ARTIGOS

A religião como ilusão

por Rômulo Moreira

Freud escreveu um texto, em 1927, analisando o papel da religião na existência humana. Com o título “O Futuro de uma Ilusão”, fez uma importante reflexão sobre a questão religiosa e a alma humana, submetendo o tema a uma análise até então simplesmente inimaginável.[1] Como o título do trabalho não deixa dúvidas, Freud entende o fenômeno religioso como sendo uma grande ilusão, algo que o homem busca para explicar o que a ciência ainda não pode oferecer como resposta. A ciência, ao contrário, longe de uma ilusão, seria para Freud meio para explicar os mistérios da vida e da humanidade.[2]

Freud indica quatro fatores que devem ser considerados na avaliação de uma civilização (ou cultura), sendo o primeiro deles, “o nível moral dos seus participantes.” Depois, o “seu patrimônio de ideais” e, como terceiro fator, as “criações artísticas.” Por fim, e “talvez o mais importante elemento do inventário psíquico de uma cultura, as ideias religiosas no mais amplo sentido.

Então, pergunta Freud “em que reside o valor especial das ideias religiosas.” Para começar a responder, ele lembra que os desejos instintuais do homem, já sentidos a partir da infância, e que vão desde o incesto até o desejo de matar, são reprimidos, ora por uma coação externa (a partir da cultura ou da civilização), ora pelo próprio homem que a internaliza, fortalecendo o que ele chama de Super-eu.[3]

Viver em uma civilização exige que se renuncie a uma gama enorme de desejos instintuais, razão pela qual, por exemplo, não se pode matar “tranquilamente seu rival” ou “tomar qualquer dos bens do outro sem necessidade de permissão.” Evidentemente, isso não é possível (seja pela coação externa, seja pela internalização da proibição), pois, do contrário, tendo cada indivíduo os mesmos e todos os desejos, “apenas um teria a felicidade irrestrita”, o mais forte afinal.

Assim, “foi precisamente por causa desses perigos com que nos ameaça a natureza, que nos juntamos e criamos a cultura, que se destina, entre outras coisas, a tornar possível nossa vida em comum”, de uma tal maneira que “a principal tarefa da cultura, sua autêntica razão de ser, é defender-nos contra a natureza.”

Mas nesta tarefa de dominação da natureza pela cultura, não é de se esperar que sempre aquela seja “dominada” por esta, sendo mesmo uma “audácia esperar que algum dia ela (a natureza) se sujeite inteiramente ao ser humano.” Assim, os terremotos, tsunamis, tornados, furacões, maremotos, as inundações, avalanchas, as doenças incuráveis e, por fim, a morte (esse “doloroso enigma para o qual até agora não se achou e provavelmente não se achará remédio”), levantam-se todos contra a humanidade, fazendo-nos recordar “nossa fraqueza e desvalia, que pensávamos haver superado mediante o trabalho da civilização.”

Ora, se para a humanidade em geral é difícil conviver com tais e inevitáveis vicissitudes da existência, também o é, naturalmente, para o ser humano, considerado individualmente. Neste contexto, “para o indivíduo é difícil suportar a existência”, sobretudo em razão “dos golpes que recebe da natureza indomada – por ele chamados ´destino`.”

Indaga-se, então, “como o homem se defende dos poderes superiores da natureza, do destino, que o ameaçam como todos os demais.” Antes de responder, Freud lembra que esse desamparo humano existe desde sempre, mesmo “quando pequeno, perante o pai e a mãe, que ele tinha razões para temer, sobretudo o pai, cuja proteção, porém, também estava seguro de ter, ante os perigos que então conhecia.

O desconforto, portanto, longe de ser uma experiência nova, “tem um modelo infantil, sendo, na realidade, apenas a continuação daquela anterior.” O indivíduo dá às forças naturais “um caráter paterno, transforma-as em deuses, e nisso segue um modelo não apenas infantil, mas também filogenético.” Assim, o desamparo no qual se vê enredado o ser humano faz-lhe ansiar pelos deuses, e pelo pai que teme e admira, numa incrível ambivalência de sentimentos.

Então, na falta do pai restam os deuses, para “afastar os terrores da natureza, conciliar os homens com a crueldade do destino, tal como ela se evidencia na morte, sobretudo, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que lhe são impostos pela vida civilizada que partilham.”

Mas os deuses não dão conta de tudo, pois “os fenômenos naturais se desenvolvem por si, conforme necessidades internas; certamente são os deuses os senhores da natureza, eles a dispuseram assim, e agora podem abandoná-la a si mesma.” Além disso, “persiste a desagradável suspeita de que a perplexidade e o desamparo humanos não podem ser remediados. É nisso, antes de tudo, que os deuses fracassam.”

