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Metas pelo caminho?

por Liliane Pimentel

E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? (Carlos Drummond de Andrade). E agora, a vida normal: retomando o trabalho, os boletos de sempre, os compromissos antigos que ganham uma nova conotação. ou não.

Após as festas de Natal e virada de ano, a vida se reatualiza; ganha novo fôlego. Ano novo, vida nova, ciclo novo. Hora de colocar em prática a atitude para alcançar as metas preestabelecidas, ou hora de traçar as novas metas, para os que ainda não se atentaram para isso anteriormente.
Hora de rever planos, traçar objetivos para os próximos meses. As orientações de especialistas quanto as melhores atitudes para fazer um bom ano pipocam, assim como pipoca a mente dos espectadores dos gurus de alta performance.

Todavia, vale lembrar que a vida não obedece a regras pré-definidas. Sim, você pode realizar sonhos com um passo a passo. Sim, você pode conquistar a casa própria, o carro dos sonhos, fazer aquela viagem tão esperada ou até mesmo melhorar a situação financeira. Mas viver não se resume a traçar e cumprir metas. Viver requer dançar na chuva. Apagar as metas, traçar novas e, de vez em quando, reconhecer a falta de vontade de seguir com o planejado. Vez ou outra, o curso da vida, seguindo o próprio ritmo se faz ser percebido, aos gritos. Algo sai dos trilhos, o trem descarrila. Então, o autocontrole escapa pelas mãos como água; a auto-disciplina e a autoconfiança escafedem-se. Por vezes, justamente quando tudo parecia estar fluindo como água calma no lago, a escuridão aninha-se sobre a mesma cabeça que outrora tão serena vivia no fluxo, como num quebra-cabeça, com as peças se encaixando.

De repente… “No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra…”. O verso simples e repetitivo de Carlos Drummond de Andrade, criticado pela redundância com que aborda os desafios que surgem na vida humana é um bom lembrete de que a vida se impõe com aquilo que a compõe.

Talvez você faça parte do grupo de pessoas que não tolera viver no morno. É tudo ou nada; quente ou frio; mar sereno ou maremoto. Contudo, é importante considerar que é no morno que algumas coisas crescem, é no conforto da temperatura controlada que a galinha choca os ovos, é no conforto da temperatura morna do corpo da mãe que o feto cresce e se desenvolve. Viver no meio termo pode parecer sem graça, mas é no morno que, por vezes, descansamos a mente cansada.

Não há psiquismo que aguente o excesso em intensidade de um ano inteiro resumido a estabelecer, cumprir e perseguir metas. Viver a vida é transitar nos altos e baixos; com as alegrias e dificuldades que aparecem pelo caminho. Conforme Drummond, é pisar nas pedras que surgem pelo caminho.

Vida é poesia, música, arte, sol, chuva, impulso, recolhimento. Viver é dançar no sol e na chuva. Queimar-se. Se molhar, deixar-se molhar. Perceba aqui uma diferença, um hiato poético. Se molhar poderia equivaler a estar andando na rua quando a chuva cai, por vezes, esbravejando, corre-se para sair da chuva, buscando um abrigo. Enquanto deixar-se molhar seria não correr, permitindo que a chuva lave a alma, molhe a roupa, redefina a maquiagem. Num imperativo, molhe-se! Molhe-se na chuva de vida que cai. Abra o guarda-chuva, mas também saia sem ele.

Tenha metas, defina-as, redefina-as quando for necessário; trace novas quando as antigas já não atenderem aos teus anseios. Mas, não se perca buscando metas compulsivamente, preenchendo check-lists, tropeçando nas metas como pedras ao longo dos próximos meses. Não se perca de quem você poderia vir a ser caso tivesse relaxado mais, aproveitado mais o caminho, usufruindo também de conforto e água morna.

Estabeleça metas se isso fizer sentido para você. Sobretudo, perceba que a questão não é se você determinara metas ou não, mas, onde elas entrarão na tua vida, em lugar de que, a serviço do que, e, além disso, o que as tuas metas falam sobre você. No mais, com ou sem metas, tenha o melhor ano possível!

LILIANE PIMENTEL é psicóloga clínica, psicanalista em formação e especializanda em psicanálise (UNIFEBE/HSC)

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