ARTIGOS

Mulheres pelo direito de existir

por Monique Bonomini

Quando Simone de Beauvoir afirmou que numa crise os primeiros direitos ameaçados são os das mulheres, ela sacramentou uma lógica perversa de como o mundo moderno funciona.

No período da segunda guerra mundial, a propaganda nazista[1] incitava as mulheres a serem donas de casa modelo e dar filhos, muitos filhos para a Alemanha. Só assim as forças militares teriam braços o bastante para ocupar o mundo. Era comum ver Hitler cercado de oficiais exibindo uma imensa prole e ao centro a esposa eficiente.

Já os aliados[2], incentivavam as mulheres a trabalharem para fazer girar a economia da guerra, as fábricas disponibilizavam creche, refeitório e outros incentivos para que as mulheres ocupassem o lugar dos homens na produção de bens. Na Inglaterra havia deslocamento de mulheres para áreas agrícolas para o cultivo dos campos e nos Estados Unidos o célebre cartaz da mulher vestindo um macacão de serviço[3] faz parte da iconografia feminista até hoje.

Na União Soviética, onde o regime era pretensamente igualitário, as mulheres eram bem recebidas no exército. Svetlana Aleksievitch na obra A guerra não tem rosto de mulher[4], traz os relatos das combatentes soviéticas, sua determinação, aplicação e desempenho no front, mesmo que as forças militares sequer tivessem se preocupado em oferecer calcinhas às recrutadas, que recebiam a mesma indumentária masculina e logo usaram cuecas durante seu período no front e bandagens para dar sustentação aos seios.

Contudo, encerrado o conflito mundial, a vida das mulheres precisou seguir as novas diretrizes para seu gênero, as que moravam em áreas ocupadas por alemães e acabaram se envolvendo com os soldados inimigos foram as primeiras a serem lembradas de sua frágil posição na organização social, tiveram seus cabelos raspados, passaram por uma sessão de achincalhamento público e muitas inclusive perderam suas propriedades naquelas comunidades[5].

Aquelas que serviram à guerra de uma forma ou de outra, tiveram que voltar para o acolhimento do lar e devolver os postos de trabalho aos seus legítimos donos, além de serem estimuladas a resgatar sua feminilidade[6]. Era importante que fossem boas esposas, acolhendo seus maridos com comida na mesa, filhos bem educados e sem preocupação. Um cenário não muito parecido com o que elas viveram enquanto o mundo combatia.

Quanto as soviéticas, elas receberam inúmeras condecorações do Estado, foram homenageadas por sua atuação no front, porém, de acordo com os relatos do livro de Aleksiévitch, a sociedade via com maus olhos as ex-combatentes, que eram acusadas de irem para guerra como se fossem devassas. Em seu retorno, eram tratadas como se tivessem ido atrás de sexo e libertinagem e não combater numa guerra de proporções nunca vistas, fazendo com quem muitas inclusive se envergonhassem de suas medalhas e fossem rejeitas por suas famílias.

Atualmente, vivemos o que algumas estudiosas convencionam chamar de uma nova onda feminista. É inegável a proporção que o debate em torno da questão da mulher no mundo tomou. Ressalvada a necessidade de observar a interseccionalidade que atravessa esta luta, as pautas centrais de reivindicação desta nova onda, são a urgência na criação de aparato legal que dê a mulher o direito sobre ao próprio corpo e que ponha fim a feminização da pobreza, promovendo a equidade salarial e o reconhecimento do valor do trabalho de cuidado, pautas sobre as quais orbitam muitas outras.

Porém, acontecimentos recentes mostram que se de um lado as mulheres avançaram em direitos, de outro aquele que talvez é o seu direito primordial, ainda continua precário, seu direito de existir.

Uma mulher assediada sexualmente foi condenada ao açoite por denunciar seu agressor[7]. Num outro caso, ainda mais repugnante, mulheres de uma fila de refugiados de guerra foram vítimas de assédio de um homem que cruzou continentes para degradar ainda mais as vítimas de um conflito[8] que o mundo assiste estarrecido.

Quando concebeu a obra O segundo Sexo, Simone de Beauvoir mostrou que a mulher é o outro num mundo concebido exclusivamente para o dispor masculino, e os fatos recentes indicam que ainda há uma imensa jornada para superar essa barreira. Enquanto isso não acontece nenhuma conquista feminina será definitiva. Enquanto o direito humano de existir não estiver assegurado a todas as mulheres, elas ainda serão o outro a serviço do homem.

Parafraseando Angela Davis[9], é preciso que todos aqueles que enxerguem a perversidade do sistema patriarcal com as mulheres se movam contra ele, pois só assim a sociedade se moverá também rumo a equidade de gênero com a conquista do pleno direito de existir das mulheres.

MONIQUE BONOMINI é advogada e professora de história


[1] Acesse: https://super.abril.com.br/historia/nazistas-davam-medalhas-as-mulheres-que-tivessem-muitos-filhos/

[2] Acesse: https://historiahoje.com/a-participacao-feminina-na-segunda-guerra-mundial/

[3] Acesse: https://capricho.abril.com.br/comportamento/a-historia-real-da-famosa-pin-up-do-cartaz-we-can-do-it/

[4] Aleksiévitch, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

[5] Acesse: https://brasilescola.uol.com.br/historia/as-mulheres-as-purgas-legais-na-franca.htm

[6] Acesse: http://almanaque.folha.uol.com.br/anos50.htm

[7] Acesse: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2022/02/21/mexicana-e-condenada-a-100-chicotadas-apos-denunciar-abuso-sexual-no-catar.htm

[8] Acesse: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2022/03/06/comentarios-sexistas-de-deputado-arthur-do-val-tem-repercussao-internacional.htm

[9] Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo. Editora Boitempo, 2016.

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