ARTIGOS

Nossos corpos dóceis e precários

por Rafael Zen

“Nossa precariedade depende em grande medida da organização das relações econômicas e sociais, da presença ou ausência de infraestruturas e de instituições sociais e políticas de apoio. A precariedade não pode ser dissociada da política de organização e proteção das necessidades do corpo. A precariedade expõe nossa sociabilidade, as dimensões frágeis e necessárias da nossa interdependência”

– Judith Butler em “Corpos em aliança e a política das ruas” (2018)

O conceito da docilização dos corpos em Michel Foucault considera que o poder é tramado junto ao saber. Isso significa dizer que a verdade, bem como as ficções de si, pertence não apenas ao campo linguístico, mas ao campo político.

É compreendendo que as influências, coerções e desvios possíveis daqueles que exercem poder sobre nós influenciam diretamente na maneira como é conduzida a realidade dos nossos corpos que Foucault argumenta sobre a impossibilidade de autonomia entre os saberes e os poderes. Nessa ótica, a realidade é algo ao qual é preciso fabricar-se.

Também é correto afirmar que o poder não emerge da teoria foucaultiana como algo exclusivo do Estado, mas como uma manifestação múltipla e complexa, tanto sob formas locais quanto globais, em aspectos massivos ou microfísicos. Nenhum corpo (com raras exceções) está fora do campo do poder, pois se trata de uma cadeia de relações em menor ou maior escala, podendo-se investigá-lo como uma tecnologia de controle dos corpos, dos gestos, das atitudes, dos comportamentos e hábitos dos sujeitos.

Se o corpo-máquina da Revolução Industrial é uma redução materialista da alma, é justamente porque prevê uma teoria geral do adestramento: a criação de corpos dóceis que são analisáveis e manipuláveis, pertencentes aos sujeitos que podem ser submetidos, utilizados, transformados, aperfeiçoados e adestrados para o melhor funcionamento do sistema operário. Nessa visão, o corpo está preso no interior dos poderes e enquanto a vida for sustentada pelo ciclo infinito do “produzir & consumir”, ainda serão necessários corpos que obedeçam a essas exigências.

O corpo contemporâneo é aquele da sugestão ininterrupta, envolto de produtos discursivos autoritários e disciplinares. Aqui, entendem-se como disciplinas as forças que impõem relações de docilidade/utilidade a ele: as instituições, as correntes de pensamento, a moral e os bons costumes, a ética, as artes. Diferente do corpo escravo e do corpo doméstico, o corpo disciplinado visa não unicamente o aumento de suas habilidades, mas a formação de uma relação que o torna tanto mais obediente quanto útil.

Para Foucault, é notável que na contemporaneidade se percebam políticas de coerção aos corpos dos outros – dos marginais, dos desvios no padrão, dos anormais, das anomalias do sistema. Os corpos abjetos, sem face, sem história, reduzidos a estereótipos que marcam, determinam e, por fim, aprisionam a vida em guetos que comumente chamamos de “outros corpos”. Eis que, como sugere Judith Butler em seu novo livro “Corpos em Aliança e a Política das Ruas” (2018), assistimos hoje a revolução dos corpos precários.

Pela sua nova teoria, um corpo precário é todo aquele que dá forma às populações excluídas pela longa trajetória de poder piramidal que institui seu topo enquanto classe, raça, sexualidade e gênero. Nele, os poucos homens héteros, brancos, machistas, ricos e disciplinados (nem todos, mas muitos) erguem hierarquias da fala, dos modos, das percepções e das realidades.

A teoria butleriana é clara: muitas exclusões foram e ainda estão sendo feitas sem o conhecimento de que estão sendo feitas. Ao aproximarem-se corpos psiquicamente dóceis de leis, tradições e lugares-comuns que tornam sua condição social e política precária, torna-se a exclusão de certas populações (sempre pré-julgadas, sempre pré-determinadas) algo naturalizado.

Deste modo, o preconceito com o corpo alheio transforma-se no “estado das coisas”, visto não como um problema à democracia, mas como uma visão cultural cristalizada. Por isso, nos chocamos tanto quando assistimos pela televisão, Youtube ou Whatsapp esses mesmos corpos em estratégias de contra-ataque.

Nesse novo livro, Butler defende o termo corpo precário quando percebe corpos que se aglutinam em interseccionalidades que encaram lutas democráticas temporariamente abertas. Para ela, existem modos de expressar e demonstrar formas de liberdade expressiva. É sobre esses sujeitos que se manifestam nas ruas por melhores condições de vida que ela escreve, dando vez e voz a quem encontra portas fechadas nos espaços democráticos tradicionais.

Pautada por uma teoria do afeto, a autora ainda afirma que ser um corpo precário implica na sensação de ser dispensável para a coletividade. Para esse novo momento desses novos corpos – múltiplos de identidades subalternas pela ótica do binarismo compulsório – a situação história concebe novas ações plurais e corpóreas, agrupamentos de indivíduos que se atraem por identidades similares e colecionáveis.

Butler, então, afirma que a precariedade dos corpos depende em grande medida da organização que o sujeito tece entre as relações econômicas, simbólicas e sociais, levando em consideração a presença ou ausência de infraestruturas e instituições políticas de apoio. Sabendo-se que surgem no momento contemporâneo assembleias repentinas que dizem não serem descartáveis, essa possiblidade de expressão deve ser encarada, então, como parte de uma participação democrática e plural marcada por dependências e resistências.

Saber-se dentro das palavras, enxergar-se a partir de outras vozes, conseguir transitar entre os papéis de sujeito leitor do mundo e sujeito autor da consciência de si pode fazer parte dos objetivos dessas novas manifestações que emergem em escala progressiva desde o marcante 2013.

Eis que a autora também evoca pensamentos sobre uma ética universal para esses corpos precários. Afirma, resgatando conceitos de seu “Problemas de Gênero” de 1990, que além de uma heterossexualidade compulsória ou de uma compulsão à tradição falocêntrica, também existe no campo social um caráter irreversivelmente plural da população que habita a Terra: a convivência compulsória.

Eticamente, como corpos dóceis, precários ou privilegiados, devemos pensar na liberdade como uma ação plural dos sujeitos, pois a diferença é a condição irreversível de nossa vida política e social. Devemos conceber instituições e políticas que preservem e afirmem, de maneira ativa, a possibilidade de uma convivência plural. Buscando correlacionar pensadores de tempos distintos como Lévinas e Hannah Arendt, a pesquisadora ainda defende que a alteridade desse corpo “outro” faz reinvindicações éticas sobre o “eu” complexo.

O que Butler parece supor é que somos constantemente interpelados por múltiplas ideologias, por inúmeros discursos que chegam até nós por múltiplas vias midiáticas e de encontro. A rua, portanto, pode ser esse espaço de interpelações quando assume para si um caráter ético e político. Nesse sentido, pode-se imaginar que o confronto seja, mais do que um espaço temático para catalogações, um espaço de reinvindicações éticas sobre novas formas de vida e novos modelos de corpos.

Se for incômodo alguém invisível tornar-se – “do dia para a noite” – um corpo inevitavelmente real, isso demonstra apenas que o século XX não conseguiu curar as chagas das identidades fixas e dos sistemas radicalmente impostos sobre as condições plurais de qualidade de vida. A partir do crescente estímulo ao consumo e à democracia dos poucos, criamos condições de privilégio e diferenciação.

Que o século XXI seja, finalmente, o momento da equalização dos poderes e da emancipação do sujeito da estrutura radical dos corpos.

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