ARTIGOS

Entranhas do machismo

por Larissa Zucco

[…] sexo exige o consentimento dos dois

Se uma pessoa está ali deitada sem fazer nada

Porque não está pronta

Ou não está no clima

Ou simplesmente não quer

E mesmo assim a outra está fazendo sexo

Com seu corpo isso não é amor

Isso é estupro”

Rupi Kaur – Outros Jeitos de Usa a Boca

Discutir sobre o machismo e a interferência dele na sociedade abre portas (janelas, piscinas e se duvidar até um portal mágico) para tantos assuntos que poderíamos criar uma nova enciclopédia só falando o óbvio: homens não são superiores às mulheres.

O machismo é uma flor tóxica, cultivada em muitos jardins externos e internos. Há discursos que estão enraizados no sujeito, na família e na sociedade e são reproduzidos com naturalidade, fazendo com que novas mudas dessa planta tóxica sejam plantadas e replantadas nos jardins da psique.

Na teoria analítica junguiana, muito se fala na presença e influência do inconsciente coletivo, das imagens herdadas, dos mitos, dos ritos e na funcionalidade primitiva que rege a existência humana através desse inconsciente coletivo. Podemos analisar a forma tóxica do machismo quando analisamos, a título de exemplo, a Grécia antiga.

A necessidade de poder e de governança, a atribuição da racionalidade e do poder estrutural, a prevalência do logos e a desvalorização das emoções e sentimentos, a ridicularização dos ritos à Deusa, a divisão da Grande Mãe, fez com que o Olímpio passasse a ser governado por deuses homens e atendesse as necessidades masculinas, regidas, basicamente, pelo pênis.

Tantas são as histórias mitológicas de estupro, assédio, importunação, perseguição, de mulheres amedrontadas, sequeladas e/ou mutiladas pelo ‘poder’ masculino que é possível Ver através do espelho a nossa própria sociedade. E, para justificar todo e qualquer ato estúpido, grosseiro, babaca ou repulsivo da figura do homem, é simples: culpe a mulher!

O mito de Medusa muito ensina quando analisado para além da figura monstruosa cuja qual ela é conhecida, vítima de um estupro e ainda punida por sua beleza (punição vinda de Atena – outra mulher). A jovem foi julgada por ter se aproveitado da situação, como se ela sozinha tivesse desejado tudo que lhe ocorreu.

Na sociedade, é comum ouvirmos histórias sobre vítimas de abusos sexuais e estupros e automaticamente alguém próximo verbalizar: “ah, mas também estava pedindo, né!? Olha a roupa que estava usando. Olha onde ela tinha ido. Você viu o horário em que isso aconteceu? Lógico que só poderia resultar nisso! Não foi criada direito” ou então, ainda mais cruéis: “Mereceu, ela estava se achando demais mesmo. Agora ela aprende a não ser mais tão biscate. Bebeu tanto que daria para qualquer um e ainda vem dizer que foi estupro”.

Como dito anteriormente… Culpabilizar a mulher parece ser o mais fácil, mais prático e também o mais lógico. Para que gastar tempo mudando o pensamento de uma sociedade toda? Para que responsabilizar a figura que nunca antes foi responsabilizada? Afinal, é só não abrir as pernas.

Discutir sobre gestação e maternidade direta ou indiretamente implica na noção do papel social exercido pela mulher na sociedade. A construção do feminino e do poder de voz da mulher na sociedade é uma obra que ainda não está completa, finalizada. Constantemente ela sofre ataques, quebram muros, derrubam paredes, destroem portas e janelas. Mas quem paga o prejuízo desses ataques?

Diariamente nos deparamos com bordões machistas, sexistas e misóginos. Não é em um universo paralelo que isso ocorre, é a nossa realidade. É no cotidiano que essas violências acontecem e normalmente não são acompanhadas de uma agressão física – para facilitar os processos e medidas restritivas. Muitas delas são violências psicológicas, emocionais, de ameaças a integridade ou a carreira e/ou de ridicularização e humilhação.

Levando em consideração esse cenário caótico, ameaçador e destrutivo, se questiona: Como pensar em planejamento gestacional? Como perguntar em um flerte o famoso ‘e se’? E se a camisinha estourar? E se o anticoncepcional falhar? E se o DIU não funcionar? E se não for consensual? Como perguntar para um estuprador se ele será um pai presente?

No Brasil, somente em 2019 foram registrados 66.123 boletins de ocorrência em delegacias de todos país devido a estupro e estupro de vulnerável. Tais dados representam a média de 1 estupro a cada 8 minutos[1]. Sendo que, pelo menos 56.667 registros são referentes às vítimas de gênero feminino, ou seja, 85,7% dos casos registrados[2].

Em 2020, foram registrados aproximadamente 60.926 casos de violência sexual, sendo que pelo menos 44.879 são estupro de vulnerável onde 60,6% das vítimas tinham no MÁXIMO 13 anos, contendo ainda mais agravante de que em 80% dos casos, o autor do crime é conhecido/familiar[3].

E mesmo apresentando dados, estatísticas, registros, o machismo ainda olha na cara das mulheres e diz “deu porque quis”, “abriu as pernas agora aguenta”, “quando estava no bem bom não reclamou”.

E então o “bendito” fruto surge[4]. O embrião que logo vira feto, o feto que vira bebê e o bebê logo será um recém-nascido. A maternidade normalmente já é um poço de culpa. Nasce uma mãe, logo nasce a culpa. Esse é o ponto focal desse trabalho. A culpabilidade da mulher e a desresponsabilização do homem frente a gestação.