Não podendo tudo, aos deuses incumbe a tarefa de “compensar o homem pelos sofrimentos e privações que lhe são impostos pela vida civilizada que partilham”, criando-se “um acervo de concepções, nascido da necessidade de fazer suportável o desvalimento humano, e construído com o material das lembranças da infância do indivíduo e da raça humana.”

Assim, “cada um de nós é velado por uma Providência bondosa, só aparentemente severa, que não permite que nos tornemos joguete de forças naturais poderosas e implacáveis. A própria morte não é aniquilação, retorno à inorgânica ausência de vida, mas sim o começo de uma nova espécie de existência que se acha no caminho para um desenvolvimento superior.”

Com o tempo, após “uma longa evolução”, os “seres divinos” concentraram-se em um “ser divino único”, pondo “à mostra o pai que desde sempre se ocultara, como um núcleo, em cada figura divina. Isso foi, no fundo, um retorno aos começos históricos da ideia de Deus. Agora que Deus era único, as relações com ele podiam reaver a intimidade e intensidade dos laços infantis com o pai. Mas, se fez tanto pelo pai, esse povo também quis ser recompensado, quis ser o único filho amado, o Povo Eleito”, protegido, agora e finalmente, “do opressivo poder superior da natureza.”

Eis o que se dá, resumindo: “quando o indivíduo em crescimento percebe que está destinado a permanecer uma criança, que nunca pode prescindir da proteção contra superiores poderes desconhecidos, empresta a esses poderes os traços da figura paterna, cria os deuses que passa a temer, que procura cativar e aos quais, no entanto, confia sua proteção.

A questão agora é estabelecer, sob a ótica da “psicologia profunda”, o que são exatamente tais concepções religiosas e o seu respectivo valor. Para responder, Freud vale-se do que ele chamou de um “oponente oculto que segue meus argumentos com desconfiança”, cedendo-lhe “a palavra de quando em quando.”[4]

Diz Freud, então, que a ideia religiosa trata-se de “ensinamentos, enunciados sobre fatos e condições da realidade externa (ou interna) que dizem algo que a pessoa não descobriu por si e que exigem a crença”; e o seu valor reside no fato de que estes sentimentos religiosos informam “acerca do que é mais importante na vida.”

Em seguida, Freud volta a indagar “em que consiste a força interna das doutrinas (ou ideias religiosas) e a que devem sua eficácia, que independem da aceitação racional.” A resposta para ambas as perguntas “surge quando consideramos a gênese psíquica das ideias religiosas.” Como tais doutrinas não são frutos de qualquer comprovação empírica, tampouco se originam da experiência concreta do ser humano, conclui-se que são pura ilusão, “realizações dos mais antigos, mais fortes e prementes desejos da humanidade; o segredo de sua força é a força desses desejos.

Serve a religião, portanto, para responder ao ser humano (desamparado como está, sem o pai) acerca dos “enigmas da humana ânsia de saber, como o da origem do mundo ou da relação entre o físico e o psíquico.” Todos os conflitos oriundos desde sempre, e surgidos a partir “do complexo paterno (e nunca inteiramente superados), são tirados e levados a uma solução aceita por todos”, justamente a religião, uma grande ilusão, e não um erro, pois “uma ilusão não é idêntica a um erro, tampouco é necessariamente um erro.”

Freud, então, explica, exemplificando, a diferença entre um erro e uma ilusão: Aristóteles errou quando afirmou “que os vermes nascem da sujeira – erro partilhado ainda hoje pelo povo ignorante.” Já Colombo, ao contrário, não cometeu um erro ao “achar que havia descoberto um novo caminho marítimo para a Índia”, iludiu-se, na verdade, pois, neste caso, havia um componente inexistente no erro: “a participação de seu desejo.”

A ilusão “deriva de desejos humanos”, razão pela qual, “neste aspecto, aproxima-se do delírio psiquiátrico.” Deste, porém, distancia-se pelo fato de que, enquanto no delírio há sempre uma “contradição com a realidade, a ilusão não tem de ser necessariamente falsa, isto é, irrealizável ou contrária à realidade.

E oferece mais um exemplo: é uma ilusão uma menina, ainda adolescente, acreditar que um príncipe virá buscá-la, pois se trata de algo, em tese, ainda possível, realizável. Coisa completamente diferente, diz Freud, é crer “que venha o Messias e dê início a uma nova Idade do Ouro.

