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Bebê Rena não é só sobre “stalkers”

por Thamara Mir

Bebê Rena, vencedora do Globo de Ouro 2025 na categoria Melhor Minissérie, Antologia ou Telefilme, não é apenas uma série sobre stalkers, como ficou conhecida. Criada, roteirizada e protagonizada por Richard Gadd, a obra de sete episódios narra a história do comediante Donny, que passa a ser perseguido e assediado por Martha Scott, uma mulher tomada por uma obsessão aparentemente muito doentia. Mas ao invés de denunciá-la, Donny estabelece uma estranha e controversa relação com ela.

A intrigante minissérie conquistou o top 10  em mais de 80 países na plataforma de streaming onde foi lançada em 2024. E foi definida pela crítica como perturbadora devido a abordagem realista sobre o stalking.

O que torna a série ainda mais impactante é o fato de ser baseada em fatos vividos pelo próprio Gadd. E por esta razão, os burburinhos se dividiram entre admiração e questionamentos pela sua ousadia e coragem.

Segundo a  história retratada na série, Martha enviou mais de 41 mil e-mails, 350 horas de mensagens de voz, 106 páginas de cartas, 744 tuítes e 46 mensagens no Facebook para Gadd. Esta personagem, inclusive, rendeu à Jessica Gunning, o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante de programa de TV. E sua atuação foi realmente brilhante.

Muitas polêmicas surgiram após o sucesso inegável de Bebê Rena. Redes sociais foram dominadas com posts e hashtags sobre o tema central da trama. Surfaram na crista dessa onda gigante, famosos e anônimos, publicando que também foram vítimas de stalkers.

Um importante debate eclodiu sobre esse tipo de conduta que caracteriza-se como “crime de perseguição”, tipificado no Brasil pela lei 14.132/2021 como: “perseguir alguém, reiteradamente e por qualquer meio, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade”. Destaca-se que, conforme especialistas,  o crime de perseguição é  “um comportamento que, evoluindo, poderá pôr a liberdade da vítima em risco”. E ao contrário do senso comum, o stalker (perseguidor) não age apenas de forma agressiva, mas pode agir também de maneira gentil. É a perpetuação do incômodo provocado à vítima que define o crime.

A série repercutiu tanto que até a verdadeira identidade da mulher que teria perseguido Gadd na vida real veio a ser revelada após ser descoberta por internautas curiosos. Ela se chama Fiona Harvey e está processando a plataforma de streaming, alegando difamação e sua defesa refere que a história contada por Gadd é uma mentira, acusando-o de usar a obra para destruí-la, além de ganhar fama e dinheiro.

De qualquer forma, se houve ou não má fé e manipulação dos fatos, por parte de Gadd, ao assistir a minissérie em um final de semana do último outono, fui tomada por uma inquietação pulsante. A trama apresenta  inúmeras camadas e  revela-se  profunda, caótica e paradoxal, assim como as personagens principais. Bebê Rena apresenta muito mais do que uma história sobre stalking.

A narrativa, ficcional ou não, pode realmente causar efeitos de um gancho frontal na boca do estômago em pessoas mais sensíveis, especialmente por abordar temas delicados como abusos físicos e psicológicos. Esses gatilhos não apenas evocam emoções profundas, mas também expõem a fragilidade humana frente às inúmeras violências sofridas e perpetradas no campo das relações interpessoais (afetivas ou não).

A luz de uma perspectiva psicanalítica, Bebê Rena é uma série sobre abusos, seus efeitos e consequências. É sobre a vulnerabilidade e a fragilidade humanas. É sobre pessoas que ferem, machucam outras pessoas, devastando corpos e principalmente almas. É sobre as marcas profundas dos traumas psíquicos que emergem repetidamente na superfície, como ondas do mar que acabam quebrando sobre si mesmas.

