por Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr

O letramento sobre o tema do machismo é um processo constante, surpreendente, necessário e subversivo, sobretudo para os homens que reconhecem a importância de rever a cultura sexista, patriarcal e controladora da qual são agentes. Precisei ler o livro A vegetariana, de Han Kang, algumas vezes para me conscientizar mais sobre isso.
A primeira leitura foi “espontânea”, e as seguintes decorreram a partir de uma provocação de uma jovem mulher. Estávamos em férias com alguns familiares, e a minha sobrinha, ao constatar que eu não largava o livro, quando teve oportunidade, me interpelou – “O que a leitura te diz?” Logo pensei, se ela tivesse perguntado sobre o que eu estava achando da leitura, talvez ficaria mais fácil responder. Entretanto, ela queria saber do dizer, ou seja, dos efeitos inconscientes. Nesse momento, apenas disse algo do tipo: estranha, desestabilizadora, violenta. Ao que ela responde: “É muito mais do que isso. A vegetariana é um livro sobre posse, machismo, dominação, controle, misoginia e resistência à violência masculina, ao patriarcado. Vou te dar uma dica: se não entenderes o detalhe do controle do marido da protagonista em relação ao uso do sutiã, nunca vais compreender a complexidade desse livro”.
Depois da veemência de sua fala só me restou apreender, escutar e agradecer por sua chave de leitura. Após aquela conversa, além de perceber a necessidade de releituras, assisti a uma entrevista² de Han Kang que, em outras palavras, reforçava a leitura da minha sobrinha, dizia a autora: “A vegetariana compreende muitas temáticas. A mais importante é a violência humana”. Logo após, lança a pergunta: “Os homens poderiam renunciar completamente a violência? O que se passaria se eles decidissem por renunciar?” Kang deixa evidente se tratar de um romance que aborda a violência produzida e propagada pelos homens a ponto de a protagonista, Yeonghye Kim, se insurgir quando decide, após um sonho, parar de comer carne como forma de resistência à brutalidade masculina; ainda que isso implicasse negar sua humanidade até tornar-se planta.
O livro A vegetariana foi lançado na Coreia do Sul, em 2007, teve uma primeira tradução no Brasil em 2013 por Yun Jung Im, publicado pela editora Devir e, em 2018, foi publicado pela Todavia, com tradução de Jae Hyung Woo, versão a qual se baseia essa coluna. Trata-se de um romance dividido em três partes, A vegetariana, A mancha mongólica e Árvores em chamas, podendo também ser lido como três novelas narradas por diferentes vozes narrativas que, além de possibilitarem diferentes olhares sobre uma história, sequestram a voz de uma protagonista cuja fala está praticamente ausente. Desse modo, desde as primeiras linhas, a estrutura patriarcal demarca sua capacidade de silenciamento, pois passamos a saber algo de Yeonghye, primeiro, através de seu marido Jeong, depois, na segunda parte do livro, a partir de seu cunhado e, por último, mediante a narração de Inhye Kim, a irmã.
O leitor poderá se deparar com alguma ideia de voz própria de Yeonghye especialmente quando ela relata seus sonhos e pesadelos. Será a partir da interpretação que ela realiza de seus processos oníricos que a questão nodal da trama irá se desvelar seguido de uma conflitiva capaz de desestabilizar o ordenamento vigente. Depois de uma noite de sonhos perturbadores, envoltos em sangue, morte e carne, ela toma a decisão categórica de nunca mais comer “animais mortos” e seus derivados. O sangue e o cheiro tornam-se insuportáveis, qualquer coisa de origem animal será rechaçada, até mesmo transar com o marido que passa a cheirar à carne por todos os poros será impossível. Assim, o sonho será o lugar por excelência de subjetivação da protagonista, pois a recusa a esse objeto também se inscreve como tentativa de estancar os pesadelos.
