ARTIGOS

Insultos possíveis

por Larissa Lima

Foi no dia 30 de novembro de 2025 que começou, ao menos para mim. Soube: um psicanalista, homem que se dizia feminista, progressista, tão dócil, tão-galera, era agressivo com mulheres. Não com qualquer mulher, evidentemente. Ele é feminista. Pegaria mal se fosse, assim, com todas. Veja bem, ele é agressivo apenas com as namoradas. Com as outras, reserva críticas desconstruídas encenadas de preocupação. Quem olhar perto o suficiente percebe o quão patético é esse teatro. Mas com as namoradas, bem, as namoradas recebem mesmo o espetáculo inteiro. O tão-galera é o mesmo com pavio curtíssimo que sai batendo e quebrando o que vê pela frente porque (coitado) foi frustrado. Aconteceu que eu descobri que este tão-galera era um homem inseguro que fazia malabarismos cruéis com suas namoradas para que elas tivessem medo. Não pode ser. Mas fulano? Penso por alguns segundos. Pode ser, sim. Depois constato, com a terrível lucidez feminina que todas temos, embora esquecemos: definitivamente sim. Passo algumas horas confusa e triste, principalmente triste. Era um amigo. Amigo? Ao menos era próximo. Ria das mesmas piadas e dividia o mesmo ambiente, como quem pode, dividir, qualquer ambiente. Depois a raiva toma conta, a possibilidade de impunidade e desconhecimento das pessoas. Eu mesma não sabia até aquele terrível momento. O pacto silencioso. O que é possível fazer? Neste dia escrevo, e decido publicar o seguinte texto:

“Existe uma frase da Duras que sempre me bateu diferente, ela diz: ‘É numa casa que a gente se sente só. E não do lado de fora, mas dentro dela’. O que fazemos quando descobrimos que um colega de nossa pequeníssima bolha psicanalítica é um homem agressivo com mulheres? Nesta bolha, que quase podemos chamar de casa, o que fazemos? Cancelamos, certo? Errado. Não dá. Vai expor a(s) mulher(es). Sabemos o que acontece com mulheres expostas. E o cancelamento tem também suas problemáticas: só há discussão e repercussão se a pessoa cancelada for (olha só!) uma mulher, caso contrário, acontece como acontece na vida: homens sendo promovidos, defendidos, legitimados. Então, não, cancelamento não é uma opção. Pergunta honesta: o que é, então? A gente fala disso? A gente ignora? A gente segue a vida convivendo? Cancelamento não é uma opção. Qual é, então? De forma trágica e até capenga: a opção que vejo sendo criada tem sido o laço traumático das mulheres. O laço pela experiência. Elas todas dentro dessa casa sentindo-se sós. Na melhor das possibilidades, elas conversam, compartilham, escutam, defendem e cuidam. Preservam a imagem, mas repassam a palavra. É preciso que outra saiba. E mais outra. E mais outra. O que é possível fazer dentro de uma casa construída aos nomes de homens? Nesse desespero repentino, sinto que, a nós, mulheres, nos resta a palavra. Muitas coisas na história do mundo foram preservadas nesse boca a boca, das mulheres. Mas não basta. Deus, como não basta. Que opção trágica e capenga, me incomoda o âmago: queria sair gritando. Quem sabe seja assim que eu grite. Lembremos: é numa casa que a gente se sente só.”

O post reverberou de forma inesperada. Digo inesperada porque atingiram homens que eu nem fazia ideia da existência (saudade desses dias). Foi como acertar dois coelhos com uma cajadada só mas, neste caso, um número terrivelmente maior que apenas dois coelhos. O que se repete nesse campo para que tantos homens sejam atingidos de uma só vez? Isso diz algo sobre eles, mas diz também sobre o nosso campo. E sobre a confortável ingenuidade (minha inclusive) que sustenta tudo. Depois desse texto, mulheres e mulheres lotaram minha caixa de mensagem do instagram com suas histórias. Relataram momentos terríveis que viveram com esses (outros) psicanalistas. Foram os meses mais assustadores da minha vida […] nunca tive tanto medo e ainda tenho. Digeri com algum custo todas essas histórias.

A vontade do insulto é gigante. Retomo Marguerite Duras quando ela diz que é muito reconfortante insultar pessoas em seus artigos, tão reconfortante quanto escrever um belo poema. Não estou disposta a escrever poemas, apostarei nos insultos. Claro: polidos, passados e aprovados pela minha digníssima advogada. Escreverei porque é preciso registrar — ainda que sem nomes. Acreditem, percebi que não dizer também é um gesto, pois aposto justamente nesse efeito dos coelhos atingidos: quem se reconhece, sabe. Escrevo porque é preciso afirmar que a psicanálise não pertence a esses homens, ainda que eles ocupem cargos, fundem instituições e ostentem currículos impecáveis. Escrevo porque o silêncio confortável é parte do problema. Nosso protesto pode ser polido pelos advogados, mas não pode ser inexistente. Os insultos possíveis são, por ora, o que tenho. Lá vai, segue alguns [poucos] casos:

Há o psicanalista de grande notoriedade nas faculdades de psicologia. Coordena cursos, orienta pesquisas, distribui pareceres e oportunidades. A posição lhe confere prestígio e (claro) acesso. Algumas estudantes e colegas percebem cedo que o suporte acadêmico pode vir acompanhado de convites menos acadêmicos. Mulheres. Muitas. Sempre muitas. A pedagogia do assédio, pelo visto, ganhou aplicações bastante pragmáticas.

Há também o fundador de instituição respeitada, de grandíssima notoriedade. Vale-se do lugar que ocupa para seduzir analisandas (sim, no plural) com a sofisticação técnica de mensagens enviadas na madrugada: “estava pensando em você”. A transferência, ao que parece, ganhou contornos pessoais, e bastante patéticos. Mais deprimente seria apenas assumir o clássico “sonhei contigo” e poupar-nos do verniz conceitual.

Há também a velha solidariedade entre homens do campo. Uma mulher denuncia. A testemunha não vê. A instituição analisa “com cautela”. A embriaguez surge no momento exato em que seria inconveniente testemunhar. A sobriedade retorna a tempo de preservar amizades, cargos e fotografias sorridentes. Curiosamente, a única pessoa cuja ética se torna subitamente questionável é sempre a mulher. O elo mais frágil, como sabemos, também é o mais fácil de ser substituída.

Há o psicanalista jovem e fundador (esse é tão-galera também) que consome perfis de garotas menores de idade, interage com essas publicações a fim de participar de atos considerados criminosos que minha advogada me impediu de nomear mas, bem, vocês todos (infelizmente) entenderam.

Há também o pesquisador vinculado a uma das universidades públicas mais respeitadas do país, dono de um lattes impecável e citações abundantes. Em seus artigos, analisa a histeria com precisão conceitual. Em casa, resolve conflitos com igual convicção, já que suas namoradas, convenientemente, são sempre “histéricas dissimuladas”. A teoria, pelo visto, funciona melhor quando serve de álibi.

Informação que minha advogada achou prudente inserir: os exemplos acima não descrevem indivíduos determinados, mas tipos recorrentes e padrões que emergem quando mulheres começam a falar.

Mas fiquem tranquilos, são todos excelentes teóricos.

LARISSA LIMA é escritora, psicóloga e psicanalista. Autora do livro “As palavras poderiam me adotar” (Patuá, 2022) e host do podcast “Isso te diz alguma coisa?”.

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