Martha (a stalker) foi uma criança negligenciada que cresceu em um ambiente violento. Não recebeu amor, cuidado, proteção e atenção de seus pais. Cresceu solitária, abandonada à própria sorte e a única parte boa da sua infância foi um bichinho de pelúcia.

Essa negligência inicial parece emergir mais tarde como uma compulsão à repetição, levando Martha a recriar, em suas relações adultas, os mesmos padrões de rejeição e dor que marcaram sua infância. Na vida adulta, sua loucura ou desordem psicológica é se apaixonar violentamente por quem lhe dá um mínimo de atenção qualquer. A perseguição obsessiva por Donny é, assim, uma tentativa inconsciente de lidar com suas feridas psíquicas.

Ao receber uma suposta atenção e interpretar este gesto como um afeto, como um interesse genuíno em sua pessoa e vislumbrar a possibilidade de estabelecer um vínculo afetivo, um enlace amoroso, uma relação com o Outro, fica completamente obcecada. Descontrolada e desesperada frente a qualquer ameaça de perda do objeto amado. E passa a persegui-lo. Dia e noite. Incessantemente. Exaustivamente. Invasivamente. Dolorosamente.

A perseguição incansável de Martha e o sofrimento que ela inflige a si mesma também podem ser compreendidos como uma manifestação da pulsão de morte, conceito fundamental da Psicanálise. Essa força inconsciente a conduz à destruição, tanto de suas relações quanto de si mesma.

Mas Martha também identifica a fragilidade, a vulnerabilidade do seu objeto de amor (e de perseguição). Ele (Donny) também foi machucado por alguém. Alguém em quem confiou e por quem foi manipulado e violentado. E ele também deseja ser amado. Quer ser reconhecido pelo que acredita ser o seu talento. Quer ser um comediante de sucesso. Este é o seu sonho!

Mas os efeitos dos abusos e violências que sofreu, protagonizam, ou melhor, dirigem o drama trágico da sua vida psíquica, afetiva e sexual. O sentimento de culpa, a dúvida e a vergonha sobre seu próprio desejo, o perseguem. Donny também sofre, sente-se vulnerável e identifica-se com a vulnerabilidade de Martha. E também se torna obcecado. Toda relação é uma via de mão dupla e sintomática.

A dinâmica entre Donny e Martha parece marcada pela transferência, na qual ambos projetam no outro as figuras de seus passados traumáticos. Para Donny, Martha simboliza um retorno às situações de manipulação e abuso que ele tenta esquecer, enquanto para Martha, Donny se torna o receptáculo de suas carências emocionais mais profundas. Os traumas psíquicos de Donny e Martha emergem na forma de uma compulsão à repetição, levando-os a recriar, em suas relações atuais, os mesmos padrões destrutivos que marcaram suas histórias de abuso.

Bebê Rena não é (só) sobre stalkers. É sobre a devastação emocional, os padrões autodestrutivos, a angústia e o desamparo causados por relações abusivas e pela atualização dos traumas. E, sobretudo, Bebê Rena, esse apelido carinhoso, é sobre a necessidade de amar e se sentir amado e não saber como se faz isso.

De fato, a  produção é realmente perturbadora, pois serve como um espelho, no qual as pessoas podem se reconhecer ou se espantar, refletindo o que há de mais estranho — e, paradoxalmente, mais familiar — em si mesmas.

Por fim, em Bebê Rena, Gadd coloca em cena o desamparo, núcleo central da vida psíquica humana. Para Freud, o desamparo é uma experiência fundamental da condição humana, em torno da qual se constitui a posição do sujeito no laço social. A vulnerabilidade frente ao outro é inerente à existência, e o sofrimento decorrente das frustrações, abusos e violências vividas nas relações com os outros é uma das mais avassaladoras fontes de sofrimento e vivências traumáticas.

THAMARA MIR é psicóloga, psicanalista, mestre em Saúde Coletiva, pesquisadora sobre Violência e Saúde, especialista em Saúde Mental, Saúde Pública e Epidemiologia.

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