hoje sou bolsista de Produtividade em Pesquisa por uma razão simples: sou brutalmente produtiva – além de publicar muito e trazer recursos do exterior para pesquisa, pontuo em todas modalidades de ação docente (ensino, extensão, gestão, edição, difusão etc.). Mas terei minha bolsa cortada este mês, o quinto de um contrato de 36 meses.

Olhar para o lado não ajuda: tive e tenho muitos orientandos e alunos de pós-graduação de baixa renda, cuja vida dura, por variadas razões, não foi capaz de embotar o talento evidente para a ciência. Quando pode, a família ajuda os pós-graduandos, pois as bolsas, especialmente as da CAPES, são de valor modesto considerando os gastos que uma pós exige. Outros tantos não conseguem sobreviver com o valor da bolsa porque são arrimo de família e precisam ter um emprego fora da universidade. Mas seu desempenho, e o proveito que tiram da universidade e dão a ela, infelizmente são, com raríssimas exceções, muito inferiores aos dos bolsistas – e mesmo estes que trabalham fora da universidade quase sempre precisam, ao menos na reta final da tese, licenciar-se do trabalho para concluir uma pesquisa de qualidade.

É o caso de minha orientanda no IRI/USP, Maria Abramo Caldeira Brant, brilhante profissional, que havia acabado de obter a bolsa da CAPES para poder concluir sua pesquisa. Aqui na FSP/USP, como coordenadora do Doutorado em Saúde Global e Sustentabilidade da USP, participei da comissão que destinou, na semana passada, a partir de critérios de produtividade com grade de pontuação rígida, as bolsas que haviam sido liberadas porque seus titulares concluíram o Doutorado recentemente. Foram contemplados os pedidos de excelentes alunas/os nossas que finalmente poderiam se dedicar com exclusividade às respectivas pesquisas.

Estas bolsas, a da Maria, as dos nossos alunos, as de todos os novos selecionados recentemente, foram suspensas pelo governo federal no dia do meu aniversário de 52 anos. São destinos modificados individualmente, é o futuro do nosso Doutorado ultra promissor comprometido, é o destino do nosso país modificado em seu conjunto. Há meses, todos os dias, alguém chora na minha sala, e nos últimos dias têm sido muito difícil não chorar junto.

Chorando ou não, penso que o importante é que não nos deixemos abater. Precisamos encontrar a palavra que seja entendida, a forma de luta que esteja à altura de nosso tempo estapafúrdio, em que a nata da boçalidade e do asco, por vingança e pelo WhatsApp, destrói o que levamos décadas para construir: a nossa autonomia científica e acadêmica. Sem ela, não há soberania possível. Os defeitos que o CNPq e a CAPES pudessem ter seriam ínfimos perto do futuro de Republiqueta de Bananas que nos aguarda, caso esta palavra e este gesto não sejam encontrados.

DEISY VENTURA é professora titular de Ética na Faculdade de Saúde Pública da USP e doutora em direito pela Universidade de Paris 1

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