Como outro exemplo de ilusão que poderia se tornar realidade, cita o caso dos alquimistas que tinham a ilusão, derivada do desejo de possuir um metal mais nobre, de poder transformar qualquer metal em ouro. Portanto, há uma ilusão, e não um erro, “quando em sua motivação prevalece a realização de desejo”, dispensando-se, por conseguinte, qualquer comprovação.

Continua Freud, afirmando que, nada obstante uns “poucos enigmas do mundo”, a pesquisa científica ainda “é a única via para o conhecimento da realidade exterior.” Ao contrário da religião, “a ciência já nos provou, por meio de numerosos e importantes êxitos, que não é uma ilusão”, razão porque “tem muitos inimigos declarados (e inúmeros outros disfarçados) entre aqueles que não lhe perdoam haver debilitado a fé religiosa e ameaçar destroná-la.

Em um determinado trecho do texto, aquele oponente oculto, contrapondo-se às ideias de Freud, afirma que eram “inumeráveis as pessoas que tinham nas doutrinas religiosas o seu único consolo, apenas com o auxílio delas podem suportar a vida.” Freud, então, após admitir que “a religião prestou grande serviço à cultura humana e contribuiu muito para domar os instintos associais, embora não o bastante”, afirma que seria “duvidoso que na época do domínio inconteste das doutrinas religiosas os seres humanos fossem, em geral, mais felizes do que hoje; mais morais eles certamente não eram. Sempre souberam como banalizar os preceitos religiosos, fazendo assim malograr seus propósitos. Os sacerdotes, que deviam zelar pela obediência à religião, eram complacentes com eles.”

Era simples assim: “as pessoas pecavam e depois faziam sacrifícios ou penitências, ficando livres para novamente pecar.” Evidentemente, para sujeitarem o povo à religião os sacerdotes faziam “essas grandes concessões à natureza instintual humana.

Freud replica o seu interlocutor imaginário, indagando-lhe se não superestimavam “a necessidade da religião para a humanidade e se agiam sabiamente ao nela basear nossas exigências culturais”, pois “em todas as épocas, a imoralidade não encontrou menos apoio na religião do que a moralidade.”

Além de uma ilusão, Freud vai mais além, identificando a religião como uma “neurose obsessiva universal da humanidade, originando-se, tal como a da criança, do complexo de Édipo, da relação com o pai”, fazendo uma analogia com a fase da neurose infantil, “ora mais, ora menos nítida, vindo do fato de a criança não poder suprimir com o trabalho intelectual racional muitas das suas exigências instintuais”, precisando reprimi-las, pois o Eu da criança é fraco; óbvio que “a maioria dessas neuroses infantis é superada espontaneamente ao longo do crescimento” ou, mais tarde, pela terapia psicanalítica.

Esta semelhança com a neurose infantil explicaria o porquê do fato “de o crente religioso estar altamente protegido de certas enfermidades neuróticas; a adoção da neurose geral o dispensa da tarefa de desenvolver uma neurose pessoal.

Conclui, por fim, que seria uma ilusão acreditar que se pode “obter de outras fontes aquilo que a ciência não pode nos dar”; afinal, como escreveu Heinrich Heine, “o céu deixaremos para os anjos e os pardais.[5]

RÔMULO MOREIRA é procurador de justiça na Bahia e professor de Direito Processual Penal na UNIFACS

[1] Mais de vinte anos antes, Max Weber havia escrito o clássico “A Ética Protestante e o ´Espírito` do Capitalismo” (a primeira edição foi publicada em duas levas, 1904 e 1905; a segunda, já sem as aspas, foi editada em 1920, ano de sua morte).

[2] O texto consta às fls. 232 a 301 do Volume 17 das Obras Completas de Sigmund Freud, “Inibição, Sintoma e Angústia, o Futuro de uma Ilusão e Outros Textos” (São Paulo: Companhia das Letras, 2010).

[3] A palavra civilização é usada para designar “a inteira soma das realizações e instituições que afastam a nossa vida daquela de nossos antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos homens entre si”, conforme ele próprio viria a esclarecer, mais tarde, no clássico “O Mal-Estar na Civilização”, de 1930 (inserido no Volume 18 das Obras Completas). Segundo nota do tradutor, os termos “civilização” e “cultura” podem significar a mesma coisa, segundo o contexto em que são empregadas (nota de rodapé constante das fls. 233 do Volume 17).

[4] Freud já havia utilizado essa forma de escrever – dialogando com um interlocutor fictício – quando escreveu, em 1926, “A questão da Análise Leiga: Diálogo com um Interlocutor Imparcial”, texto que integra o mesmo Volume 17 das Obras Completas (páginas 125 a 230).

[5] “Deutschland”, Capítulo I (citado pelo próprio Freud).

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