por Roberta Lima

Primeiramente, apesar de apreciar toda a beleza salpicada de molho baiano de Wagner Moura, as pernas que protagonizarão o texto serão variadas; teremos até pernas andantes e cabeludas.
Passada uma semana desde que assisti ao sutil e, ao mesmo tempo, eloquente filme de Kleber Mendonça Filho, não consigo parar de pensar nas pernas retratadas em várias cenas. Até comentei com pessoas amigas que também viram o filme, mas o fato é que acho que não é por acaso que tantas pernas aparecem.
Há filmes que entram pelos olhos, outros pelos ouvidos. Os de Kleber, porém, costumam entrar pelas frestas: seja da fumaça dos cigarros que tragam seus personagens, do tilintar dos copos de cerveja ou pelo eco de passos que dizem mais do que qualquer fala. Em “O Agente Secreto”, foi justamente pelas pernas que o filme me pegou. Pernas expostas, pernas que correm, pernas que já não se movem, pernas que resistem. Pernas que, de algum modo, contam o caminhar de um país.
Aceno que farei recortes aleatórios do que me recordo, pois precisaria ver o filme outra vez para anotar mais trechos pernísticos, mas ficarei com a memória, quem sabe inventada ou ampliada, das pernas no filme.
Logo no início, vemos o protagonista se levantar no posto e dar de cara com as pernas rígidas de um cadáver esquecido em pleno carnaval. A cena, ao mesmo tempo banal e brutal, abre o caminho para uma sucessão de pernas que atravessam o filme e o país.
Um detalhe interessante é que, enquanto assistimos ao filme, uma sequência de referências a “Tubarão” nos permeia, e acabei lembrando das cenas que me apavoravam na infância: aquelas perninhas batendo despreocupadas na água até que, sob a superfície, algo enorme avançava silenciosamente para devorar algum incauto.
No filme, logo no começo, temos também a cena do tubarão com uma perna inteira em seu interior e toda a consequente criação da lenda urbana, até então desconhecida de sulistas e sudestinos, da “perna cabeluda”.
Há também cuidados cenográficos muito esmerados ao reproduzir o ano de 1977, no qual se passa o filme. Temos, por exemplo, um pôster da extinta revista Manchete com Nadia Comaneci, campeã de ginástica olímpica, cuja impulsão vinha, sim, delas: as pernas. Foram elas que a conduziram à primeira nota 10 da história da modalidade nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976.
Ao mesmo tempo, em diversas repartições e espaços públicos pelos quais os personagens circulam, surge a foto oficial do presidente da época. Como de costume, apenas o busto aparece, um enquadramento rígido que reforça um Estado que, simbolicamente, não anda, não avança, não se move rumo à proteção de seus cidadãos, pelo contrário, é o Estado assassino de artistas, intelectuais e qualquer pessoa que parecesse ameaçar o regime, como o próprio personagem principal do filme – um “simples” chefe de departamento cabeludo que precisava de um “banho de indústria”.
Temos também, como já mencionada e certamente a mais famosa de todas as pernas do filme, a (quase) protagonista “perna cabeluda”. Seria mais fácil acreditarmos em uma perna amaldiçoada do que no fim de anos tão duros de regime militar? Ou melhor, era mais fácil falar de pernas andantes com contornos fantasmagóricos do que da concretude do endurecimento brutal da ditadura no país?
Por fim, temos o tiro que acerta o matador terceirizado pelos protótipos de milicianos para dar cabo da vida do personagem de Moura. Ele é atingido na perna, sangra muito, mas extermina seu antigo aliado e de quem é agora algoz, enquanto desaparece mancando. Sua perna ferida é, para mim, a imagem de um Brasil que sangra e manca desde a sua formação colonial: um corpo coletivizado que tenta avançar apesar das violências do Estado e da repressão militar.
O homem, o “cabra-macho”, quase uma espécie primitiva e emuladora de homem das cavernas, aos olhos dos sudestinos que o contratam, parece resistir. Seria o Brasil que sangra, caminha a passos lentos, faz “serviço de bicho” e, no entanto, teima em prosseguir?
As pernas, aliás, acabam se tornando também uma alegoria da mobilidade social interrompida no Brasil, um país onde muitos caminham, mas poucos chegam; onde o esforço individual esbarra sempre nas mesmas estruturas que paralisam o coletivo. É preciso falar de pernas em uma época em que a liberdade não podia caminhar entre seu povo.
Talvez por isso o frevo apareça como metáfora do caminhar coletivo: resistência, ritmo, improviso e desequilíbrio controlado. No Brasil, caminhar é também dança e sobrevivência.
É nesse vaivém que percebo como o filme revela o país que somos: um país que cambaleia entre o frevo e a selvageria, entre o impulso alegre das pernas que dançam e o peso das pernas que tombam.
Assim, depois de tanto descrever e falar sobre o tema, fico pensando ainda mais no que Kleber Mendonça Filho talvez queira nos dizer. Seu filme é daqueles que tecem um roteiro que interliga, por passos muito bem marcados, o Brasil do passado com o Brasil do presente, ainda escravocrata, autoritário e violento.
Vira e mexe nossa democracia sofre voadoras, rasteiras ou tentativas delas, enquanto alguns seguem como os personagens do filme “Tubarão”: tranquilos na superfície das águas, até descobrirem que o perigo sempre esteve rondando e, em algum momento, pode levar um pedaço seu ou de alguém que ama, como tanto aconteceu durante a ditadura militar brasileira.
É impossível não lembrar aqui do que Achille Mbembe[1] chama de necropolítica, o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer. No filme, como no Brasil real, a gestão da morte se expressa na naturalização dos corpos descartáveis, oferecidos ao mar, ao tubarão, ao esquecimento.
Dessa forma, seguimos capengando em nossa história como país, celebrando o carnaval, seu frevo e todo o jogo de pernas que ele requer, ao mesmo tempo em que banalizamos mortes ao acaso, por violências várias.
E, por fim, seguimos torcendo para que, ao caminhar, não sejamos fatalmente atingidos pela violência extrema, como Armando/Marcelo e que, em algum momento, e aqui escrevo como quem sonha com estradas de justiça, memória e verdade, possamos caminhar rumo a um país que não faça enquetes sobre chacinas, não chame golpe militar de revolução e, sobretudo, aprenda que as mesmas pernas que podem ser trôpegas ou feridas são também capazes de saltar e correr.
Viva o cinema brasileiro e todo o elenco maravilhoso que compõe essa obra que já nasce monumental, clássica e efervescente como um bom frevo.
ROBERTA LIMA é pós-doutoranda no PPGSD/UFF e no PPGCOM/UFF. Doutora em Ciências Jurídicas e Sociais (UFF) e Mestra em Gestão de Políticas Públicas (Univali) Integra redes como o LAJA – Laboratório de Justiça Ambiental e o INCT/DSI – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Disputas e Soberanias Informacionais. Professora e Advogada.
[1] MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & ensaios, n. 32, p. 122-151, 2016.
