ARTIGOS

Racismo na UFBA

por Henrique Saldanha

Em 2012, eu era Professor substituto na UFBA e ouvi de uma professora branca: “Esse rapazinho é mesmo Professor da faculdade de Medicina?”

Em 2012, e eu era Professor substituto da UFBA, e ouvi de uma servidora técnica administrativa, que eu “não tinha cara de Professor”.

Em 2013, numa banca de Professor efetivo, composta por professores brancos, eu ouvi “Você é um bom candidato, tem uma bela trajetória na área do concurso, mas precisa ganhar mais ‘maturidade’ para chegar a ser professor efetivo da UFBA”

Em 2014, após passar em duas seleções de Doutorado, uma delas no único Programa de pós-graduação nota 7 da CAPES no Nordeste, ouvi que eu era uma pessoa sortuda.

Em 2014, eu era tutor de um curso de Especialização da UFBA (nome bonito para Professor com contrato precário) e apoiei uma chapa nas eleições da APUB. Ouvi de uma professora branca que “minha postura não era digna de um Professor da UFBA.”

Em 2017, já Professor efetivo, Doutorando, orientando TCC e Extensão, tive que ler um parecer que dizia que eu “não tinha perfil para ser Professor em Regime de Dedicação Exclusiva da UFBA”.

Em 2017, tive que ouvir de um colega que eu “estava parecendo um professor”, por ter ido a uma banca de TCC com uma camisa longa com botões.

Em 2018, tentando resolver um processo de Dedicação Exclusiva que se arrastava no tempo sem solução, fui olhado de cima a baixo e tive que ouvir de um Professor branco: Você é Professor efetivo? Efetivo do quadro permanente?”Em 2018, eu quase perco a participação num Projeto Multicentrico, financiado pelo CNPQ, porque “A Universidade não pode sair dando termo de anuência pra qualquer um, em projetos com financiamento”


Em 2020, eu ouvi (por terceiros) que eu não poderia ser coordenador de colegiado de curso, pois “iria destruir o curso” do qual sou docente efetivo, ao qual me dedico há 4 anos cumprindo com todas as minhas obrigações. Hoje, 25/11/2020, 5 dias depois do Dia da Consciência Negra, eu tive que ler num debate, que era “intrigante a forma DICOTOMIZADA de como eu entendia a realidade.” Que eu só enxergo “Ou isto ou aquilo”.

Uma das coisas que me motivam a lutar, é construir um caminho para que os que vierem depois de mim, não precisem ter a sua capacidade intelectual colocadas em questão todos os dias na Universidade. 

Dizem que eu vejo RACISMO em tudo. E eu só consigo me perguntar: Como é que as pessoas conseguem fingir que não enxergam o Racismo batendo em nossa cara todos os dias?

Eu não cheguei até aqui para ter minha capacidade intelectual contestada dessa forma. Eu não fiz o esforço de romper com a lógica biomédica de pensar, me apropriando das Ciências Sociais em Saúde no Mestrado e Doutorado, estudando e me dedicando a entender a teoria crítica e o método dialético pra ser julgado como alguém sem capacidade de pensar e interpretar o mundo levando em consideração sua complexidade, suas contradições. O Racismo tenta todos os dias nos fazer acreditar que somos incapazes, impostores, que ocupamos um lugar que não é nosso. Mas não será mais assim! Há um tempo atrás eu assumi comigo mesmo o compromisso de que eu passaria a reagir a cada situação cotidiana de racismo, seja ela expressada no seu caráter mais estrutural, institucional, nas ações de preconceito e discriminação ou nas tentativas de me fazer acreditar de que eu e meus e minhas irmãs negrxs somos menores ou incapazes!
Basta!


“Se Palmares não vive mais, faremos Palmares de novo!”

HENRIQUE SALDANHA é Doutorando em Saúde Pública pelo Instituto de Saúde Coletiva ­ ISC/UFBA. Mestre em Saúde, Ambiente e Trabalho pelo Programa de Pós­-graduação em Saúde, Ambiente da Faculdade de Medicina da Bahia – UFBA. Desenvolve pesquisa em Saúde e Trabalho. Docente do curso de Fisioterapia da Universidade Federal da Bahia. 

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