Na primeira parte, em A vegetariana, é o marido que informa sobre a mudança radical de sua companheira. Desde a primeira forma de apresentação da esposa, a desqualificação está presente. Inclusive chega a dizer que jamais tinha lhe ocorrido o fato de ela ser uma pessoa especial até adotar o estilo de vida vegetariano. Ele a considera alguém desprovida de qualquer tipo de charme, de beleza, de personalidade, o que parecia deixá-lo à vontade com a sua própria mediocridade: “Acabei me casando porque ela não tinha nenhum charme especial, e também por não ter notado defeitos muito gritantes. Uma personalidade dessas, sem frescor, brilhantismo ou refinamento, me deixava confortável. Não sentia necessidade de bancar o inteligente para conquistá-la e não precisava correr tentando não chegar atrasado aos nossos encontros. Tampouco sentia complexo de inferioridade ao me comparar com os típicos galãs dos catálogos de moda” (Kang, 2018, p. 9). Até mesmo o seu pênis pequeno, que lhe causava certo constrangimento, parecia não lhe incomodar mais pelo simples fato de estar ao lado dela.
O narcisismo de Jeong parece estar sempre disputando espaço com a violência e a indiferença com que ele se refere a Yeonghye. A ela destinava apenas o lugar de servidão doméstica, submissão e instrumentalização sexual a ponto de destituí-la da condição de sujeito de desejos. Levando-a à exaustão, importa-se somente com a sua própria imagem idealizada frente aos olhares alheios: A gente tem que fazer bonito hoje. Você precisa se comportar… Se não falar nada, será melhor, os velhos gostam de mulheres caladas.
Apesar de constatar que a mudança de comportamento de sua esposa dava sinais evidentes de preocupações: perda de peso, insônia, delírio, o que parecia mais lhe incomodar era o fato de ela não querer fazer sexo com ele. No entanto, isso sequer o impedia de abusá-la sem consentimento. Tudo deveria girar em torno de seu egocentrismo, inclusive chegou a acreditar que ela não usava sutiã em função de algum sinal que desejava enviá-lo. Tão logo percebeu o quanto aquilo não lhe dizia respeito, levantou as hipóteses e fez afirmações: Preguiça? Displicência? Os seios dela não eram lá grande coisa. Eu não conseguia compreender. Nem combinava ficar sem sutiã. Se, em vez disso, ela ao menos usasse sutiãs com bojos generosos, eu teria me sentido melhor quando a apresentava para meus amigos.
O controle e as estratégias perversas de dominação levavam-lhe a adverti-la coercitivamente para fazer uso daquilo que ela não suportava. Mesmo Yeonghye justificando o quanto aquele objeto era sufocante e lhe apertava o peito, o que ela pensava, sabia ou sentia, ele sequer levava em consideração: “Como eu nunca usei um, não tinha como saber o quanto isso era verdade, mas, de acordo com o que eu observava, as outras mulheres não se sentiam incomodadas, por isso sua sensibilidade extrema me parecia estranha” (p.11). Provavelmente tenha me detido na leitura dessa passagem pelo fato de minha sobrinha ter chamado a atenção para esse detalhe central na trama, pois, no discurso misógino, o saber, o sentimento e a fala da mulher são uma espécie de ameaça, o que importa é somente a percepção masculina. No transcorrer da leitura, vamos nos dando conta que a recusa ao uso do objeto opressor é só o começo de um grito de liberdade da protagonista em relação à violência manifesta por todos os homens de sua família, a começar pelo próprio pai.
Outro fator de resistência à violência masculina se manifesta a partir do relato de um sonho. Nessa ocasião, o marido fala de seu espanto ao encontrá-la na madrugada com aspecto de doida, imóvel, olhando fixamente para a porta da geladeira. Momento ímpar, pois o leitor tem a oportunidade de se deparar com as primeiras palavras da protagonista: “Eu tive um sonho”. Os efeitos produzidos pelo sonho e a interpretação decorrente dele: a decisão de nunca mais comer carne, desencadearam uma revolta na família, que irá se insurgir contra a sua decisão.
O pai, combatente durante a Guerra do Vietnã, opõe-se violentamente diante da escolha da filha. Durante um jantar, após afirmar “quando mando comer, você come”, numa cena abjeta, ao forçar a entrada do alimento na boca da filha, ele a esbofeteia. Se, na condição de adulta, esse pai lida com ela dessa forma, o que ela teria passado nas mãos dele quando criança? De quais outros abusos Yeonghye teria sido vítima?
