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Ecos de uma democracia em vertigem (Parte 1)

Por Mauro Gaglietti

Sig, O Rato, está observando o Brasil sendo dividido forçosamente por uma luta de diferentes narrativas, como se essas fossem anular os fatos. O corpo está na sala e tem gente aí que só vê aquilo que quer acreditar,  negando que houve a morte, o assassinato… Milhões sendo devolvidos aos cofres públicos pela busca da Polícia Federal e da Receita Federal, integrantes da Lava Jato. Bolsonaristas e Lulopetistas se merecem e precisam uns dos outros para justificarem sua existência. Aproveitando essa situação artificial e angustiante de um país paciente ao adoecer no entardecer, a efígie da democracia, assim, passa, também, pela percepção de como os brasileiros estão lidando com esse verdadeiro laboratório de trânsito entre o passado e o presente. Refiro-me ao documentário “Democracia em Vertigem”. Recém-lançado pela Netflix (com suas regras rígidas de disputa do mercado capitalista), o referido documentário aborda a polarização política instaurada no Brasil desde o mandato de Luís Inácio Lula da Silva até o atual governo de Jair Bolsonaro. “Eu não sei como isso deve ser contado”. No caso, a diretora do documentário se refere à dificuldade de narrar o que ocorreu no período da ditadura militar até o presente momento. Um dos seus ouvidos encontra-se – amorosamente – ocupado pela voz dos avós, o outro, pelo som cordial de seus pais. A produção narra toda a história até o primeiro mandato de Lula em 2003, passando por sua reeleição em 2006, a posse de Dilma Rousseff em 2011, a chegada de Temer em 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018. “Temo que a nossa democracia tenha sido apenas um sonho efêmero”. É com esta frase que se inicia o documentário em tela narrado e dirigido por Petra Costa. O filme jamais demonstra – com meus aplausos – a intenção de servir como ferramenta de “verdade histórica”, ou seja, um documento de impacto visando corrigir percepções e impor um discurso predominante. A cineasta Petra Costa não participa da raivosa disputa de narrativas da sociedade contemporânea, preferindo uma leitura pessoal das últimas décadas (embora alguns fundamentalistas – de “esquerda” e de “direita’- estejam usando de modo instrumental o documentário como “verdade histórica”). Assumindo sua subjetividade, ela se posiciona enquanto personagem e narradora, ao passo que ao entrevistar a própria a mãe, militante presa pela ditadura, revela os paradoxos de aceitar o fato que os ícones da dita “esquerda” falharam ao roubarem o dinheiro público e de detectarem que os Procuradores da Lava Jato transformaram-se em militantes “tenentistas” da luta contra a corrupção (Tenentismo: movimento político e militar realizado por jovens oficiais brasileiros durante o período da Primeira República. Esse corpo de oficiais era composto, em geral, por tenentes e capitães que estavam insatisfeitos com o sistema político brasileiro, sobretudo com as práticas do jogo político imposto pelas oligarquias que dominavam a política). O recurso à família da diretora produz um efeito interessante: embora se trate de milionários da construção civil, Costa opõe os avós defensores da nova extrema-direita aos pais ativistas de esquerda. O contraste expressa numerosas famílias divididas desde as últimas eleições, ilustrando, portanto, a polaridade atual nas guerras nos grupos familiares junto ao whatsApp. Digo e repito, não é um documentário fundamentalista de gente que teve o bom senso sequestrado pela crença. Em paralelo, após cada cena sobre grupos em apoio à “esquerda”, vemos outra, de proporções equivalentes, em apoio à “nova direita”. Na dimensão individual, Petra lança alguns elementos. O principal deles é a sua própria voz-over, que se afasta das imponentes “vozes-de-deus” em tom “macio”, preenchendo, em certa medida,  a camada sonora com um perfil humano comum. O start que dá a largada refere-se à história da política brasileira ao apresentar um trabalhador que comandou a Greve do Sindicato Metalúrgicos do ABC em 1979, conhecido como Lula, que seria candidato à Presidência da República pela primeira vez em 1989, pelo partido que ele mesmo fundou, o Partido dos Trabalhadores (PT).  Assim, “Democracia em Vertigemelege Lula como protagonista, visto tanto na cena de abertura quanto na conclusão. O ex-presidente é retratado desde os primeiros passos políticos como metalúrgico no ABC paulista até a prisão em consequência de suas práticas de corrupção detectadas pela Operação Lava Jato. Lula torna-se o símbolo da ascensão da classe trabalhadora ao poder, e também a comprovação dos limites da política conciliatória no cenário político nacional. Embora cite Dilma Rousseff, Aécio Neves, Jair Bolsonaro, Gilmar Mendes, Eduardo Cunha e até Juscelino Kubitschek, a película encontra seu motor narrativo na figura de Lula. Ao mesmo tempo, ocorre uma reflexão sobre o choque de perspectivas entre seus pais, antigos militantes de esquerda (sua mãe chegou a ser presa no mesmo local de Dilma), e a tradição de seus avós, ricos empresários da Andrade Gutierrez, uma das empresas denunciadas na Lava Jato. Petra então é herdeira direta desses dois grupos opostos que fracassaram – os militantes de esquerda e a elite empresarial brasileira. A família reunida acaba servindo na verdade como mero entremeio para a principal função do filme: a construção de uma narrativa sobre as transformações do regime político brasileiro, ou ainda, a perda de legitimação do PT e a ruptura da tradição democrática. A forma como Petra constrói essa narrativa macropolítica articula as imagens de arquivo com a própria narração, que, por boa parte do filme, meramente ilustra e costura o que as imagens em si não conseguem propor. Assim, a voz-over, mais do que investir no documentário em primeira pessoa, funciona como alicerce para a corroboração da construção de um discurso sobre o País. É ela quem no fundo apresenta o que é o filme. Sig, O Rato, voltará na próxima semana com mais algumas linhas acerca do que captou nesse belo documentário, do ponto de vista cinematográfico, histórico e pessoal, de alguém que se decepcionou com as alianças estabelecidas pelo PT com o PL, PP e PMDB, adiando seu sonho de concretizar uma democracia possível. Durma com um barulho desses!

MAURO GAGLIETTI é professor universitário, mediador de conflitos e doutor em história pela PUC/RS

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