ARTIGOS

Djamila Ribeiro é uma neopentecostal da esquerda identitária

por Felipe Eduardo Lázaro Braga

Djamila Ribeiro escreveu um artigo na Folha de São Paulo, em 07 de agosto de 2025, defendendo que o mar é mulher e que a inveja é homem (o título é “Inveja, Rancor e Moralidade”). Segundo ela, o ressentimento é homem e a virtude é mulher. Iemanjá é a deusa dos peixes. E as mulheres não sentem inveja do pênis. Ou sentem? Na verdade, sentem inveja da posição que os pênis ocupam na sociedade. A inveja da mulher é social. A do homem não, é falha de caráter. Razão pela qual a inveja é homem e o mar é azul.

Minha sensação em relação a Djamila, minha sensação em relação ao sectarismo da Djamila, me faz entender por que a esquerda identitária provocou reações tão viscerais de antagonismo em uma fração ampla da população brasileira, da população americana e da população europeia. Djamila é o produto mais bem acabado, mais definidor de um tempo: ela é a esquerda identitária, ela é o rosto das pessoas que enriqueceram e que chegaram ao topo da cadeia alimentar através da militância sectária. Sou grato a ela por me fazer entender que tipo de repulsa a esquerda identitária foi capaz de produzir em frações expressivas da população.

O modo como Djamila envolve as ideias em uma crosta de ressentimento me causa repulsa. Não digo que ela não enuncie boas ideias. Digo apenas que as melhores ideias se tornam intragáveis, quando enunciadas da maneira como ela faz, com o dedo em riste, marcando a pele do grupo social oposto com ferro em brasa, carimbando indiscriminadamente rótulos pouco nuançados, transformando seus preconceitos em linguagem técnica, em linguagem “superior”. Djamila enuncia suas ideias, nunca em favor das ideias, mas sempre tentando demarcar a própria superioridade em relação ao interlocutor. A inveja é homem, o erro é homem, o rancor é homem. O bem sou eu. Viva Iemanjá. O mar é azul.

Quando leio a maneira pela qual Djamila divide o mundo, surge em mim uma emoção de ressentimento e de injustiça. Ela não matiza, ela não é generosa, ela pessoaliza defeitos, ela tribaliza virtudes. Ela é uma neopentecostal da esquerda: não ama as virtudes que Jesus ou Frantz Fanon ensinou, ama o fato de pertencer ao grupo em que Jesus ou Fanon não passam de totens tribais. O primeiro enunciado não dito do texto da Djamila é este: existe um grupo de melhores e um grupo de piores; sou eu que vou dividir o mundo entre os bons e o justos, e os maus e os cretinos. Eu sou a fonte de onde brota a moral. Eu sou a linha do equador da justiça. Meu dedo toca os salvos. Que cretinice!

A repulsa que Djamila me obriga a sentir pelas ideias dela, ideias com as quais eu eventualmente concordaria se não fossem enunciadas de maneira tão desagradável, tão arrogante, tão sectária, me faz entender por que o movimento de extrema direita, baseado sobretudo no ressentimento, foi capaz de emergir com tanta força na década em que a esquerda identitária enriqueceu pessoas como Djamila Ribeiro. Eu sinto repulsa contra a postura, contra o tom confrontativo, contra o ressentimento que o texto da Djamila contém. O tom divisivo da argumentação afasta homens que tentam ser pessoas decentes, e eu consigo sentir nos textos da Djamila o que muitos homens que se inclinaram a votar na extrema direita também sentiram: falta de generosidade e falsa empatia, que não passa de narcisismo pelo próprio grupo. A Djamila, repito, é o rosto de um tempo. Os defeitos dela são a síntese do fracasso identitário.

Eu tenho medo de dizer que admiro a Djamila. Não admiro o modo como ela enuncia suas ideias, isso eu não admiro. Mas admiro sua elegância. Elegância física mesmo, acho-a uma mulher bonita. Acho que ela se maquia bem. Mais do que bem, acho que ela é uma artista da maquiagem. Acho o cabelo dela lindo, escultural. Acho que ela é uma artista plástica da maneira pela qual um penteado pode ser interessante. Contudo, tenho medo de dizer que a admiro por causa de sua beleza. Escrevo isso, ponho isso no papel com uma intensa – e maravilhosa! – sensação de adrenalina, de ousadia, de ansiedade, de estar fazendo algo no limite do erro: ela é uma mulher… bonita.

