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Onde vês eu não vislumbro razão

por Miguel Tadeu Vincentim

A questão da esfericidade da Terra possui muitas Histórias.

Se você está em uma praia, tranquilamente poderá observar um barco navegando em direção ao horizonte. Ele vai sumindo aos poucos. Primeiro desaparece o casco da embarcação e lentamente o barco parece “afundar” na linha do horizonte.

Aristóteles, em seu livro ‘Sobre o Céu’ observou e registrou, cerca de 350 anos antes de Cristo, que vemos diferentes constelações no céu dependendo do lugar onde estamos. Um exemplo claro é o Cruzeiro do Sul. Você poderá vê-la no Brasil, mas nunca verá esta constelação nos Estados Unidos ou na Inglaterra.

No Egito Antigo, Erastóstenes, que nasceu em Cirene no ano 276 a.C. e morreu em Alexandria aos 82 anos, observou que no solstício de verão, em Siena (atual Assuão, sul do Egito), ao meio-dia, o Sol não produzia qualquer sombra, mas em Alexandria, há 5040 estádios de distância – quase 800 km – o Sol projetava uma sombra. Ao comparar o tamanho das sombras e através de cálculos matemáticos utilizando o Teorema de Pitágoras (570-495 a.C.), ele conseguiu calcular a circunferência da Terra e chegou a um valor bastante próximo: 252.000 estádios, ou 39.740 quilômetros. A circunferência da Terra é de 40.750 quilômetros.

Algo mais raro é a observação de um eclipse da Lua quando podemos observar a forma da sombra que “esconde” a Lua. Os gregos na Antiguidade já se permitiam esse olhar. Ou sejamos mais bucólicos: observar o horizonte em cima de uma árvore, ou uma experiência mais divertida, observar o horizonte em uma Roda Gigante.

Tudo depende do alcance do seu olhar.

Entre os séculos XV e XVI a civilização ocidental passou por uma mudança que depois chamamos de Revolução Científica. Um dos efeitos mais importantes desta Revolução foi diferenciar a Ciência da Religião.

Até aquele momento, os fenômenos da Natureza eram justificados através da fé e da tradição das religiões. Assim, a forma da Terra era justificada por versículos da bíblia como Apocalipse 7:1, em que João diz: “Depois disso, vi quatro anjos, um em cada canto da Terra”. Com a Revolução Científica os fenômenos da Natureza passam a ser analisados com outros olhares e instrumentos: a observação e a matemática.

Assim, Galileu Galilei nascido em 1564 na cidade de Pisa, atual Itália, estudando livros de ótica, construiu a primeira luneta de que se tem notícia na História. Com a luneta Galileu observou a Lua e constatou que ela não era feita de éter, como se acreditava até então. Ele observou algumas “estrelas” como, por exemplo, Vênus, e constatou que havia uma grande diferença entre Vênus e Alfa Centauro. Vênus não era uma estrela, mas sim  um planeta. Quando o papa Urbano VII ficou sabendo desta notícia, enviou um cardeal para averiguar o que estava acontecendo. O cardeal, ao observar a Lua e Vênus através da luneta de Galileu, constatou que ele estava certo. Mas o papa não acreditou nas evidências e declarou que a luneta era um instrumento do diabo, que fazia as pessoas verem coisas que não existiam. Assim Galileu foi sentenciado a calar-se.

Nicolau Copérnico, nascido na Prússia Real, atual Polônia, em 1473, estudava a matemática dos gregos e egípcios antigos. Ele também se preocupava com os cálculos feitos pelos navegadores que desbravavam os oceanos. Naquele momento os cálculos eram bastante complexos, pois se baseavam em uma Terra plana e fixa, com as estrelas e constelações em movimento. Baseado em seus estudos ele escreveu o livro “De revolutionibus orbium coelestium” (Sobre as revoluções das esferas celestes) no qual representava uma nova forma de cálculo, muito mais simples, menos susceptível a erros de cálculos, garantindo mais segurança aos navegadores. Na apresentação de seu livro, Copérnico afirma que se trata apenas de um “livro de matemática”.

Para um bom navegador, o cálculo era exato. “Graças a Deus” o papa não sabia nada de matemática e o livro que permitiu a Cristovão Colombo, em 1492, e Fernão de Magalhães, em 1521, realizarem suas viagens, não foi censurado.

Olavo de Carvalho está certo quando diz que, segundo sua observação, não é possível dizer que o terraplanismo seja uma tese equivocada. Tudo depende da observação. Para alguns olhares a Terra sempre será plana; para outros, o Universo continuará sendo infinito.

Miguel Tadeu Vicentim é professor de História na Rede Municipal de São Paulo/SP.

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