Estima-se que mais de 60% das gestações não sejam planejadas, o que não significa dizer que não são desejadas, entretanto, surgem sem ser programadas pelo casal. Segundo uma pesquisa da Bayer, em parceria com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e realização pelo IPEC (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) “cerca de 62% das mulheres já tiveram pelo menos uma gravidez não planejada no Brasil”[5], percentual esse que ultrapassa a taxa média mundial de gestações não intencionais (40%).

A participação e a responsabilização do homem na parentalidade é um fator que ainda tem muito pouco espaço na sociedade. Nota-se que a cobrança da gravidez para a mulher, mãe, é muito mais forte e presente no que no caso do home, pai. O pênis precisa ser satisfeito, o gozo precisa existir, a porra precisa ser ejaculada. Mas precisa ser dentro de uma vagina e sem camisinha?

O homem não é culpado por ter prazer, mas a mulher é condenada por “abrir as pernas”, repercutindo na construção de um pensamento social cultural de que a sexualidade feminina deve ser repreendida, escondida, ignorada. A sexualidade é um fator de proteção, é um fator de autoafirmação, de segurança, de controle, de autoestima, de oportunidade e de PRAZER!

A educação sexual é algo que deve estar na grade escolar desde o primeiro ano e como uma matéria própria – não como uma extensão das aulas de ciência e biologia -, ensinando as crianças o que é o corpo humano, partes íntimas, higiene, quem pode tocar em seu corpo e em quais situações isso é adequado, proteção, integridade e a dignidade da criança, do adolescente, adulto e idoso, prevenção a comportamentos de abusos e crimes sexuais, sexualidade, prazer, gravidez, parentalidade, métodos contraceptivos, DST’s e IST’s, primeira relação sexual, pressão social pela perda da virgindade, etc.

O relatório da UNFPA aponta que a gravidez na adolescência ocorre tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Os níveis diferem bastante, apesar de os determinantes serem semelhantes. […] Em países desenvolvidos, observa-se que os gastos por aluno em educação são extraordinariamente superiores. Enquanto o Brasil, em 2011, gastava R$6.789,00, os países desenvolvidos investiam R$20.360,00, impactando em diversos fatores. Um dos impactos mais relevantes é o retrocesso no número de abortos em países desenvolvidos, diminuindo 40% desde os anos 1990. Essa queda deve-se a um melhor nível de educação e acesso aos métodos contraceptivos[6].

Tais fatores são essenciais para que os índices de gestação não planejada se tornem menos frequentes, e que principalmente a gravidez na adolescência se tornem efetivamente casos isolados. Ressalta-se ainda que deve se pensar e ensinar a impor limites com relação ao nosso próprio corpo, sinalizando o desconforto – por exemplo em casos em que uma das partes não se sinta confortável com a relação sexual; a repulsa e a denúncia sem medo de retaliação – em casos de abusos e violência moral/física e sexual; e obrigatoriedade da proteção em todas as relações – não como um algo catastrófico, mas como um ato de consciência e responsabilidade daqueles que desejam ter uma relação sexual.

Não menos importante, ainda há um outro fator que corrobora para essa discussão: os erros do método de contracepção. Muito se culpa os métodos contraceptivos, como por exemplo erros ou a má utilização desses, ou ainda o desconhecimento de alguns métodos como, por exemplo, a pílula do dia seguinte.

Muitas jovens não fazem ideia do que acontece em uma relação sexual, porque a educação do menino é totalmente diferente da educação da menina. Muitas meninas, em sua primeira vez, não fazem ideia que o orgasmo do homem é externalizado através da ejaculação. Novamente, a educação sexual é essencial. Como prevenir se eu não faço ideia do que acabou de acontecer?

E se formos pensar enquanto pessoas conscientes e da comunidade científica, quem transa contando com o azar? Quem tem a conversa do “e se” antes do sexo? Quem tem a consciência limpa para falar que usou proteção em 100% das suas relações sexuais?

Por fim, precisamos pensar e evoluir nosso pensamento e consciência cultural – e também desenvolver um semancol social – de que a mulher não faz filho sozinha. Já ultrapassamos a marca da ciência que prova isso. A mulher pode muito bem gozar sozinha, enquanto está em seu período fértil e ovulando, que não vai engravidar. Onde está a outra parte que fugiu dessa conversa?

LARISSA ZUCCO é formanda em Psicologia pela Universidade do Contestado e pesquisadora do fenômeno da violência doméstica


[1] https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia-em-dados/1-estupro-a-cada-8-minutos-e-registrado-no-brasil/ Acesso em:23/11/2022

[2] https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/07/14-anuario-2022-violencia-sexual-infantil-os-dados-estao-aqui-para-quem-quiser-ver.pdf Acesso em:23/11/2022

[3] https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/07/7-os-registros-de-violencia-sexual-durante-a-pandemia-de-covid-19.pdf

[4] https://emporiododireito.com.br/leitura/sejamos-as-loucas-que-gritam

[5] https://www.bayer.com.br/pt/blog/gravidez-nao-planejada-atinge-62-mulheres-brasil

[6] FLORIDO, Carla Cíntia Mendonça. Adolescência, sexualidade e gravidez não planejada: desafios e consequências. Mundo Livre: Revista Multidisciplinar, v. 5, n. 1, p. 3-26, 2019. Disponível em: <https://periodicos.uff.br/mundolivre/article/view/39974/23048&gt;. Acesso em: 23/11/2022.

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