Cansei dessa sensação de não saber se eu estou dizendo algo ofensivo ou não. Geralmente, a ofensa consiste em uma sutiliza espremida em uma semiótica tão milimétrica, que é impossível saber ao certo se cada expressão, cada frase, cada vocábulo bem-intencionado contém em si uma sugestão, uma insinuação, ou uma herança de opressão. A língua é viva e emerge inclusive das desigualdades, das injustiças, da dor; isso é um fato humano linguístico: excluir a dor, excluir a injustiça da língua é excluir a língua. Não acho justo com a dor, excluir a dor da língua; a dor que as estruturas linguísticas capturaram é uma monumento de que ela existiu. Acho que a esquerda djamiliana, ao se especializar em encontrar as mazelas mais microscópicas das expressões, se afasta de um ideal simples, saudável, justo de decência. Não há um brasileiro decente que seja favorável ao racismo e à misoginia. Os brasileiros, os americanos, os europeus se ressentem, na verdade, dessa hiperespecialização opressora, que se profissionaliza em encontrar uma herança maldita em tudo. Tenho medo de dizer que admiro a maquiagem, o cabelo, a roupa, as escolhas estéticas da Djamila. Será que estou cometendo um erro, ao elogiar a maquiagem da Djamila? Mas eu faço isso de posse de uma emoção honesta, faço isso porque é isso o que eu encontro nela que me faz admirá-la, e eu gosto mais de sentir admiração do que de sentir ressentimento. 

Eu sou negro, sou mulher, sou angolano. Meu pai morreu de covid enquanto eu lia a profundidade generosa, estética, sensível e abarcadora de uma quase homônima que é a escritora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida. Djaimilia faz de sua posição no mundo uma plataforma para os outros, para as emoções mais universais. Djaimilia não é uma narcisista do próprio grupo, ela faz de sua história uma matéria humana, e eu me confundo com as sensações íntimas de sua voz literária. Quando leio a Djamila do Brasil, a nossa, a bem maquiada, apenas leio o ressentimento. E sinto ressentimento contra ela. E sinto gratidão por entender o ressentimento que as pessoas comuns, as pessoas que, como eu, sentem, ao observar, o dedo em riste da esquerda djamiliana. Quero me afastar daquelas ideias, quando elas aparecem na boca de uma Djamila da vida. Na boca de uma Djamila da vida, essas ideias se transformam em ímãs de oposição, elas causam uma imediata vontade de correr para longe delas. Quero me afastar de quem ela admira, quero recusar os autores que ela cita, quero afirmar valores opostos aos seus. E não tem nada a ver com o conteúdo das ideias, mas com a forma, o modo como ela usa a ideia para se sentir superior ao mundo. Sou grato a Djamila Ribeiro por entender, por finalmente entender que sensação difusa, desagradável e intensa provocou a ascensão da extrema-direita no mundo.

Sou homossexual. Quero admirar honestamente a maquiagem da Djamila. Sua roupa, seu cabelo. Mas tenho medo de elogiá-la, porque a militância dela criou esse medo em mim. Eu preciso lutar contra o medo de dizer isso que está em mim: acho que Djamila é uma mulher linda. Nisso, eu a admiro honestamente. A admiração honesta que sinto pela inteligência, pela humanidade, pela arte da Djaimilia Pereira, é a admiração que sinto pela maquiagem, pelo rosto, pelo cabelo da Djamila Ribeiro. Mas preciso lutar contra o meu medo de dizer que ela é bonita, assim como os homens cristãos precisaram lutar contra o medo de sentiram atração por outros homens: acho Djamila uma mulher linda. Acho que ela deveria ser uma influencer de maquiagem. Acho que ela está desperdiçando um potencial enorme, e acho que ela ficaria mais rica que a Virgínia Fonseca, se se dedicasse ao seu talento verdadeiro. 

Mas sobretudo, acho que ela deveria se tornar uma influencer de maquiagem em benefício das ideias que ela defende. Acho que ela contribuiria mais à causa que defende se se abstivesse de defendê-la do modo como tem feito. Na boca da Djamila, as ideias com as quais eu concordo chegam em mim pela pior via. A aura ruim da Djamila me faz discordar das minhas próprias convicções ideológicas. Eu não gosto da Djamila. E é uma libertação poder dizer isso em voz alta: eu não gosto dela! Não gosta da postura dela, e sou livre, livre para dizer o que eu quiser, livre para criticar quem eu quiser! Livre para criticar os monstros sagrados de qualquer seita, inclusive da seita identitária. É bom sentir de novo essa liberdade alegre, essa liberdade jovem de dizer o que eu quiser, sem medo de ser patrulhado. Não gosto da Djamila. Não gosto do tipo de sectarismo chato, superficial, sem senso de humor da esquerda djamiliana. E acho que um dos monopólios que sustentou a posição de poder da esquerda djamiliana por tanto tempo foi justamente essa aura de incriticabilidade, como se criticar seus defeitos fosse uma ofensa racial ou misógina. Os djamilianos conseguiram se impor como juízes e acusadores das próprias causas; eles são a parte interessada e os magistrados do processo, e essa mistura entre promotoria moral e magistratura moral é uma das razões pelas quais as pessoas nutriram tanto medo de criticá-los, e é também a razão pela qual criticá-los hoje se tornou tão divertido, tão atrevido, tão rebelde. 

