ARTIGOS

Desordem ética dos cristianismos no Brasil

por Marcus Vinicius de Souza Nunes

Estamos até nos acostumando com as muitas notícias sobre líderes cristãos envolvidos nos mais absurdos escândalos no Brasil de Bolsonaro. Claro, escândalos de pedofilia, desvios de dinheiro, abuso da má fé da boa gente (sobretudo da pobre boa gente) não chega a ser uma novidade. O que assusta é o hediondo dos crimes, a trama quase novelesca de alguns casos e a simbiose entre poder público e as igrejas cristãs que nos leva até duvidar da real laicidade do estado.

Dizemos que não chega ser uma novidade… sim, mas há algo novidadeiro nisso tudo. Comecemos pelo já conhecido. A simbiose, os negócios veniais entre o poder público e líderes religiosos com certeza nos é conhecido. O teólogo protestante Harvey Cox em O futuro da fé nos lembra que uma burocracia eclesiástica muito cedo se instalou na Igreja, o que ele chama de ascensão da casta clerical. Isso não é privilégio da Igreja Católica Romana, certamente mais hierarquizada e com um ordenamento jurídico mais rígido. Também a Igreja Protestante, nas suas múltiplas vertentes, nunca chegou a abolir por completo a burocracia. 

No Brasil, como nos recorda o sociólogo Sérgio Miceli em A elite eclesiástica brasileira, nem mesmo a pretensa separação entre Estado e Igreja com o início da República impediu os negócios entre ambos. Ao contrário, Miceli insiste que a República regionalizou esses relacionamentos, permitindo que cada bispo negociasse em sua Província (posteriormente Estado) com as autoridades locais.

Quanto a isso, o bastão passou de mão apenas. A ascensão das igrejas neopentecostais foi acompanhada por uma inserção cada vez maior de seus membros na esfera pública através da ocupação de cargos eletivos e comissionados. Mesmo a venialidade das negociatas não deve nos espantar, pois aprenderam de um passado reprovável da Igreja Católica. 

O hediondo dos crimes tampouco é surpreendente, se pensarmos em quantas mortes já foram causadas dolorosamente, cruelmente, quando em outro tempo a Igreja se aliou ao Estado para eliminar os indesejáveis de ambos. Isto foi tão evidente que mesmo o teologicamente conservador João Paulo II reconheceu publicamente tais “equívocos” e pediu perdão.

O novidadeiro é o estado caótico da moralidade pública, o estado caótico das relações éticas dos líderes religiosos com os membros de suas igrejas e destes membros com a esfera pública.

 Um breve olhar sobre a história da teologia cristã identificará uma preocupação cada vez mais excessiva com a moral sexual a partir do século XII. Silvia Federici em O calibã e a bruxa, uma versão feminista da história do capitalismo, nos demonstra que o desenvolvimento de um novo regime econômico baseado na exploração “racional” dos recursos tratou o corpo da mulher também como recurso. Assim, as mulheres foram cada vez mais alienadas de sua própria sexualidade. Essa alienação culminou no pietismo alemão, no puritanismo inglês e na escola católica francesa de espiritualidade. Para estes o “pecado” sexual ganhou status jamais antes visto na história do Ocidente.

Entretanto, mesmo na opção mais conservadora da teologia moral no Cristianismo há uma noção de mal menor. Isto significa que nem todo “pecado” tem o mesmo valor. Por vezes, um mal é menos impactante porque evita outro mal ainda maior. Isso não é relativismo moral, nem pragmatismo. Trata-se de reconhecer que existencialmente nos encontramos em situações tão difíceis que a decisão gera profunda angústia, pois não é apenas uma escolha entre dois bens. Num caso “mais simples”, podemos dizer que escolhe entre dois bens o pai ou mãe de família que tem como opção trabalhar 14 horas no dia para sustentar sua família ou não trabalhar e morrer de fome?

O fato de os fundamentalistas não perceberem que a mais conservadora das morais religiosas não permite, ao menos formalmente, chamar uma menina de 10 anos de criminosa, invadir um hospital, invadir a casa da família, é sinal da desordem em que esses grupos se perderam e para o qual querem arrastar a República. 

No direito brasileiro uma criança de 10 anos não é imputável criminalmente. O que os fundamentalistas fazem de conta não saber, ou pior, desconhecem solenemente, é que tampouco na teologia moral católica ou protestante uma criança em tal situação seria imputável e, repito, mesmo na opção mais conservadora.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), órgão consultivo máximo da Igreja Católica Romana no Brasil, apressou-se em emitir nota oficial em 12 de setembro de 2020 diferenciando-se dos evangélicos que querem aprovar um projeto de lei perdoando dívidas de suas igrejas. A CNBB não só disse que não participa como condena tal iniciativa.

A mesma prontidão não se deu no caso da menina de 10 anos que fez o aborto. Foram os fundamentalistas católicos que chamaram a menina de criminosa. Nenhum esforço público oficial da CNBB em corrigir os seus fiéis. Foram confundidos com os fundamentalistas evangélicos sem nenhum constrangimento. Além disso o presidente da CNBB veio a público dizer que a repudiava aquele “crime hediondo”: o aborto, não o estupro!!! Faltaram palavras oficiais contundentes de condenação do crime, de solidariedade à família, de reprovação da conduta dos fiéis que agrediram a família, o corpo médico, e mesmo a menina, expondo-a, xingando-a. 

Estranhamente, ou nem tão estranhamente, vimos fundamentalistas de todas as igrejas cristãs, deixando suas diferenças de lado, se irmanando no ódio comum. Mesmo a ministra Damares Alves, “insigne” figura do pentecostalismo brasileiro, não hesita em transitar entre católicos, apoiá-los, pedir apoio. As antes tão profundas teológicas foram aplainadas, não pelos progressistas em ambos os campos, mas pelos fundamentalistas, iguais na sua fúria! 

Os múltiplos cristianismos do Brasil afundam no seu próprio caos ético. Incapazes de uma autocrítica, hediondos, agressivos, tratando a coisa pública como banca de negócios. Assumir uma ética pública no Brasil é resistir a que sejamos tragados por essa máquina, lutar para que essa moral distópica não se torne a norma.  

MARCUS VINICIUS DE SOUZA NUNES é doutorando em Educação (UDESC) e mestre em Educação (UFSC)

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