Diante da violência desmedida do pai, somada à cumplicidade dos demais, Yeonghye, numa situação limite, pega uma faca e corta os pulsos. Cortar a própria carne foi a reação face à violência à qual estava submetida, uma tentativa desesperada para impedir o controle abusivo do outro sobre o seu corpo. A violência, a incompreensão e o emudecimento são alguns elementos que demarcam a ruptura entre ela e seus familiares. Assim, para os coléricos da carne, ela irá dizer: “Não sou carne, sou planta”, “preciso me encharcar de água. Não preciso de comida, mana. Só de água…”. Como observa Souza², a violência à qual ela foi submetida culminou na negação de sua animalidade.
O vegetarianismo foi a primeira reação de Yeonghye à violência sofrida, que culminou numa total negação de sua própria animalidade. Tendo sua identidade enquanto ser humano negada, sendo diversas vezes silenciada e violentada em prol de um ideal de mulher e esposa, ela tenta rebelar-se retomando o controle do seu próprio corpo, negando-se a ingerir carne (Souza, 2021, p.29).
No capítulo A mancha mongólica, o narrador passa a ser o cunhado, marido da irmã da protagonista. Após escutar através de sua esposa que Yeonghye ainda possuía a mancha mongólica nas nádegas, característica desde criança, ele ficou absolutamente obcecado.
Foi nesse instante que lhe veio a imagem de uma flor azul-esverdeada, da cor do mar, saindo do meio das nádegas de uma mulher. A possibilidade de sua cunhada, irmã mais nova de sua esposa, ainda ter a mancha mongólica na bunda o intrigou. Inexplicavelmente, ele associou a informação à ideia de homens e mulheres, com flores pintadas pelo corpo, copulando, formando em sua cabeça uma clara relação de causa e efeito (Kang, 2018, p.61).
Fixado naquilo que teria se tornado uma forma de fetiche e ao perceber a extrema fragilidade psíquica de Yeonghye, ele irá instrumentalizá-la, tomando-a como objeto de seus experimentos. Isso o levou a seduzi-la para que ela posasse nua como modelo e fizesse uma filmagem com os dois fazendo sexo depois de ter pintado seus corpos com flores coloridas. Tratava-se de outro homem assombrado pela mediocridade da própria vida que irá usurpar do poder, destituindo-a da condição de sujeito. No transcorrer da releitura foi inevitável a lembrança da entrevista de Han Kang, mencionada antes: “Os homens poderiam renunciar completamente a violência? O que se passaria se eles decidissem por renunciar?”
Na terceira e última parte do livro, Árvores em chamas, Inhye, a irmã da protagonista é a principal narradora. Quatro anos mais velha, ela parece ter sido a única que, desde criança, cuidava, protegia e tentava compreender Yeonghye. Através dela o leitor toma conhecimento de que os irmãos “apanhavam da mão pesada do pai”, assim como o quanto cada um precisou criar as suas defesas para lidar com as violências físicas e psicológicas advindas dele. Ela, resignada, submeteu-se às regras e às demandas paternas, o irmão, identificado com o agressor, batia nos outros, “por isso, não sofria muito”, ao passo que Yeonghye, sua principal vítima, sem conseguir reagir, “fora atingida até o fundo dos ossos”.
Yeonghye era o principal alvo da violência deferida pelo pai. O irmão mais novo, por ser homem, saía batendo em outros meninos do bairro tanto quanto apanhava em casa, e por isso deve ter sofrido menos. E ela recebia mais atenção, pois era quem preparava a sopa para aliviar a ressaca do pai no lugar da mãe, que estava sempre cansada. Mas Yeonghye, de personalidade pouco condescendente, não sabia acompanhar os humores paternos. E sem conseguir oferecer resistência, os maus-tratos devem ter lhe atingido até o fundo dos ossos. Agora ela sabe: a diligência com que ela agia como filha mais velha não era fruto de uma maturidade precoce, e sim de covardia. Era apenas um meio de sobrevivência (Kang, 2018, p.149).
Ao se deparar com a sua forma de lidar com o pai, Inhye reconhece as consequências disso, os sentimentos de culpa, vergonha e covardia se enunciam como fantasmas de longa data. Ao ver a irmã definhar, consumida pelo delírio de virar planta, pesando menos de trinta quilos, ela chega a pensar que Yeonghye deseja virar criança novamente. Entre tantas passagens tocantes, a lembrança de infância dos passeios no bosque, quando a irmã mais nova pedia para que ficassem ali e não retornassem para casa, é muito intrigante.