Além de tudo isso, Djamila não sabe olhar o mar. Quando ela olha o mar da janela do seu hotel cinco estrelas de frente pra areia de São Luís, só sabe produzir frases feitas, banalidades, bobagens de senso comum. Descubro por ela que o mar é enorme e azul. Uau poeta, valeu! Ela não sabe olhar o mar, não sabe mobilizar uma expressão que ressoe fundo na emoção que o mar provoca. Mas ela sabe que olhar o mar é bonito na roda sensível dos identitários. Ela olha o mar como quem passa maquiagem: é bonito olhar o mar? Então ela olha o mar. Fazer o que, né? Fica lá vinte minutos olhando o mar. Enquanto houver alguém olhando ela olhar o mar, ela olha o mar. Tira uma selfie de si mesma olhando o mar. Posta nas redes sociais olhando o mar. Escreve um artigo pra Folha olhando o mar.

Djamila, você é o produto perfeito do tempo. Você é uma das razões pelas quais a sociedade brasileira terá de conviver longos anos com o câncer bolsonarista. Não porque você é mulher, não porque você é negra, nada disso. É porque você é o Pablo Marçal da esquerda identitária. Você enriqueceu com sua militância, você é uma mulher rica – rica, RICAAAAAAA – e enriqueceu do jeito que podia: citando Iemanjá, falando que a inveja é homem, e dizendo que o mar é azul. Você olha os outros de cima para baixo, no alto do estrato mais afluente da sociedade brasileira, na janela do seu hotel de frente pro mar. Você é o 1%. Você é o 0,1%. Você é a razão pela qual 80% dos homens que votam no Pablo Marçal, votam no Pablo Marçal: você usa suas ideias para agredir, você agride de cima para baixo, e os homens de baixo querem empoderar homens que agridem as ideias que você defende.

E você não para! Por que pararia? Você continua com a sua mesma militância sectária, você é incapaz de olhar para os próprios defeitos, para o narcisismo tribal que você construiu em volta de si. Hoje os meninos estão sofrendo, estão sofrendo uma dor profunda, estão desamparados, e tudo o que eles escutam, dia sim e dia outro da esquerda djamiliana, é que eles são a fonte de todo o mal, que eles são a inveja e o rancor, que o pênis é a maldade; esses meninos chegam à adolescência observando o dedo em riste que as coleguinhas deles aprenderam com você, Djamila Ribeiro; esses meninos, que estão na adolescência, que não possuem uma estrutura subjetiva segura, escutam que são a fonte de todos os problemas do mundo, que a inveja é homem e o rancor é homem e o mar é azul. Se tem um grupo que precisa ser protegido contra bulliers como a Djamila Ribeiro, são esses novos homens, que são todos os dias empurrados para o ambiente tóxico das comunidades de vídeo-games online, e que os abraçam em uma falsa promessa destrutiva de comunidade, e que vão devastar a decência, a humanidade, as possibilidades de integração social, de maturação subjetiva desses meninos. Você é uma das causas, Djamila, você é uma das razões pelas quais ou o Marçal ou o Nikolas será presidente daqui a 15 ou 20 anos; de dentro do Palácio de Versalhes da Vila Madalena, você é a Maria Antonieta da esquerda identitária.

Quando leio a quantidade de ressentimento que há nos textos da Djamila Ribeiro, preciso lutar contra meus próprios ressentimentos. Preciso lutar para que minha pior natureza não se sinta energizada pelo tipo de militância auto-laudatória que a Djamila faz. Preciso proteger minhas melhores inclinações do tipo de postura que a Djamila representa, preciso não me sentir calado, amedrontado por colocar na mesa o que eu sinto honestamente. Preciso fazer mais que isso: preciso olhar na Djamila o que me faz admirá-la. Para tanto, preciso também lutar contra os meus próprios medos. Por exemplo, medo de elogiar uma mulher em razão da maquiagem. Aliás, por que isso é moralmente errado? É moralmente errado? É ou não é? Estou esperando o quê? Uma autorização por escrito da Djamila Ribeiro, a fim de que eu elogie o que eu quiser elogiar? Foda-se a militância torpe, sectária, superficial, infantil, opressora da Djamila Ribeiro. Vou elogiá-la sim, quer ela queira, quer não: arrasou na maquiagem, GATA!

FELIPE EDUARDO LÁZARO BRAGA é doutorando em Sociologia (FFLCH-USP)

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