ARTIGOS

Bacurau e o gozo sobre os corpos deformados

por Nelson da Silva Junior

No filme Bacurau de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019), o tratamento da agressividade é ilustrado em diferentes formas de pacto social. O filme nos permite comparar a agressividade no neoliberalismo, com aquela de uma comunidade local, estruturada sobre relações não totalmente formalizadas.

A cidade de Bacurau representa assim comunidades humanas locais, sem valor produtivo, que só entram no mapa neoliberal como alvos de pilhagem.

Mas o filme mostra, sobretudo, diferentes formas de expressão de agressividade sem álibi segundo as formas de pacto social que a metabolizam. Comparação que pode ser lida nos diferentes regimes de visibilidade pelos quais a agressividade é tematizada no filme.

Por exemplo, a agressividade dos norte-americanos e do coordenador alemão do safári humano a ser realizado em Bacurau é transmitida por câmeras em drones, dispositivos que podem ir a qualquer lugar, e mostrar a destruição para a tela do espectador, enquanto este permanece bem fixado em seu ponto de vista, apesar da extrema mobilidade das perspectivas que tem à mão.

Metáfora de uma visibilidade que poupa o espectador de se colocar no lugar do outro, sendo assim possível matá- lo com a consciência tranquila. Não será um acaso que esta forma de visibilidade é a forma geral do olhar em nosso tempo, olhar em perfeita continuidade com a ideia de liberdade neoliberal como au- tonomia sem submissão moral à lei, cuja obediência se reduz ao cálculo entre os benefícios da trans- gressão e os riscos da exposição.

O filme mostra a fraqueza desta forma de pacto social contratual em dois momentos.

No primeiro, quando os sulistas brasileiros evocam sua semelhança com os norte americanos: “O sul do país é rico, industrializado”, dizem. “Somos iguais a vocês, brancos, descendentes de italianos, alemães.” A resposta a essa demanda de reconhecimento que o colonizado faz ao colonizador foi simplesmente uma gargalhada e uma rajada de tiros.

O segundo momento mostra a fragilidade deste pacto social entre grupo dos participantes norte-americanos e o líder e organizador alemão da expedição. Não encontrando ninguém de Bacurau em sua mira, o líder começa atirando num ca- chorro e depois passa a alvejar seus próprios clientes. Quando todos estes estão mortos, e nada mais tendo para matar, resolve enviar o cano da arma em sua própria boca. Ilustração da lógica da pulsão de morte em ação livre, resumível na equação simples: ou eu te mato, ou eu me mato.

Temos também um tratamento da agressividade como experiência catártica, presente na repetição dos dez mais do personagem Pacote. Nessa experiência, incessantemente repetida pela mídia local, a saber, a grande tela ambulante da camionete que circula pela cidade e os celulares, o povo de Bacurau submerge em horas mortas. Retrato da absorção hipnótica do homem comum pela indústria cultural no cinema, na televisão, nas telas de computador e nos celulares. Metáfora da imobilização política do espectador, através da exposição repetida da violência sobre os corpos.

Finalmente, é importante lembrar que temos, do início ao fim do filme, a presença do museu de Bacurau, espaço que mostra e lembra àquela comunidade o seu próprio passado. Museu que mantém na lembrança o tempo da lei da força, quando a crueldade sem álibi tinha tanto lugar como a violência instrumental a serviço da sobrevivência. Nesse sentido, uma das cenas mais importantes no filme é aquela em que a mulher encarregada da limpeza do museu, após a chacina, diz à sua ajudante: “Limpe o chão, mas deixe as marcas de sangue nas paredes”. Forma de inscrever na história a barbárie presente ao lado das barbáries do passado e assim lembrar que ela sempre estará ali onde estivermos. Barbárie que, inscrita, localiza cada visitante do museu como seu possível autor, e que, a exemplo dos vidros colocados sobre as telas de Francis Bacon, insistem em mostrar o gozo que as imagens de corpos deformados produzem no olhar do espectador.

NELSON DA SILVA JUNIOR é psicanalista, doutor em Psicopatologia Fundamental pela Universidade Paris VII, professor Titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho (IP/USP), membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental e coordenador do Latesfip, juntamente com Christian Dunker e Vladimir Safatle

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