O bosque, as plantas, o medo de retornar à casa. Fica a dúvida, haveria outras formas de abuso da qual ela precisaria se proteger? Nesse aspecto, cabe ressaltar uma recordação de infância brutal: quando criança, Yeonghye foi mordida por um cachorro, o pai, após torturar e executar o animal, fez a filha comê-lo. Portanto, é curioso que o seu objeto de recusa será tanto em função de seus restos traumáticos quanto pelo fato de seu lugar de apreço no contexto familiar, como observou Jeong: Toda a família – especialmente meu sogro – era apreciadora de carne.
Nojo, recusa e culpa parecem estar amalgamados para Yeonghye, seja pela lembrança de naquele dia ter comido muita carne de cachorro, seja porque, em algum momento, ela teria sentido uma espécie de salivação ao passar em frente de um açougue. Se, de um lado, é preciso rechaçar a animalidade dos outros; de outro, faz-se imperativo estancar a própria: “Comi carne demais. Todas essas vidas estão entaladas aqui. Tenho certeza. Sangue e carne foram digeridos e se espalham por todos os cantos do meu corpo; os resíduos foram colocados para fora, mas as vidas insistem em obstruir o plexo solar” (Kang, 2018, p.50). A recusa de comer carne decorre também do receio de que os seres que atormentavam seus sonhos seriam as almas dos animais ingeridos ao longo de sua vida.
Realmente, com disse Han Kang: “A vegetariana compreende muitas temáticas”. Como psicanalista gostaria de observar alguns aspectos: como cada filho consegue se defender da violência de um pai tem consequências muito particulares no rumo de sua vida; os sonhos, além de serem realizações alucinatórias de desejos, como apontou Freud, muitas vezes, constituem-se como tentativas de simbolizar o traumático. Os resíduos da memória de um corpo estilhaçado retornam numa certa busca de um lugar possível e singular de enunciação.
A vegetariana nos ensina sobre as diversas formas de materialização da violência do patriarcado. Mais do que isso, o romance adverte o leitor, interrogando as suas condições de recusar tanto a violência que habita em si mesmo quanto aquelas que advêm dos outros. Portanto, se, de um lado, aprendi com Freud que um charuto pode ser só um charuto; de outro, aprendi com Han Kang que um sutiã pode ser muito mais que um simples sutiã.
NORTON CEZAR DAL FOLLO DA ROSA JR. é Psicanalista, membro da APPOA e do Instituto APPOA, doutor em Psicologia Social e Institucional – UFRGS, autor dos livros: Magnólias 57 (Appris, 2024); Lacan com Hamlet e alguns outros (Escuta, 2022); Ensaio sobre as pedofilias (Escuta, 2021); Perversões: o desejo do analista em questão (Appris, 2019).
1 A esse respeito ver: https://www.youtube.com/watch?v=XcgvC8GDpiQ. Rencontre avec Han Kang: Prix Nobel de Littérature 2024 | Interview intégrale 13 de dez. de 2024. Le 17 septembre 2017, l’autrice coréenne Han KANG rendait visite à l’Université Jean Moulin Lyon 3. Son livre “La végétarienne” était en compétition cette année-là du Prix Caméléon des étudiants. Son prix Nobel 2024 de littérature est l’occasion de revivre ce moment. Ver também: https://www.youtube.com/watch?v=wl41sEGXN2Q. Man Booker International winners Han Kang & Deborah Smith on The Vegetarian.
2 A autora propõe a leitura de A vegetariana a partir da política sexual da carne, apresentada por Carol J. Adams. A esse respeito ver: SOUZA, Ariel, Oliveira, Leite, de. Carnismo e sexismo: Uma leitura ecofeminista de A vegetariana de Han Kang. In: Literaturas de autoria feminina. Revista Cacto Ciência, Arte, Comunicação em Transdisciplinaridade. Online V. 1 N. 1 2021/ISSN 2764-1686. Sugere-se também: ADAMS, Carol J. A política sexual da carne: A relação entre o carnivorismo e a dominância. Tradução Cristina Cupertino. São Paulo: Alaúde Editora, 2012.
